Viagem e Aventuras

Um Maratonista Improvável Movido Pela Ciência, Obsessão e Paixão por Desafios Extremos

Vencer uma corrida de 249 quilómetros vai muito além da velocidade. Quarta-feira, 16 Maio

Por Joseph Bien-Kahn

Num dia de primavera em 2010, Zandy Mangold descansava, estendido no chão, sob a porta traseira rebatida de um todo-o-terreno, a única sombra que conseguiu encontrar neste recanto do interior. A cabeça latejava-lhe, ao mesmo tempo que se debatia com as náuseas. Premiu os ombros contra a terra de tons vermelho-ferrugem e improvisou uma almofada com uns quantos garrafões de água. Tinha sido uma semana atipicamente húmida no noroeste australiano e o fotógrafo, alto e magro, oriundo de Williamsburg, em Nova Iorque, tinha apenas percorrido os primeiros 19 dos 249 quilómetros de uma ultramaratona.

Mangold sabia que tinha cometido um erro terrível.

Não é à toa que o percurso de Mangold nas ultramaratonas tenha começado aqui, vencido por uma insolação, sob um calor húmido sufocante, com 230 quilómetros pela frente. Quando lhe perguntam sobre esse momento, ele desvia a conversa para as vitórias que alcançou anos mais tarde e foca-se nas lutas. As ultramaratonas são, ao que parece, uma competição agonizante de unhas de pés quebradas, coxas inchadas e hemorroidas tão inflamadas que o voo de regresso a casa é mais doloroso do que a própria corrida.  Ainda assim, é o sofrimento que alimenta esta espécie de obsessão.

Sete anos após a sua primeira ultramaratona, Mangold, de 43 anos, participou na corrida do deserto de Atacama, em outubro último, uma competição que transporta os atletas ao deserto não-polar mais árido do planeta. A sua atenção centrou-se meticulosamente na dieta alimentar, na frequência cardíaca, na mecânica da passada e na convicção de que esta era a corrida, a sua corrida.  Mas, como em qualquer ultramaratona, o seu corpo apenas o levaria até onde a mente lhe permitisse chegar.

A PREPARAÇÃO DE UM ULTRA-ATLETA

Uma ultramaratona é qualquer corrida com uma distância superior à de uma maratona, ou seja, 42 quilómetros. As ultramaratonas realizam-se em distâncias de 50, 80, 100, 161 quilómetros ou mais. A Racing The Planet é uma entidade responsável pela organização de um conjunto de corridas de 249 quilómetros que atravessam áreas desérticas, nomeadamente no deserto de Gobi, na China, no deserto de Atacama, no Chile, no deserto do Sahara, no Egito, e na Antártida. As corridas dos quatro desertos estendem-se ao longo de sete dias e os atletas têm de levar mochilas e as próprias provisões para a semana.

Estas corridas exigem uma preparação diferente da das maratonas. Para competir verdadeiramente na maratona de Boston, é preciso ser-se um atleta de excelência, extraordinariamente bem organizado. O ritmo é fundamental quando a diferença entre o primeiro e o segundo lugar é de apenas 21 segundos. Os melhores maratonistas têm uma atenção particular ao detalhe, são ambiciosos, impacientes e muito competitivos.

Os ultramaratonistas orgulham-se de algo muito diferente. Ao longo do percurso, é quase certo que algo corra mal. Com zonas de acampamento dispersas e trilhos assinalados de modo grosseiro, a capacidade de perseverar perante a adversidade é uma aptidão essencial. Isto significa que a multidão dos quatro desertos é constituída por atletas de elite, atletas olímpicos e elementos dos Navy Seals, e também por dentistas, advogados dos direitos humanos e toxicodependentes em processo de recuperação, que, surpreendentemente, revelam uma notável capacidade de superação.

SUPORTAR O DESCONFORTO

O deserto de Atacama tinha tudo para fazer sofrer Mangold.

Ao terceiro dia da sua última tentativa, Mangold aproximou-se de uma cruel planície de sal. Nessa manhã, ao acordar na tenda, Mangold sentia os joelhos e os tornozelos rígidos, consequência das maratonas consecutivas que lhe pesavam nas pernas. Com 32 quilómetros para percorrer até ao próximo acampamento, Mangold começava agora a parte do trajeto chileno de que menos gosta.

As planícies de sal são um cenário improvável para uma corrida e os efeitos podem ser brutais. E tanto assim é que a NASA testou a sonda espacial Mars nestas salinas e terras áridas. Ainda assim, Mangold seguiu caminho, saltitando sobre uma superfície quebradiça e cortante, que descreve como “algo parecido com um molho de brócolos congelados”. Arbustos, que, inexplicavelmente, vingam na terra salgada, golpeavam-lhe as pernas até sangrar. Mas ele estava em primeiro lugar.

A menos que torcesse o tornozelo, Mangold tinha grandes hipóteses de vencer a competição.

UM COMPETIDOR IMPROVÁVEL

Até mesmo no universo excêntrico das ultramaratonas, Mangold é uma lebre improvável. O fotógrafo de Brooklyn é uma presença assídua no festival de música e desporto Warped Tour, segue uma dieta vegana, ainda que afirme não ser militante, toca bateria numa banda chamada Mañana Couch e vende biscoitos para ganhar uns dinheiros extra.  Apesar da sua voz, uma combinação de dois terços da voz de Mark Hoppus do Blink 182 e um terço da voz da personagem de Sean Penn em Viver Depressa, Mangold é extremamente competitivo e tem um prazer, quase obsessivo, de se testar até ao limite.

“Adoro ter pena de mim mesmo em relação às outras pessoas e talvez isso seja um pouco doentio”, afirma. “Gosto de levar a melhor sobre os outros, de sofrer mais do que eles ou de vencê-los pela estratégia em ambientes extremos”.

A aparência deste aposentado do pop punk contribuiu para que os seus pares subestimassem o espírito competitivo de Mangold desde o início. Stephanie Case, uma ultramaratonista e uma advogada dos direitos humanos, partilhou uma tenda com Mangold durante a sua primeira tentativa na Austrália. Mangold não passou despercebido aos olhos de Case, embora ela não o visse como uma ameaça. “Brooklyn, alto e magro, criativo, banal”, relembra, com um sorriso.

Case aproximou-se sempre do grupo que levava a dianteira durante a prova, enquanto Mangold esteve sempre nas últimas posições. Case lembra-se de estar sentada em torno da fogueira do acampamento, a comer uma refeição liofilizada e a contar histórias e “nem sinal de Zandy”. Uma noite no acampamento, acordaram e repararam que ele não estava na tenda. Mangold já tinha chegado tarde e não quis correr o risco de acordar os outros atletas, pelo que decidiu dormir no exterior da tenda, sob um céu estrelado.

Para Case, a história diz muito sobre os traços da personalidade de Mangold, que contribuíram para fazer dele um ultramaratonista de topo: ele é destemido, generoso, desmesuradamente de baixa manutenção e um tanto estranho.

UM CAMINHO SINUOSO ATÉ À META

Mangold cresceu nos bosques em New Hamphire e atribui à sua educação rural, cheia de desafios, o seu espírito de sobrevivência. O relativo isolamento da sua casa, aquecida por fornos a lenha, levou-o a passar horas a praticar desporto sozinho. Mangold atirava a bola contra uma parede de cimento, estudava os lançamentos de bola no basquetebol e simulava batidas de bola com o taco de beisebol em frente de um espelho. A sua inclinação para desportos individuais tornou-se evidente em Connecticut College, onde participou na prova de corta-mato. Em 2001, após concluir os estudos de fotografia no Portfolio Center em Atlanta, Mangold mudou-se para Nova Iorque para se tornar num fotógrafo profissional.

E se a infância de Mangold o ensinou a sobreviver na natureza e os anos de faculdade a correr, os seus primeiros anos em Nova Iorque ensinaram-no a sofrer.

Com quase 30 anos, Mangold era um simples ajudante de empregado de mesa em alguns clubes noturnos de Manhattan. Ele limpava a imundície dos outros, das 8 da noite às 4 da manhã, para poder assistir às sessões de fotografia ou tocar bateria em atuações gratuitas durante o dia. Mangold vivia num armazém e partilhava a casa de banho com uma dúzia de pessoas. “Acampamento urbano”, explica. Mas ele projeta sobre o passado um olhar romântico. “Quando tens um objetivo, algo pelo qual lutas, torna-se muito mais fácil lidar com a adversidade”, afirma. “Era apenas aquele espírito do tudo ou nada”. Em 2006, Mangold começou a fotografar a tempo inteiro.

Foi um trabalho de fotografia em 2009 para a Racing The Planet sobre a corrida do deserto de Atacama que despertou o interesse de Mangold pelas ultramaratonas.  Havia certas partes do trilho às quais o camião não podia aceder, pelo que Mangold abandonava o veículo e acompanhava os atletas ao longo da corrida. A semente de uma ideia começou a ganhar forma na sua cabeça. “Na verdade, eu até corro mais depressa do que alguns destes atletas e a minha mochila é bem mais pesada, por isso…”, lembra-se de pensar. Um ano mais tarde, abrigado do sol por baixo de um todo-o-terreno na Austrália, era evidente que a vitória não seria assim tão fácil de alcançar.

Mangold pesquisou sobre o desporto e absorveu os conselhos de outros atletas. Conseguiu um patrocínio com a Hammer Nutrition, uma empresa especializada em nutrição desportiva, que lhe assegura a alimentação durante a corrida, uma clara melhoria comparativamente aos figos secos que comeu na ultramaratona inaugural. Leu o livro Born to Run de Christopher McDougal e trabalhou a passada. Dois anos depois, tudo parecia seguir no caminho certo e Mangold via os seus tempos melhorar.

Em 2013, com um esquema de treinos rigoroso, Mangold começou a acreditar que seria capaz de se demarcar do grupo. Dificilmente acabaria entre os primeiros lugares, mas sentia-se forte, ágil e focado.  

Semanas antes da ultramaratona de Atacama, Mangold escorregou numa fina camada de gelo que cobria o asfalto e torceu o tornozelo. Ainda arriscou correr três semanas mais tarde. Conseguiu concluir a terceira etapa na terceira posição, mas desistiu antes do quarto dia. Mangold nunca recuperou totalmente da entorse, e o tornozelo continuou queixoso durante anos. “Sempre acreditei que se superasse esta lesão, poderia ir mais longe”, afirma Mangold. “Embora fosse essa a minha convicção, não tinha nada que a suportasse. Os resultados não estavam lá. Mas eu tinha fé.”

Dois anos mais tarde, Mangold sofre nova entorse no outro tornozelo no primeiro dia de uma outra ultramaratona de Atacama. Ainda assim, conseguiu terminar a prova na segunda posição. Depois, conseguiu arrecadar o quarto lugar na prova Keys 100, na Flórida. Mangold sentiu que a vitória estava próxima, mas ainda não tinha superado a pior parte. Numa corrida de 80 quilómetros, antes da prova de outubro último, os atacadores dos ténis de Mangold ficaram presos e ele perdeu a liderança, enquanto usava o canivete para se libertar dos atacadores.

MOVIDO PELA CIÊNCIA

No verão de 2017, Mangold ouviu falar de um estudo desenvolvido por Patrick Davitt, um professor assistente na vizinha Mercy College. Davitt analisava os efeitos energéticos dos diferentes carboidratos nos ultramaratonistas. Davitt ficou, imediatamente, fascinado com as capacidades de Mangold, que o interpelava sucessivamente com perguntas sobre nutrição. Parecia que Mangold seria capaz de correr indefinidamente sobre a passadeira e “estava extremamente relaxado e tranquilo.”

Davitt mediu a capacidade aeróbica de Mangold, denominado VO2 máximo, e o limiar de lactato, o ponto de esforço a partir do qual o corpo de um atleta começa a produzir ácido láctico, responsável pela fadiga muscular.  Um mês antes da ultramaratona de Atacama, Davitt fez um gráfico simples e personalizado de Mangold, que incidia sobre o consumo de calorias por períodos de tempo, em determinadas frequências cardíacas. O gráfico indicava a frequência cardíaca ótima situada abaixo do limiar de ácido láctico. “Começámos a ajustar os consumos de calorias”, afirma Davitt. Mangold tornou-se obcecado pelos detalhes.

Correr no deserto de Atacama exige um certo tipo de loucura. O deserto mais árido do planeta tem tanto de distópico, como de belo. O calor e a altitude, a par da exaustão do atleta, podem iludir a mente, mas Magold manteve o foco durante a corrida de outubro último. “Eu penso sobre a nutrição. Eu penso sobre a minha condição física. Eu penso sobre a forma como posso maximizar o meu progresso, por mais aborrecido que isso possa parecer”, afirma. “Mas, para mim, cada detalhe é, infinitamente, fascinante. É como o Pi. Nunca se chega ao fim da equação.”

UM ERRO QUASE FATAL

As corridas dos quatro desertos repartem-se por seis etapas, distribuídas por sete dias, mas não de forma idêntica. Em cada um dos primeiros quatro dias, os atletas correm entre 35 a 45 quilómetros. No quinto e sexto dias, os atletas correm a longa marcha, um percurso entre os 69 e os 90 quilómetros, com uma paragem noturna num posto de abastecimento, onde os desportistas podem dormir algumas horas. No último dia, que é visto quase como uma celebração, os atletas correm os últimos 10 quilómetros de regresso à cidade onde foi dada a partida.

Mangold manteve uma liderança confortável durante 56 quilómetros da longa marcha da ultramaratona de outubro. Por incrível que pareça, ele tinha vencido cada uma das etapas da ultramaratona do deserto até ali. Agora, a apenas 16 quilómetros até ao último acampamento, Mangold tinha pela frente o terreno mais fácil do percurso de uma semana: uma estrada de terra batida que subia e descia sobre o solo árido. Mas nada é assim tão simples numa ultramaratona e o deserto de Atacama escondia outra surpresa na manga.

Quando Mangold se preparava para dar o tudo por tudo, apercebeu-se de que tinha esgotado a provisão de alimentos. Ele tinha admitido o erro antes do dia começar e sabia que iria doer, mas não tanto. Cada centímetro do seu corpo soava um alerta, o estômago doía-lhe e ele mal conseguia manter-se em movimento.  Mangold insistia com o corpo para que desse mais um passo. “Parecia um pesadelo”, diz. “Como se estivesse em areias movediças.”

O incidente não foi suficiente para deter Mangold. Ele estava preparado para a adversidade. Charlie Engle, protagonista do documentário Running the Sahara e autor de Running Man, que descreveu como a corrida de fundo o salvou de uma vida de vícios, encontra semelhanças entre si e Mangold. “Ele persevera naquele momento em que tudo parece querer desabar”, afirma Engle. “Para Zandy, existe esse desejo profundo de ver até onde pode chegar.”

Mangold preparou-se durante anos para atravessar o deserto mais árido do planeta, para correr mais rápido do que os seus adversários e, para vencer, tinha de encontrar uma forma de transpor o próximo obstáculo. “Disse a mim mesmo: um dia, nem sequer vais poder sofrer assim”, afirma. “Por isso, agarra o momento.”

Por fim, Mangold coxeou até ao acampamento, rastejou até à tenda e adormeceu.

O DERRADEIRO EMPURRÃO

O último dia da ultramaratona do deserto de Atacama leva os atletas por extensões planas do deserto e ribeiros estéreis. Nos últimos três quilómetros, os participantes serpenteiam por San Pedro de Atacama, uma pequena cidade idílica, com habitações erguidas em tijolo de adobe, em torno uma igreja da época colonial. 

Quando entram na cidade, os atletas sabem que irão terminar a corrida. Muitos deles abrandam a passada para contemplar as paisagens. Mangold, porém, mantém o ritmo, obcecado por correr de forma tão eficiente quanto possível. Ele não ia deixar nada ao acaso.

Só quando pôs, finalmente, a medalha ao pescoço é que Mangold se deu verdadeiramente conta da sua proeza. Sete anos após ter chegado em último lugar, Mangold vencera a ultramaratona de 249 quilómetros no deserto mais árido do planeta. E fê-lo aos 43 anos de idade. Viajara milhares de quilómetros em busca do sofrimento ou daquela emoção única que se sente quando se supera a maior adversidade. Mangold enfrentara tudo o que o deserto tinha guardado para si. Subira ao topo das dunas de areia, correra em bicos de pés, fintando as folhas pontiagudas dos arbustos do deserto, e atravessara extensões rochosas em tons de vermelho, entrecortadas por fendas. No êxtase do derradeiro momento, a 7 quilómetros entre ele e tudo aquilo para que tinha trabalhado, Mangold mal sentia a dor.

“Se querem saber…”, diz, com um sorriso, “supera qualquer dia passado em Nova Iorque”.

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