Um Fotógrafo Encontrou a Paz na Pesca nos Rios Luxuriantes do Quénia

Pete Muller procurava uma forma de sarar as feridas abertas, após anos de trabalho em algumas das regiões mais conflituosas do continente africano, e encontrou a paz no rio Mathioya.quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Descia sobre o vale a última luz do dia e o som das águas em movimento abafava todos os outros. Caminho sobre a orla do rio, na companhia do meu cão Mosi, nervoso pela incapacidade de ouvir para além das águas  da cascata. Apesar do seu impressionante tamanho, Mosi caminha timidamente no meu encalço. Aparentemente, vamos pescar, mas, na verdade, seguimos os passos de outros homens do passado, pessoas como John Burroughs, John Muir e Loren Eiseley, e os meus pais, Norman e Paula, que são ainda vivos, mas vivem longe deste vale do Quénia. As suas vozes dizem-me para caminhar pelo bosque, ao longo das margens de um rio onde, no epílogo azul de um dia bem passado, poderei encontrar os ritmos que me escapam. Ali, entre os peixes e as flores e as forças que os prendem, talvez consiga fazer as pazes com a minha mente inquieta.

Aventurei-me pela primeira vez nas terras altas da região central do Quénia em 2013, com a esperança de que os seus rios exercessem sobre mim um poder transformador, polindo as minhas arestas como poliram, no curso do tempo, as pedras que cruzaram o seu caminho. A angústia emocional nunca me abandonou, mas os anos em que trabalhei como fotojornalista em alguns dos territórios mais conflituosos do continente africano deixaram-me farpas profundas. Com o tempo, tornou-se difícil distinguir os conflitos dentro e diante de mim. Gradualmente, parecia que eles se entrelaçavam e comecei a sentir uma tensão crescente e um desconforto no meu interior.

A pesca à pluma, ou fly fishing, com os seus nós e lançamentos de precisão, parecia ser o tipo de arte que serviria de antídoto meditativo para o caos que tinha fotografado nos últimos anos. Eu não lançava uma linha de pesca desde os meus 10 anos, quando usava iscos e engodos para atrair os peixes nas águas do Atlântico, que cercavam os lugares onde vivi em criança, primeiro ao longo da costa de Nova Jersey e, mais tarde, em Massachusetts. O namorado da minha mãe da altura ensinou-me o básico. Era um homem grande e paternal, que tinha sido interrogador das Forças Especiais, uma experiência que também lhe deixara marcas. Enquanto prendia a isca ao anzol, explicava que não faria muito mais do que pescar e tirar fotografias, tendo abraçado profissionalmente esta última atividade após abandonar a vida militar. Quando a noite se anunciava no pontão, com a mão pousada confortavelmente sobre a cana de pesca, aquele homem parecia tranquilo.

Quase três décadas depois, regressei às águas, à procura de conforto e comunhão. Entre trabalhos, comecei a fugir do caos da capital, Nairobi, onde vivo, para percorrer as colinas ondulantes que circundam os rios Ragati e Mathioya da região central do Quénia. O Ragati corre lentamente pela floresta indígena protegida, onde uma rede de caminhos, usados por humanos, leopardos, elefantes e búfalos, atravessa a vegetação exuberante. O Mathioya é um rio fascinante, de águas cristalinas, que atravessa o centro da produção de chá do Quénia, entre as encostas das montanhas de Aberdares e os picos glaciares do monte Quénia. Ambos os rios acolhem populações de trutas-arco-íris e trutas mariscas furtivas mantidas através de programas de repovoamento dos poucos clubes de pesca e unidades de alojamento locais.

Alugo uma cabana simples na orla do rio, onde os sons do Mathioya são presença assídua. Sigo John Ngaii Moses, um homem ágil que, aos 57 anos, se movimenta sobre as pedras húmidas com a graciosidade e a confiança de um jovem. A sua vida começou quando a beleza do vale foi poluída pelo conflito e a injustiça dos homens. John nasceu num campo de detenção acima do rio, na aldeia de Kamuturi, em 1961, durante um período de “leis de exceção”, quando os colonos britânicos detiveram dezenas de milhares de quenianos, numa tentativa de reprimir um movimento armado que se debatia pela independência. A história do seu nascimento lembra-me, à semelhanças de outras situações, que os homens podem vestir de violência e crueldade os lugares mais serenos.

Abaixo da aldeia, onde, em tempos, se situava o campo de detenção, John aponta na direção dos remansos onde os peixes se detêm e alimentam. Entro nas águas, avançando com cuidado entre as rochas e as correntes rápidas, e lanço a linha com pouca precisão. Nas minhas primeiras incursões, desconhecia em absoluto os princípios da pesca à pluma: a apresentação da mosca; a importância de manter a linha esticada, permitindo que a mosca flutuasse livre o suficiente para que os peixes a tomassem por uma isca viva apanhada na corrente. Acreditava erradamente, à semelhança de muitos, que a dificuldade da pesca à pluma estava simplesmente no seu célebre lançamento, com impulso para trás e depois para a frente. Na verdade, a pesca à pluma é um estudo complexo da técnica e da ecologia, que requer um conhecimento dos ritmos do rio e das formas como os peixes se alimentam, para iludi-los, com sucesso, numa das suas competências mais básicas.

Enquanto atravessamos o rio, apercebo-me de que as minhas noções de pesca à pluma e as de John são distintas. À semelhança de quase todas as pessoas que pescam para subsistência e não por recreio, John prefere apanhar os peixes a lutar com eles e, por isso, às vezes põe um isco vivo no anzol. O seu método é eficiente, mas, para os meus propósitos meditativos, decido seguir uma abordagem mais purista, vagarosa e menos prolífica. John podia ensinar-me tudo sobre o rio, sobre a sua história e ecologia, mas as subtilezas da técnica da pesca à pluma seriam o meu próprio desafio.

Entreguei-me, por um tempo, ao estudo silencioso, através de livros e websites, tentativa e erro, de uma arte delicada, que insta à paciência. Fiz quase uma dúzia de viagens aos rios da região central do Quénia, antes de sentir sequer uma truta morder o isco abaixo da superfície. Mas, apesar da minha falta de êxito inicial na pesca, as minhas incursões trouxeram-me conforto e entusiasmo. Enquanto caminhava e lançava a linha, e me sentava e escrevia, compreendi que a pesca não era senão um pretexto para explorar e observar. Sentir o aroma envolvente das trombetas-dos-anjos, quando o sol se recolhe por detrás das colinas. Observar pares de patos-pretos-africanos nadar na corrente, quando o sol do meio-dia afasta a bruma. Para pensar de novo nas coisas maiores e mais pequenas do que eu.

E, à medida que os peixes começavam a morder os iscos, dei-me conta de que o rio me tinha dado mais do que aquilo que eu pedira. Tinha chegado àquele lugar à procura de paz e entretenimento, um contrapeso para as tensões da minha vida. Mas, ao caminhar nos remansos, numa catedral de bruma, madeira e folhas, sinto-me em comunhão, como me sentia nos dias de verão que preencheram a minha infância, quando tubarões-touro e peixes-balão faziam com que o meu coração palpitasse com curiosidade e deslumbramento.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.