Viagem e Aventuras

Milhares de Pessoas Vivem Nestas Antigas Grutas Espanholas

As grutas de Sacromonte e Guadix em Granada são habitadas há séculos. Descubra como é a vida nestas grutas nos dias de hoje. Sexta-feira, 14 Setembro

Por ALEXANDRA GENOVA

As grutas foram sempre um local de refúgio em qualquer lugar do planeta. No sul de Espanha, as formações rochosas serviram inicialmente como um santuário, que oferecia proteção de tempestades violentas e animais predadores. Mais tarde, serviram como locais de refúgio de perseguições religiosas e raciais. Atualmente, as estruturas acolhem comunidades únicas e discretamente orgulhosas, que trocaram o bulício da vida moderna pela tranquilidade das montanhas em zonas remotas.

Para a fotógrafa chilena Tamara Merino, que tem percorrido o mundo para fotografar pessoas que habitam no interior de grutas, é a história e a relação austera entre a paisagem e as pessoas que despertam o seu interesse. “Sempre senti um fascínio pela forma como os humanos se relacionam com a terra e o ambiente, bem como  pelos impactos que essa relação tem nas suas vidas”, diz Merino.

Na segunda etapa do projeto que tem em mãos — a primeira levou-a à cidade opalina de Cobber Pedy —, Merino passou quinze dias na região espanhola da Andaluzia para documentar as histórias daqueles que vivem numa região rural preenchida por grutas. “O mais importante era não ter ideias preconcebidas”, afirma. “Gosto de me sentar junto das pessoas e ouvir as histórias que têm para me contar, e eu também gosto de partilhar com elas as minhas histórias.”

Na província de Guadix, onde existem cerca de 2000 habitações subterrâneas, Merino encontrou pessoas que levam vidas apoiadas na agricultura tal como há 500 anos. “As gentes da zona ainda vivem com os animais no interior das grutas”, diz Merino.

Mais à frente no vale, as grutas de Sacromonte, ou Monte Sagrado em português, aninham-se acima da cidade de Granada, que cresce desordenadamente sob a coexistência de uma multiplicidade de culturas e etnias. O território mais isolado na região superior da montanha é habitado sobretudo por ocupantes ilegais, muitos dos quais são imigrantes sem documentos, enquanto a zona inferior é ocupada sobretudo por habitantes legais atraídos pela vida no interior das grutas, por razões ambientais e culturais, afirma Merino.

Sacromonte é a região de origem do flamengo espanhol, uma dança criada pela comunidade cigana espanhola, também conhecida por comunidade romani. Muitos membros desta comunidade, como Henrique Amaya, continuam a viver no interior de grutas para honrar a sua cultura.

"Eu nasci no interior de uma gruta ao pé dos animais e dos bichos”, diz Amaya, cuja família viveu nas grutas de Sacromonte durante seis gerações. Os seus antepassados foram os criadores do flamengo Zambra, dançado pela primeira vez no interior daquelas grutas há mais de cinco séculos.

Amaya começou a dançar flamengo quando tinha apenas três anos de idade. Para ele, dançar e recitar poemas da cultura cigana naquele local, que encerra uma longa história pessoal, fá-lo sentir profundamente ligado aos seus antepassados. “É um sentimento puro e revigorante”, diz. “É como estar numa queda de água às quatro da manhã e pôr a cabeça debaixo de água.”

Tocuato Lopez é um habitante de grutas já de longa data. A sua família vive nas grutas de Guadix há quatro gerações. As grutas ajudam a suportar o intolerável calor do verão, mas, mais importante ainda, elas transmitem um sentimento de comunidade profundamente enraizada. Apesar de ter crescido na pobreza, Lopez, que costumava fazer a pé, na companhia da irmã, mais de quatro quilómetros até à cidade vizinha para pedir comida, tem pela sua casa especial afeição.

"Tenho muito orgulho em ter nascido numa gruta e de viver ainda no seu interior”, diz o pai de quatro crianças. “E irei morrer na gruta.”

Tamara Merino é uma fotógrafa que se estabeleceu no Chile. Saiba mais sobre o seu trabalho no seu site ou através do seu perfil no Instagram.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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