Viagem e Aventuras

A Primeira Entrevista de Alex Honnold Após Escalar a “Solo” o El Capitan

Honnold revela como concretizou o maior feito na história da escalada.terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Por Mark Synnott
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O escritor e alpinista Mark Synnott levou Alex Honnold na sua primeira expedição internacional de escalada ao Low's Gully, no Bornéu, em 2009, e nas viagens seguintes ao Chade, a Omã e à Terra Nova. Ao longo dos anos, mantiveram um diálogo sobre os pontos mais delicados da escalada e debateram os perigos de um “solo” – escalar sozinho, sem cordas ou outros equipamentos de segurança.

Parece apropriado que, nos primeiros momentos depois de Honnold se ter tornado na primeira pessoa a completar o El Capitan de Yosemite a “solo”, o maior feito de escalada na história, se sente com o seu velho amigo no Manure Pile, um ponto de escalada muito conhecido, no sopé do El Capitan. Honnold comeu uma maçã, ouviu os pássaros e descreveu a experiência de uma vida.

Acabaste de ter o melhor dia da tua vida. Ou estás a ter o melhor dia da tua vida?

Honestamente, creio que nunca me senti tão satisfeito na vida. Foi exatamente como esperava. Foi simplesmente perfeito.

Esta manhã a montanha parecia assustadora?

Eu acho que a montanha não parecia assim tão assustadora esta manhã. Parecia tudo igual. Eu não tinha a mochila muito pesada, e a escalada foi incrível. Sem ter de arrastar 60 metros de corda atrás de mim pela montanha inteira, senti-me muito mais enérgico e fresco.

Como te sentias ao início?

Não estava perfeito. Talvez eu não tenha bebido o suficiente ontem. Quando fui para a cama tive uma espécie de dor de cabeça. Não me senti muito preocupado porque, de certa forma, já me tinha comprometido com o “piloto automático” e tinha colocado tudo de lado.

Free Solo Trailer_PT
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Trailer do documentário 'Free Solo', vencedor do Óscar de Melhor Documentário, com mais de 30 nomeações em festivais de cinema e vencedor de 12 prémios, este filme documental arrebatador e arrepiante é já considerado uma obra prima no seu género. Estreia a 17 de março às 22h30, no National Geographic.

Quando estava a caminhar para a base, ainda estava muito escuro. Comecei um pouco mais cedo do que pretendia, porque queria certificar-me de que era o primeiro (alpinista) na base. Vi um urso a fugir quando estava a começar. Acho que o afugentei.

Fala-me do teu estado de espírito

A Primeira Entrevista de Alex Honnold Após Escalar a “Solo” o El Capitan

No fundo estava um pouco nervoso. Quero dizer, tens uma parede assustadoramente grande por cima de ti. É algo – mete respeito. E depois no Freeblast (lajes de granito macias como o vidro e sem apoios), eu estava um bocado tenso, mas sentia-me mesmo bem.

Já caíste em ti?

Sinceramente, neste momento acho que era capaz de dar mais uma “volta”. Sinto-me cheio de adrenalina.

Mais uma “volta” na falésia? Livra!

Sinto-me tão bem.

Vais escalar mais?

Provavelmente não. Mas hoje é dia de me pendurar na barra. Vou ter de me pendurar na barra daqui a pouco. (Nota do editor: os alpinistas treinam regularmente a suspensão do corpo, apoiados nas pontas dos dedos, pendurados em barras, para melhorar a sua força de aderência.)

Então ainda está tudo em aberto?

Acho que sim. Quero dizer, qualquer dia ainda quero escalar coisas difíceis. Não vais para a reforma assim que desces.

(A rir) Essa é a citação do dia. Acho que estás bem.

Nãooo.

Estão alguns grupos na rota. Falaste com alguém?

Passei por cinco pessoas que estavam a dormir, nas saliências Heart e Lung, mas não conversei realmente com ninguém.

Acordaram?

(A rir) Ninguém disse nada. Continuaram todos muito tranquilos.

Eu estava a observar através de um telescópio. Na Heart Ledge parecia que estavas a tentar alcançar uma garrafa de água que tinhas guardado, sem acordar ninguém.

A Primeira Entrevista de Alex Honnold Após Escalar a “Solo” o El Capitan

Acordei um tipo e ele disse-me algo como, “Oh, olá”. Depois continuei, acho que ele acordou discretamente os seus amigos porque, quando olhei para baixo, lá estavam os três com uma cara do género... mas que raio?

Parecia que havia uma pessoa com um fato de unicórnio?

Qual fato? Não prestei atenção.

Como foi no cume?

Acabámos a trocar abraços no cume, durante um bocado. Estávamos todos passados.

O que fizeste ontem?

Fiz um pouco de bouldering durante a manhã, porque queria habituar-me ao calçado, depois fiz uma caminhada com a minha mãe e as suas amigas. Depois, vi o último filme do Hobbit e “vegetei”.

Nem tiraste um dia de descanso antes de fazeres o El Capitan a “solo”?

Faz parte do plano. Não queres sair da cama descansado. Queres sair como se tivesses acabado de fazer um treino ligeiro. Porque, fisicamente, a escalada não é difícil de executar. É mais como estar num estado (mental) adequado, eu estava a tentar criar esse estado.

Como é que dormiste ontem à noite?

Oh, dormi como um bebé. Acordei por volta das duas ou três da manhã, do género, ‘Vamos fazer isto!’ E depois olhei para o relógio e fiquei, ‘oh’, depois adormeci e voltei a acordar por volta das quatro e meia.

Quando tiveres 70 anos, vais visitar o Yosemite com os teu netos e eles vão ver o El Capitan. O que lhes vais dizer?

Miúdos, aquela coisa demora cerca de quatro horas a escalar – após anos de esforço. (rindo)

Quais são as partes que vão ficar contigo quando tiveres 70 anos?

The Monster foi uma das melhores partes, porque te sentes completamente seguro e, sem um arnês, parecia muito fácil. Aposto que esta foi a escalada mais rápida do The Monster. Eu estava ali do género, ‘isto foi sempre a abrir’, estava a desfrutar.

E da Round Table até ao cume foi uma escalada comemorativa. Foi como dar uma volta da vitória. Parecia que estava a aplicar golpes de karaté, a voar até ao topo.

Houve algum momento de dúvida?

Nenhum momento de dúvida real. O Freeblast foi motivador, claro. E no primeiro teto (no início da terceira parede), estou sempre um pouco tenso, porque estás a começar a subida de uma nova rota. A zona de Boulder Problem foi crucial. Foi a parte principal.

Enquanto estavas a subir a parede, pensaste noutra coisa para além da escalada?

Durante o terreno fácil, a meio do percurso, passando o The Monster até lá acima à Spire, estava a pensar em coisas aleatórias – em toda a aldeia de pessoas que me apoiou nisto. Recebi um mail (do amigo e companheiro de escaladas Conrad Anker) esta manhã. Por isso, estava a pensar no Conrad e em toda a sua ética de ‘sê generoso, sê bom, sê feliz’.

E também estava a pensar em objetivos de vida. Durante vários anos este foi o meu grande objetivo de vida. E o outro é escalar 9a – para fazer desporto de escalada realmente árduo. (Nota do editor: 9a refere-se a um dos níveis de desporto de escalada mais conceituados e fisicamente exigentes.) Portanto, estava a meio da parede e a pensar que era altura de me focar em 9a. É muito excitante trabalhar em algo difícil.

Então já tens um novo objetivo?

Olhar para além do El Capitan foi uma estratégia que tive sempre presente, durante todo o tempo que trabalhei nele, para que não se resumisse tudo a este único momento. Pensar no que está para além, pensar noutras coisas que me estimulem. Como tal, isto parece um dia quase normal de trabalho.

De outra forma estarias a desiludir-te?

Não queres colocar esse tipo de pressão sobre ti, onde tudo na tua vida se resume a um único momento. Este foi o meu grande foco durante anos, o meu grande sonho durante anos, mas gostava de escalar nos meus limites físicos e depois afastar-me da aventura durante uns tempos.

E fazes isso com uma corda.

Ainda estou demasiado entusiasmado para me concentrar em “solos” durante uns tempos.

Eu falei sobre isto com Peter Croft, o pioneiro em “solos”. Ele era um dos teus heróis quando eras criança. Segundo ele, não existe nada para além disto. Ele disse que o El Capitan era o último passo.

Foi sempre esse o meu sentimento acerca do El Capitan, mas daqui a um par de anos, quem sabe?

Achas que alguma vez vais gostar de escalada alpina perigosa?

Duvido muito. Até agora, não.

A Primeira Entrevista de Alex Honnold Após Escalar a “Solo” o El Capitan

Que mais tens na tua agenda? Alguma coisa pessoal?

Não sei. Ter uma família, acho eu.

A tua mãe sabe que fizeste o El Capitan a “solo”?

Ainda não falei com ela. Acho que ela nem sabe do que se trata todo este projeto, percebes? Sinto-me estranho em relação a isso. Já lhe telefono. Se bem que não sei o que lhe dizer. ‘Ei, já agora...’ Ela pode até pensar que eu já tinha feito isto anteriormente. Ela é muito má a diferenciar escalada livre de escalada a “solo”.

Como achas que foi todo este projeto para o Jimmy Chin e para toda a sua equipa a filmar-te?

Para mim, foi melhor não pensar de todo nas experiências das outras pessoas, exceto na minha. Estou certo de que isto foi extremamente preocupante para todos os envolvidos, mas para mim, calçar-me e andar até à base já foi um desafio enorme. Isto porque olhas para cima e ficas, ‘aquilo é uma parede brutalmente grande’. É uma loucura.

A equipa de filmagens não demonstrou o seu nervosismo?

Não, estavam todos muito tranquilos. Penso que esta é a melhor equipa que poderíamos ter.

Alex Honnold sentado no topo do icónico El Capitan, em Yosemite, após quase quatro anos a escalar sozinho, sem cordas ou qualquer outro tipo de equipamento de proteção.

Ao entrar no projeto confiei em todas as pessoas. Sobretudo depois de um ano e meio, confias realmente em toda a gente.

Tens alguma noção do que isto significa e do que fizeste?

Isso é sempre o mais engraçado. Não parece nada de especial quando finalmente o consegues fazer, porque já te esforçaste tanto. Quero dizer, o objetivo disto tudo é fazer parecer que isto não é uma loucura assim tão grande.

Achas que o mundo precisava de uma coisa assim tão cool como esta, nesta altura em que vivemos?

O que o mundo precisa é que os EUA fiquem no Acordo de Paris. Existem questões mais importantes. Mas acho que é porreiro alguém trabalhar em algo difícil e concretizar o seu sonho. Com sorte, talvez se inspirem nisto.

O que vais fazer esta tarde?

Provavelmente vou pendurar-me numa barra.

Vais fazer exercícios na barra?

Quero dizer, daqui a bocado, sim. Quero ir almoçar alguma coisa, ir um bocado para a sombra e depois vou provavelmente pendurar-me um bocado na barra. Tenho o aquecimento todo feito, fiz apenas quatro horas de exercício ligeiro, percebes?

A perseguição deste sonho permitiu-me viver a minha melhor vida, espero que isso me tenha transformado na melhor versão de mim próprio. Eu quero ser o tipo que treina, que se mantem em forma e que está motivado. Lá porque terminas uma grande rota não significa que vais apenas desistir.

Uma pessoa normal tirava a tarde de descanso após ter escalado o El Capitan a “solo”.

Mas eu tenho andado a tentar pendurar-me na barra dia sim dia não, e hoje é dia sim.

Agora que escalaste o El Capitan a “solo”, achas que o conseguias fazer novamente?

Se eu tivesse uma razão, acho que provavelmente ia escalar o El Capitan novamente, sem problemas. Agora parece menos assustador. Essa barreira mental foi quebrada. Se amanhã alguém me oferecesse 250.000 dólares, eu dizia logo, ‘vamos lá’. Simplesmente ia e fazia-o amanhã.

Acho que por agora chega, Alex. Não precisas de o fazer novamente. É perigoso, certo?

Pareceu muito menos assustador do que outros “solos” que já fiz.

Quais?

Provavelmente todos. Eu trabalhei tanto neste. Estava mesmo no ponto.

Bem, isso parece fantástico.

Não existiam incertezas nisto. Eu sabia exatamente o que fazer durante todo o percurso. Muitos dos apoios pareciam velhos amigos.

 

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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