Viagem e Aventuras

Comida Tradicional na Cidade Moderna de Macau

As refeições tradicionais macaenses, como a feijoada e o minchi, são recordações de uma vida mais simples na história de Macau. Quarta-feira, 17 Abril

Por Erik R. Trinidad

A comida é um pilar fundamental de uma cultura. Mas o que acontece quando essa cultura muda, com uma velocidade enorme, como é o caso de Macau?

A influência portuguesa na Península de Macau já vem de meados do século XVI, altura em que Portugal estabeleceu um porto comercial na região. Mais tarde, funcionou como colónia, de 1887 até 1999, ano em que a soberania do território foi devolvida à China – mas quando se fala de viagens a Macau, a mistura de raízes portuguesas e chinesas da região raramente vem ao de cima.

Atualmente, a maior parte das pessoas conhece Macau como a “Las Vegas do Oriente”, devido ao facto de ser um de dois lugares, sob o domínio chinês, onde o jogo é legal (o segundo é Hong Kong, outra região administrativa especial da China).

“As pessoas nem sabem o que era Macau”, diz Carrie Costa, que cresceu em Macau, muito antes de um filme de James Bond envolver um casino macaense e disputas de boxe de classe mundial, no The Venetian Macau. "Isso é triste."

Hoje em dia, menos de um décimo dos residentes de Macau é etnicamente macaense, ou seja, português nativo.

Para Carrie e outras pessoas como ela, a coleção de pequenas aldeias mediterrânicas que conheciam está a desaparecer rapidamente, enquanto as gruas de construção, muitas vezes financiadas pelo governo chinês e por interesses comerciais estrangeiros, continuam a transformar a península.

Existem mais de 40 casinos em Macau – a maioria dos quais foi construída depois da soberania ter sido devolvida à China, em 1999, embora o jogo seja legal desde a década de 1850.

Os novos restaurantes da região querem agradar ao paladar dos turistas estrangeiros. As lojas de comerciantes da velha cidade foram reaproveitadas sob a forma de lojas de recordações e joalharias. Onde antigamente havia água, entre as duas ilhas principais de Macau, Coloane e Taipa, fica agora a “Cotai Strip”, uma área de terra recuperada que, com o passar dos anos, se parece mais com o continente.

Apesar da preponderância das máquinas de jogo e das mesas de bacará, traços da Antiga Macau ainda sobrevivem: as influências portuguesas são evidentes nas icónicas Ruínas de São Paulo. A gastronomia macaense também sobrevive – se a procurarmos.

É fácil encontrar restaurantes portugueses na região – os restaurantes António e Miramar estão entre os mais notáveis – mas só alguns desses lugares é que continuam dedicados a preservar a verdadeira culinária macaense. Carrie e outros habitantes que eu encontrei tiveram o cuidado de enfatizar a importância de não confundir as duas cozinhas.

“Existe uma diferença muito grande”, diz Sónia Palmer, cuja família dirige o aclamado restaurante macaense Riquexó (e cujo sobrenome anglicizado foi obtido pelo casamento). A culinária macaense apresenta geralmente ingredientes chineses como molho de soja, belachan e tamarindo, explica Sónia. Além disso, diz, “os portugueses usam muito mais azeite”.

Apesar de Sónia gerir o restaurante com o marido, o seu conhecimento sobre gastronomia macaense vem da verdadeira alma do Riquexó: a sua mãe, Aida de Jesus, que é considerada a "madrinha da cozinha macaense".

Foram as receitas testadas e comprovadas de Aida que fizeram do Riquexó uma verdadeira instituição na península – chegando ao ponto de, quando há alguns anos a família Palmer-de Jesus anunciou planos para se reformar, surgirem manifestações públicas contra a decisão, convencendo-os a continuar o negócio, embora numa escala mais caseira.

“Todas as pessoas que vêm aqui comer conhecem-se”, diz Sónia, enquanto estamos sentados à mesa, num beco despretensioso, onde fica o restaurante. “Queremos continuar a ser um restaurante de bairro.”

Muitos dos clientes vêm quase diariamente – para não dizer duas vezes por dia – para levar comida ou para jantar com os vizinhos, e com os ocasionais estrangeiros que se afastam das rotas turísticas em busca da verdadeira comida caseira macaense.

Para além das receitas macaenses clássicas de Aida – como a galinha de caril, um ensopado de frango à base de caril amarelo; repolho recheado com carne de porco  e linguiça picante; e minchi, uma mistura de carne picada de porco e de vaca, batatas, molho de soja e especiarias – alguns dos pratos portugueses também marcam presença no cardápio do Riquexó, incluindo a feijoada.

Embora o Riquexó seja um dos restaurantes mais aclamados – no que à comida tradicional macaense diz respeito – não é o único lugar para provar a gastronomia multicultural da região.

Para uma experiência mais sofisticada, localizada perto dos pontos de interesse mais conhecidos da península, dirija-se ao Restaurante Litoral. Prove a galinha à Africana – frango assado coberto com um molho saboroso que combina pimenta, amendoim, coco e especiarias – e uma tigela de caldo verde, a clássica sopa portuguesa temperada com couve e linguiça chinesa.

Em relação às sobremesas macaenses, os pastéis de nata estão no topo. De facto, esta iguaria, mais estaladiça e menos doce que a versão portuguesa, é um ícone culinário tão grande em Macau que a sua imagem aparece em t-shirts e porta-chaves.

A loja que os tornou famosos – não só em Macau, como em toda a Ásia – é a humilde e original Lord Stow’s Bakery, na ilha de Coloane. Apesar de algumas pessoas dizerem que os melhores pastéis de nata são os da Margaret’s Café e Nata, a realidade é que independentemente do sítio onde os possa comer, certifique-se de que o faz enquanto ainda estão quentes, a sair do forno.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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