Viagem e Aventuras

Explorador Polar Atravessa o Ártico Para Mostrar Efeitos do Degelo

O explorador recordista Børge Ousland fala sobre o seu novo projeto: rastrear o declínio dramático das 20 maiores calotas de gelo do mundo – atravessando-as.sexta-feira, 19 de julho de 2019

Por Aaron Teasdale
Børge Ousland, um explorador polar que atualmente está a tentar esquiar através das 20 maiores calotas de gelo do mundo, juntamente com o aventureiro francês Vincent Coliard – para documentarem os efeitos das alterações climáticas – tem dificuldades com o seu trenó na calota Stikine do Alasca. Minutos antes, uma avalanche, uma das consequências perigosas do aquecimento do gelo, tinha desabado pela rota.

Há mais de 25 anos que o explorador polar Børge Ousland faz história no Ártico. Em 1994 e 1996, o norueguês foi a primeira pessoa a esquiar sozinho, sem reabastecimentos, pelo Polo Norte e pela Antártida. Børge e o seu colega explorador, Mike Horn, foram os primeiros a esquiar sem apoios no Polo Norte, na interminável noite do inverno ártico. Em 2010, Børge velejou num trimarã de 9 metros por águas perigosas e cheias de icebergues para circum-navegar o Círculo Polar Ártico – completando em apenas quatro meses uma viagem que nos anos 1900 demorou seis anos. O seu barco foi a primeira embarcação, sem ser quebra-gelo, a navegar a Passagem do Noroeste.

Essa viagem – que só foi possível devido aos níveis dramáticos de degelo – inspirou o projeto atual de Børge: o Ice Legacy Project. Com uma lista das 20 maiores calotas de gelo do planeta, o explorador começou a documentar os efeitos do aquecimento global nos glaciares. Uma coisa é ouvir os números, pensou Børge, mas outra é dar às pessoas uma imagem impactante das alterações. Com o seu companheiro, o aventureiro francês Vincent Colliard, Børge esforça-se para esquiar, sem apoio, as 20 calotas de gelo, transportando 70 quilos de mantimentos pelas paisagens cada vez mais traiçoeiras. Durante o trajeto recolhe amostras para os cientistas da Universidade de Anchorage. Até agora, a equipa já atravessou 9 calotas e espera completar as restantes durante a próxima década.

Falámos com Børge, de 57 anos, sobre documentar o declínio glaciar global, sobre a forma como ele se esquiva dos ursos-polares agressivos e sobre o que ele espera que o mundo aprenda com o seu projeto.

Børge Ousland e Vincent Colliard posam para uma fotografia, depois de atravessarem o campo de gelo de Saint Elias, no Alasca, o maior dos EUA e o segundo maior do mundo. A dupla espera que o “Ice Legacy Project” ajude as pessoas a compreender os impactos do degelo de uma maneira mais simples.

Porque razão criou o Ice Legacy Project?
Porque o aquecimento global, do que tenho visto, sobretudo no Ártico, é muito assustador. O gelo no oceano polar está completamente diferente do que era quando comecei, no início dos anos 90. Eu vi com os meus próprios olhos. É muito difícil encontrar as camadas de gelo com vários anos, como acontecia quando esquiávamos em 1990, altura em que fiz a minha primeira viagem ao Polo Norte.

Quando o gelo derrete, o mar aquece, porque a água escura absorve a energia do sol, ao contrário da superfície branca do gelo que a reflete. Por isso, a temperatura do oceano está a subir e o gelo derrete mais. Essa é uma das maiores razões pelas quais a temperatura no Ártico está a subir duas vezes mais rápido do que a média global. Mas não é apenas o gelo marinho que está a derreter. Os grandes glaciares estão a derreter e, num futuro próximo, vamos ver os seus efeitos.

Se toda a camada de gelo da Gronelândia derreter, o nível do mar subirá entre 6 a 7 metros. Se toda a Antártida derreter, o mar poderá subir até 60 metros. Ou seja, se esses glaciares derreterem, conseguimos imaginar o que vai acontecer na maioria dos lugares habitados do planeta.

Esquerda: A equipa teve dificuldades a atravessar a calota de Stikine. A região está repleta de fendas e, como a viagem foi feita em maio, estavam cheias de água. Direita: Para garantir que Børge, Colliard e os seus mantimentos não se perdiam nas travessias de fendas profundas, os alpinistas e os trenós tinham de estar bem presos.

Qual é o seu objetivo principal?
Nós não somos cientistas, por isso, o nosso papel aqui é testemunhar o que está a acontecer. Nós somos os olhos que contam a história no terreno. Os cientistas trabalham com números e factos concretos, mas também precisamos de algumas imagens na nossa cabeça para acompanhar esses números. Penso que muitas das pessoas não conseguem conceber um determinado número de quilómetros quadrados, mas se conseguimos velejar pelo Ártico em quatro meses, em vez de em seis anos, é porque estamos perante um exemplo muito visual. Queremos mostrar ao mundo o que está a acontecer com os grandes glaciares, queremos que as pessoas consigam compreender e, esperamos nós, agir.

Fale-nos sobre a sua recente aventura Ice Legacy.
Nesta primavera, esquiámos pelas calotas de Barnes e Penney, na ilha de Baffin. Quase não havia neve entre as calotas de gelo, os nossos trenós foram muito maltratados pelas rochas. Isto é algo que só aconteceu em anos recentes. A ilha de Baffin tem cada vez menos e menos neve.

Enquanto a equipa esteve no Alasca, o clima foi um desafio constante e, por vezes, ficavam com neve até à cintura devido aos nevões que duravam um dia.

Antes era possível esquiar entre as ilhas?
Sim, claro. Agora, a primavera chega um mês mais cedo do que acontecia há umas décadas. E os glaciares mais elevados do Ártico estão a derreter. Estão a ser feitas pesquisas nestes glaciares que descobrem plantas e restos de animais que não viam a luz do dia há mais de 20 mil anos – estava tudo coberto de gelo. No final do verão, quando o degelo atinge o seu ponto máximo, se caminharmos pelas extremidades do gelo encontramos coisas que ficaram congeladas no tempo. Este gelo é um dos mais antigos do Canadá.

Falámos com os esquimós inuítes que vivem lá em cima e eles dizem que as pequenas calotas de gelo, onde habitavam, desapareceram. Em 2013, atravessámos a calota de gelo do sul da Patagónia, pela mesma rota que tínhamos feito em 2003, e era uma paisagem completamente diferente. Agora, nem conseguíamos reconhecer a rota.

Esquerda: Børge e Colliard levaram velas de esqui para os ajudar a atravessar o campo de gelo de Saint Elias, mas raramente tiveram a oportunidade de as usar – grande parte da paisagem estava coberta de fendas e a visibilidade era limitada. Direita: Com o vento pelas costas, a equipa usou as velas de esqui para deslizar pelos poucos terrenos lisos que encontraram.

As alterações climáticas afetam as suas viagens?
Os riscos são mais elevados porque as coisas não têm estabilidade. Encontramos muitas rochas, sobretudo na Patagónia que está a mudar rapidamente, temos muitas coisas soltas lá em cima. Existem mais fendas; o gelo está a mover-se. As pontes de gelo estão mais fracas. Temos de fazer as coisas com mais tempo.

Qual foi o glaciar mais difícil de atravessar?
Stikine, o primeiro glaciar que atravessámos no Alasca. Foi incrivelmente difícil. É um glaciar pequeno e pensámos que seria mais simples, mas tínhamos avalanches a descer pelas montanhas, para além das inúmeras fendas. Nós tínhamos comida para 17 dias e, quando terminámos a viagem, comemos a nossa última refeição. Conservámos a comida até não podermos mais.

Em 25 anos, como é que as suas viagens no Ártico se alteraram?
Agora, em vez de usarmos trenós para levar o equipamento, usamos caiaques ou algum dispositivo flutuante para atravessar as extensões abertas de água, porque agora existe muito mais água.

Colliard anota a sua informação posicional numa amostra de neve, recolhida pela equipa para levar para a Universidade de Anchorage. Esta informação será usada para rastrear os impactos das alterações climáticas nas calotas de gelo.

Como é que lida com os ursos-polares?
Afugentamo-los. Na minha primeira viagem ao Polo Norte, tinha um revólver Magnum de calibre 44, num coldre ao ombro, dentro do meu anoraque para o manter quente. Agora, usamos gás pimenta. Também temos uma espingarda, temos essa opção; geralmente o barulho é suficiente para os assustar. Mas o mais eficaz é a pistola de sinalização. E para conseguirmos dormir descansados, montamos um perímetro no acampamento com fios pirotécnicos que, caso sejam despoletados, fazem uma pequena explosão. Os ursos-polares, se lhes dermos essa oportunidade, comem-nos. Se ficarmos ali, sem fazer nada, eles avançam e atacam-nos. Parece-me algo normal. Os ursos estão famintos.

Reparou em alterações no comportamento dos ursos?
A Terra de Francisco José só foi descoberta em 1872 ou 73, na época havia tanto gelo que era impossível chegar lá. Mas quando alcançámos o sul do arquipélago, em 2007, não havia gelo nenhum. Os ursos-polares precisam de gelo para caçar focas, mas estavam presos em terra, sem nada para comer, para além de pássaros e ovos. E eram muito mais agressivos do que todos os outros ursos-polares. Encontrámos cerca de 40 naquela viagem, e alguns eram mesmo perigosos.

Um autorretrato da equipa, feito num dia de bom tempo, na calota Stikine. Ao viajarem pelas 20 maiores calotas de gelo do mundo, Børge e Colliard, que já tinham passado por estas regiões anteriormente, notaram alterações massivas no gelo.

O que deseja transmitir ao mundo com este projeto?

É uma pequena gota de muitas. Eventualmente, estas gotas irão abrir os olhos às pessoas e revelar o que está a acontecer com os glaciares do planeta. A jusante dos Himalaias, ao longo dos grandes rios da Índia, no Nepal e no Bangladesh, vivem milhares de milhões de pessoas. Quando os Himalaias não conseguirem reter a humidade no gelo, a região vai inundar. No período mais seco, será tão seco que as vidas de milhões de pessoas serão afetadas. Isto vai deixar o mundo em choque. As pessoas precisam mesmo de abrir os olhos. Vai ser pior do que a Primeira e a Segunda Guerra Mundial juntas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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