O Movimento de Viagens Sustentáveis Vai Conseguir Sobreviver ao Coronavírus?

Os peritos em viagens dizem que a pandemia não vai travar os esforços dos ambientalistas que lutam por viagens com um ritmo mais lento e menos voos.

Thursday, April 23, 2020,
Por Sarah Gibbens
Viajantes aproximam-se das portas de embarque do Aeroporto Internacional de Malpensa de Milão, em Itália, em ...

Viajantes aproximam-se das portas de embarque do Aeroporto Internacional de Malpensa de Milão, em Itália, em 2016.

Fotografia de Camilla Ferrari

Em 2019, um movimento ambiental global chamado “flight shaming" incentivou, com efeitos moderados, os viajantes a evitarem as viagens aéreas. Agora, uma pandemia global está a forçar essa atitude.

O Dia da Terra de 2020 – que marcou o 50º aniversário desta iniciativa ambiental – chegou num momento em que tanto a crise climática como a crise global de saúde estão a obrigar a indústria de viagens a reconsiderar o seu futuro.

Globalmente, o setor dos transportes é responsável por 25% das emissões de carbono. A aviação representa pouco mais de 2% destes valores, e antes do início deste ano, o número de pessoas que faziam voos comerciais estava a aumentar de forma consistente.

Mas as preocupações em torno dos danos irreparáveis das emissões de carbono dos voos está a fazer com que um grupo crescente de viajantes altere os seus hábitos. Os defensores de um turismo mais ecológico estão otimistas de que este surto de coronavírus não altere esta mentallidade.

Sensibilização crescente
De acordo com o Conselho Internacional de Transportes Limpos (ICCT), os EUA são o país responsável por grande parte das emissões de carbono relacionadas com a aviação, seguidos da China. Uma sondagem feita pelo ICCT em 2017 constatou que uma pequena parcela da população produz a maior parte das emissões de carbono. Para colocar isto em perspetiva: Em 2017, 12% dos americanos representavam 68% das viagens aéreas globais; e pouco mais de 50% dos americanos disseram não ter voado.

Esta disparidade alimentou o referido movimento “flight shaming".

“No verão passado, fui de comboio para Barcelona”, diz Clare Farrell, cofundadora do grupo de ação ambiental sediado no Reino Unido Extinction Rebellion, e defensora proeminente da limitação de viagens aéreas. “Levei a minha bicicleta no comboio e foi muito bom. É uma forma muito agradável de viajar, em comparação com as chatices do aeroporto.”

Em 2018, Farrell e vários ativistas entraram em greve de fome para protestar contra a expansão do Aeroporto de Heathrow, em Londres. O movimento “flight shaming” ganhou maior visibilidade nos EUA em setembro passado, quando a jovem ativista climática Greta Thunberg navegou pelo Atlântico para participar na Cimeira do Clima da ONU, na cidade de Nova Iorque.

Mas será que este movimento resultou numa diminuição de voos? Depende a quem perguntamos – e onde vivemos. Uma sondagem feita com 6 mil pessoas nos EUA, Reino Unido, Alemanha e França, conduzida pelo banco suíço UBS no final do ano passado, descobriu que 21% das pessoas optaram por voar menos. Isto contraria as estatísticas que indicam que 2019 foi um ano recorde para as viagens aéreas nos EUA. Os dados do Gabinete de Estatística dos Transportes dos EUA mostram que, em 2019, voaram 926 milhões de pessoas, um aumento de 4% relativamente ao ano anterior, e 9% em relação aos dois anos anteriores.

Em fevereiro de 2020, ativistas ambientais protestaram em Londres, Inglaterra, contra a proposta de expansão do Aeroporto de Heathrow.

Fotografia de Leon Neal, Getty Images

Scott Mayerowitz, diretor editorial executivo do site de viagens The Points Guy, diz que, apesar de a sua comunidade de leitores e viajantes estar consciente sobre a sua pegada ambiental, isso não determina se alguém opta por fazer uma viagem ou não. “Existia definitivamente um interesse das pessoas [em reduzir a sua pegada de carbono]”, diz Scott. “Ninguém quer fazer mal ao clima, mas isso nunca esteve no centro das atenções da maioria dos viajantes.”

“Por muito que eu queira ser mais ecológica, o custo é um fator determinante”, diz Aalia Udalawa, consultora da PKG HotelExperts que viaja constantemente. Aalia diz que não se importaria de pagar mais 20% para ter viagens mais sustentáveis, mas diz que muitas das opções ecológicas que considerou estavam fora do seu orçamento.

Estas informações confirmam um inquérito feito pela National Geographic e pela Morning Consult. Numa sondagem realizada pouco antes da pandemia de COVID-19, perguntámos aos nossos leitores se estariam dispostos a pagar mais para garantir que as suas férias seriam ecológicas. Uma pequena maioria de 53% indicou que não pagaria mais (ou que não tinha opinião). Esta amostra representa a opinião antes do coronavírus. Ainda não se sabe o que o futuro nos reserva.

O desafio de ajudar os viajantes a fazerem escolhas sustentáveis surgiu noutro inquérito da National Geographic de 2019. De acordo com a sondagem feita a 3.500 adultos, 42% dos viajantes dos EUA estariam dispostos a dar prioridade às viagens sustentáveis, mas apenas 15% desses viajantes estavam suficientemente familiarizados com o que realmente significa viagens sustentáveis. No futuro, pretendemos ajudar os viajantes a concentrarem-se em práticas amigas do ambiente, na proteção do património cultural e natural, e apoiar social e economicamente as comunidades locais, entre outros objetivos.

Ponderar as alternativas
À medida que o interesse em opções de viagens mais limpas aumenta, o mesmo acontece com as alternativas. “Vimos muitos viajantes a ponderar alternativas aos voos”, diz Shannon McMahon, editora da revista de viagens online SmarterTravel.com, site que pertence ao Trip Advisor. “Os viajantes parecem estar a adotar uma abordagem mais realista, em relação ao que acontecia no ano passado, sobre a forma como contribuem para as emissões de carbono.”

Andar de comboio é uma das opções. Embora muitas vezes demore mais tempo, a pegada de carbono é menor. O voo de um passageiro de Paris para Barcelona cria aproximadamente 238 kg de emissões de dióxido de carbono, enquanto que a mesma viagem de comboio emite apenas 11 kg.

Duas passageiras sentadas no comboio Shinkansen, momentos antes de o comboio partir de Tóquio.

Fotografia de Camilla Ferrari

Na Europa, onde originou o movimento “flight shaming”, os comboios foram promovidos como a forma mais sustentável de viajar. A moderna infraestrutura ferroviária europeia, incluindo as estações atualizadas, ajuda a sustentar esta opção. Na Europa, os comboios de passageiros são maioritariamente elétricos, ao contrário dos comboios nos EUA que usam energia elétrica e gasóleo. É importante salientar que a forma como um país gera eletricidade afeta o cálculo das opções de viagens ecológicas. Um comboio elétrico que gera energia a partir de energia renovável, ou nuclear (por exemplo, grande parte da energia produzida em França é nuclear), produz menos emissões do que a eletricidade gerada a partir de carvão.

As compensações de carbono são outra das opções para os viajantes ecológicos. Sentindo a pressão dos seus clientes, algumas companhias aéreas, incluindo a JetBlue, adotaram programas de compensação para reduzir o seu impacto. Mas ainda não se sabe se esta é uma estratégia climática eficaz. Os ativistas ambientais dizem que estas compensações só servem para as pessoas voarem sem se sentirem culpadas, mas que não reduzem significativamente o impacto.

“É uma forma enganosa de lidar com as alterações climáticas, porque a maior parte das emissões vem das pessoas mais abastadas – pessoas que fariam bem em mudar os seus hábitos”, diz Farrell. “As compensações de carbono promovem a noção de que podemos descartar este problema para cima da geração seguinte.”

Todas estas complicações podem fazer com que a ideia de viajar pareça demasiado assustadora, mas os defensores de viagens dizem que isto não significa que não valham a pena.

“É um equilíbrio delicado”, diz Scott Mayerowitz. As viagens emitem carbono, mas também enriquecem as pessoas e as comunidades. Scott, por exemplo, gosta de caminhar, o que significa que às vezes voa ou vai de carro para chegar aos trilhos. Mas, graças a estas viagens, Mayerowitz é defensor dos parques nacionais e transmite o seu amor a um público mais vasto.

Kelley Louise, fundadora e diretora executiva da Impact Travel Alliance, uma organização sem fins lucrativos que promove viagens sustentáveis, diz que, em vez de se interromper por completo as viagens, a sua organização defende as inovações. Um dos conceitos baseia-se nas viagens vagarosas, uma filosofia que enfatiza estadias mais longas, transportes alternativos (como comboio ou bicicleta), imersão cultural, alugueres sazonais e destinos fora do comum.

“Viajar tem uma capacidade poderosa de nos transformar em defensores da natureza e da conservação”, diz Kelley. “Portanto, se os profissionais de turismo dissessem que a única coisa que podíamos fazer era parar de viajar, perderíamos todos os componentes realmente belos que acompanham as viagens.”

Sobreviver à pandemia
São poucas as pessoas, ou segmentos da economia global, que não estão a ser afetados pelo surto de coronavírus, e isto é particularmente verdadeiro para a indústria de viagens.

“Nunca houve tanta riqueza e proximidade a nível mundial”, diz Mayerowitz sobre a vida pré-coronavírus. “A rápida disseminação desta pandemia mostrou-nos o quanto estamos ligados. Nós tínhamos cidades de segunda linha nos EUA que tinham voos sem escala para cidades de segunda linha na China.”

O que vai acontecer quando as interdições às viagens forem levantadas? Será que, num mundo que pode vir a ter a sua riqueza redistribuída e onde poderão existir mais cuidados na conectividade entre as pessoas, as viagens sustentáveis vão cair para segundo plano?

“As viagens sustentáveis têm vindo a aumentar nos últimos anos. É pouco provável que a pandemia global venha a alterar isso – e pode até fazer com que as viagens sustentáveis sejam mais importantes do que nunca”, diz McMahon.

Apesar de serem eventos diferentes, McMahon salienta que o turismo também entrou em declínio depois dos ataques terroristas do 11 de setembro e durante a recessão de 2008. Mas as viagens começaram a regressar ao normal, primeiro a nível local ou regional, e eventualmente a nível internacional.

“Os viajantes costumam aventurar-se primeiro perto de casa – isto se as tendências anteriores se mantiverem – e visitam os restaurantes locais e fazem escapadelas de fim de semana regionalmente, ou viajam dentro do seu próprio país, antes de existir um crescimento na procura por viagens internacionais”, diz McMahon.

Mayerowitz tem esperança de que os viajantes procurem férias que os liguem a outras pessoas. “As pessoas vão querer estar em contacto [com] passeios locais, em viagens em família.”

Louise, da Impact Travel Alliance, vê o movimento de viagens sustentáveis a manter o ritmo. Embora o turismo de massas esteja ligado às alterações climáticas, ao turismo em excesso e às experiências de viagem convencionais, Louise diz que o turismo sustentável oferece uma alternativa mais saudável a nível comunitário e também para o planeta.

“A minha esperança para esta indústria é a de que, quando esta pandemia passar, possamos explorar o mundo com um sentido renovado de preenchimento a nível pessoal, com mais curiosidade e apreço.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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