Caminhar é a Atividade Ideal Durante a Pandemia – Descubra Porquê

Esta revolução no movimento faz bem à nossa saúde – e ao mundo.

Monday, August 31, 2020,
Por Eric Weiner
Mahatma Gandhi e os seus seguidores marcharam 390 quilómetros ao longo da costa oeste de Gujarat, ...

Mahatma Gandhi e os seus seguidores marcharam 390 quilómetros ao longo da costa oeste de Gujarat, na Índia, para protestarem contra uma lei britânica que obrigava os indianos a comprarem sal britânico em vez de o produzirem localmente.

Fotografia de Mansell, The LIFE Picture Collection, Getty Images

Caminhar muda o mundo. Quando os manifestantes que exigiam justiça racial marcharam sobre Washington no dia 28 de agosto, seguiam os passos de outros caminhantes corajosos ao longo da história. Desde Mahatma Gandhi e o movimento de independência da Índia a Martin Luther King Jr. e o movimento pelos direitos civis, caminhar e protestar são atividades inseparáveis.

Em 1930, Gandhi e oitenta seguidores partiram do seu ashram, em Ahmadabad, rumo ao sul, em direção ao mar Arábico. Quando chegaram à costa, 24 dias depois, o número de seguidores tinha aumentado para os vários milhares. Todos assistiram quando Gandhi apanhou um punhado de sal dos depósitos naturais, em flagrante violação da lei britânica. A grande Marcha do Sal marcou um ponto de viragem no caminho para a independência da Índia.


Anos mais tarde, Martin Luther King Jr., admirador de Gandhi que visitou a Índia, implementou o “amor austero” da resistência não violenta, assim como as caminhadas de protesto no movimento pelos direitos civis. A campanha de Birmingham de 1963 começou com uma série de marchas, culminando na histórica Marcha sobre Washington em agosto daquele ano. Estas marchas foram pacíficas, mas não passivas. John Lewis, colega ativista de King, sabia bastante bem que caminhar podia ser um poderoso ato de resistência e que podia dar origem a “bons problemas”.

Esquerda: No dia 14 de fevereiro de 1982, John Lewis (o quarto a partir da direita) ajudou a liderar milhares de manifestantes pelos direitos civis na ponte Edmund Pettus, em Selma, no Alabama, como parte de uma jornada de 255 quilómetros para protestar contra a detenção de duas mulheres negras por acusações de fraude de voto e para apoiar a Lei dos Direitos de Voto de 1965. Naquele ano, durante a primeira marcha através da ponte pelos direitos de voto, Lewis e outros manifestantes foram brutalmente espancados.
Direita: Em 2015, o ex-presidente Barack Obama e líderes políticos comemoraram o 50º aniversário das marchas pelos direitos civis de Selma a Montgomery atravessando a Ponte Edmund Pettus.

Fotografia de BETTMANN ARCHIVE, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E SAUL LOEB, AFP, GETTY IMAGES (DIREITA)

Mas nos EUA nem todos os potenciais caminhantes têm acesso a trilhos para caminhar. De acordo com uma investigação do Trust for Public Land, cerca de 100 milhões de residentes dos EUA não têm um parque a menos de 10 minutos a pé de casa. Um projeto que se tornou lei no passado mês de agosto está a injetar dinheiro em parques e áreas selvagens com o objetivo de apoiar a conservação, criar infraestruturas e acessos.

Caminhar é mais do que andar, e sempre foi. Caminhar acalma. Caminhar inspira e aguça a mente. O ato de caminhar é democrático, embora o acesso a uma caminhada segura nem sempre esteja garantido, como muitas pessoas nas comunidades afro-americana e hispânica sabem. A essência de caminhar é a liberdade, e todos devem poder sentir esta liberdade de partir e regressar quando querem, para vaguear e, como o escritor Robert Louis Stevenson o colocou, para “seguir este ou aquele caminho, conforme a aberração nos levar”.

Remédio para a pandemia
A pandemia privou-nos de muita coisa – não apenas na vida e nos meios de subsistência, mas também naquilo que podemos fazer. Sentimo-nos presos, impotentes. Há muitas coisas que não podemos fazer. Ainda assim, podemos andar.

Com a mentalidade certa, cada caminhada é uma peregrinação, uma porta para algo novo e revelador. Muitos avanços foram encontrados a colocar um pé à frente do outro. Corremos para nos afastarmos de problemas. Mas caminhamos em direção a soluções.

Enquanto trabalhava em Um Conto de Natal, Charles Dickens andava 25 a 30 quilómetros pelas ruas secundárias de Londres, analisando o enredo na sua mente enquanto a cidade dormia. Beethoven encontrou inspiração enquanto passeava no verdejante Wienerwald, nos arredores de Viena, e Nietzsche nos Alpes suíços. “Não acredite em nenhuma ideia que não tenha nascido ao ar livre e da liberdade do movimento”, disse o controverso filósofo.

A romancista Louisa May Alcott fazia regularmente longas caminhadas pelo campo perto de sua casa em Concord. Por vezes, era acompanhada pelo seu colega autor Henry David Thoreau. Eles passavam horas a vaguear (Thoreau adorava esta palavra) pelos prados e campos da zona rural de Massachusetts, naquela que era a sua “porção do infinito”, como disse Thoreau.

Jean-Jacques Rousseau superou todos. Ele costumava caminhar mais de 30 quilómetros num só dia. “Mal consigo pensar quando estou parado”, disse Rosseau. “O meu corpo tem de estar em movimento para tornar a minha mente ativa.” (Enquanto caminhava, anotava pensamentos, grandes e pequenos, num baralho de cartas que levava sempre consigo.)

Benefícios de um passeio
Estudos recentes confirmam a sensação de Rousseau. A nossa mente é mais criativa a cinco quilómetros por hora, a velocidade de um passeio moderado. Num dos estudos, Marily Oppezzo e Daniel Schwartz, psicólogos da Universidade de Stanford, dividiram os participantes em dois grupos: caminhantes e assistentes. Depois, aplicaram um teste desenvolvido para medir o “pensamento divergente”, componente importante da criatividade. Eles descobriram que o pensamento criativo era “consistente e significativamente” maior para os caminhantes do que para os assistentes. E não era preciso muito para estimular a criatividade – algo entre cinco a 16 minutos de caminhada.

“Quando caminhamos”, disse o falecido psicólogo Colin Martindale, “entramos num estado de ‘atenção desfocada’”. Neste estado não estamos dispersos, pelo menos da forma como normalmente pensamos na palavra. Estamos focados e desfocados ao mesmo tempo. Vemos mais quando caminhamos, dizia o autor Edward Abbey no seu livro autobiográfico Desert Solitaire: “Não conseguirmos ver nada dentro de um carro; temos de sair da maldita engenhoca e andar.”

Pessoas atravessam as ruas de uma cidade inglesa ao amanhecer.

Fotografia de Ezra Bailey, Getty Images

As pessoas que caminham regularmente são mais saudáveis e vivem mais tempo do que as que não caminham – de acordo com vários estudos. E não é preciso caminhar muito depressa ou durante muito tempo para desfrutar deste benefício. Um estudo recente, publicado na JAMA Internal Medicine, desmistificou o mito dos 10 mil passos. É um número arbitrário. As pessoas – os adultos mais velhos em particular – beneficiam em termos de saúde com alguns milhares de passos por dia, e com um ritmo lento.

E está provado que caminhar faz perder peso, não só por queimar calorias, mas também porque reduz o apetite. Um estudo feito por investigadores da Universidade de Exeter descobriu que uma caminhada de 15 minutos “reduz o desejo de chocolate” e, por sua vez, as refeições devido ao estado emocional. Também já se demonstrou que caminhar alivia a dor nas articulações, aumenta as defesas imunitárias e reduz o risco de desenvolver cancro da mama. Gandhi caminhou ao longo de toda a sua vida e atribuiu a sua vitalidade, em parte, a esse hábito.

Movimento evolucionário
Podemos dizer muito sobre uma pessoa pela forma como anda. O Pentágono desenvolveu recentemente um radar avançado que consegue identificar formas individuais de caminhar até 95%, formas que são tão distintas quanto as impressões digitais ou a assinatura de uma pessoa. Caminhar é pessoal. As pessoas pavoneiam-se na presença de outras, mas raramente o fazem quando estão sozinhas. São gestos sociais. Caminhar, a forma mais lenta de viajar, é o caminho mais direto para a autenticidade do nosso eu. A autora Cheryl Strayed, após uma caminhada épica de 1.600 quilómetros ao longo do Trilho da Costa do Pacífico, disse: “Quando terminei a minha longa caminhada, tinha perdido seis unhas dos pés, mas ganhei tudo o que importava”.

Caminhar de forma correta é um ato de humildade em movimento. É uma das poucas atividades sem adornos que ainda temos disponíveis, e uma que, como refere a autora Rebecca Solnit, permanece “essencialmente sem melhorias desde o início dos tempos”.

O jornalista Paul Salopek caminha pelo Corredor de Wakhan do Afeganistão no seu projeto de 34 mil quilómetros – Out of Eden Walk – que segue o trajeto dos primeiros humanos que saíram de África durante a Idade da Pedra.

Fotografia de Matthieu Paley, National Geographic

Há cerca de seis milhões de anos, os primeiros hominídeos endireitaram-se e caminharam sobre os dois pés. Esta nova postura ereta teve muitos benefícios inesperados – libertou as mãos para fazer ferramentas, para apontar, acariciar, gesticular, segurar com as mãos, mostrar o dedo e roer as unhas.

Paul Salopek, explorador da National Geographic, está a refazer os passos dados pelos primeiros humanos que migraram de África durante a Idade da Pedra e se estabeleceram por todo o planeta. Paul está a fazer isto lentamente, um passo de cada vez.

A sua aventura de uma década é nobre, mas não é indolor. Andamos sobre dois pés, mas fazemos isso com um esqueleto que foi projetado para quatro. Esta desconexão entre a anatomia antiga e o uso moderno mantém os podologistas em atividade. Pés chatos, inchaços, bolhas e joanetes são apenas alguns dos preços que pagamos pela nossa existência bípede. No entanto, é um custo que suportamos com prazer.

Procurar inspiração
Para mim, caminhar é a atividade perfeita para fazer durante a pandemia. Distante socialmente, mas não isolado, aceno a um vizinho ou ao carteiro, num daqueles preciosos micro-encontros que a pandemia em grande parte nos roubou. Por vezes caminho sem destino, vagueando sem rumo pelas ruas da minha cidade natal, Silver Spring, em Maryland, olhando sem desejar, movendo sem chegar, indo para onde a aberração me levar.

Mas também há alturas em que sou uma espécie de caminhante da natureza como Rousseau. O meu trilho de caminhadas favorito fica no norte de Vermont, numa reserva de vida selvagem chamada Eagle Point. Abraçando a fronteira com o Canadá, a reserva reúne muita natureza nos seus 170 hectares: pântanos, prados, florestas, bem como uma coleção de castores, ratos almiscarados, guaxinins, coiotes, ursos, veados e 60 espécies de aves. No entanto, o que eu mais gosto é o solo. É macio, foi feito para caminhar. Viajei para lá recentemente, como faço todos os anos. Com o sol do final de verão a aquecer-me o rosto, coloquei um pé à frente do outro, repetidamente, de forma desafiante – e com alegria também.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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