Quão Limpo é o Ar nos Aviões?

Filtros de alta tecnologia e máscaras convencionais: Como a tecnologia e a responsabilidade pessoal podem tornar os voos mais seguros do que pensamos.

Thursday, September 3, 2020,
Por Johanna Read
Passageiros de máscara num dos primeiros voos entre Amesterdão, nos Países Baixos, e Burgas, na Bulgária, ...

Passageiros de máscara num dos primeiros voos entre Amesterdão, nos Países Baixos, e Burgas, na Bulgária, desde que começaram os confinamentos devido à COVID-19 no início de 2020. As máscaras podem ajudar a mitigar as probabilidades de os passageiros ficarem infetados (ou de infetarem outros viajantes), apesar da eficácia dos filtros de ar HEPA usados na maioria dos aviões comerciais.

Fotografia de Jeffrey Groeneweg e Hollandse Hoog, Redux

A pandemia de coronavírus fez-nos lembrar que o acesso a ar puro é uma prioridade de saúde global. Embora a poluição industrial tenha dominado as notícias durante décadas, a COVID-19 trouxe este tema para os espaços confinados. A qualidade do ar em espaços fechados – para onde flui e com que quantidade – pode fazer a diferença entre manter-nos bem de saúde ou ficarmos infetados. Entre os espaços que são repetidamente nomeados como potenciais zonas de risco (igrejas, casas de repouso e navios de cruzeiro), os aviões são um ponto focal de ansiedade.

Portanto, é uma surpresa descobrir que o ar dentro de um avião é mais limpo do que se pensa. Graças aos filtros HEPA e à circulação eficiente nas aeronaves comerciais, o ar que respiramos durante um voo – apesar de não estar completamente livre de vírus – é muito mais limpo do que o ar nos restaurantes, bares, lojas ou na sala de estar do nosso melhor amigo. Eis as razões pelas quais não devemos temer o ar lá em cima.


Como se limpa o ar nos aviões
Grande parte dos aviões comerciais (mas não todos) estão equipados com filtros HEPA (High Efficiency Particulate Air). Isto significa que, nos aviões equipados com o sistema HEPA, o fluxo de ar “reflete o fluxo de ar laminar de uma sala de cirurgia – com pouco ou nenhum cruzamento de correntes de ar”, diz o Dr. Bjoern Becker, da companhia aérea Lufthansa. “O ar é bombeado do teto para a cabine com uma velocidade de cerca de um metro por segundo, e sugado novamente para baixo dos lugares à janela.”

Cerca de 40% do ar de uma cabine é filtrado por este sistema HEPA; os restantes 60% são ar fresco que é canalizado do exterior do avião. “O ar da cabine é completamente renovado, em média, a cada três minutos, enquanto a aeronave está em cruzeiro”, diz Bjoern. (A Lufthansa tem um vídeo que demonstra o funcionamento dos filtros HEPA.)

(Relacionado: Como se propaga o coronavírus num avião – e o lugar mais seguro.)

Oficialmente, os filtros HEPA certificados “bloqueiam e capturam 99.97% das partículas transportadas pelo ar que tenham um tamanho superior a 0.3 mícrons”, diz Tony Julian, especialista em purificação de ar do Grupo Ambiental RGF. A eficiência destes filtros, talvez de forma contraintuitiva, aumenta com as partículas ainda mais pequenas. Portanto, apesar de as gotículas exaladas que transportam o SARS-CoV-2 poderem ser minúsculas, os filtros HEPA removem efetivamente a grande maioria destas gotículas do ar.

Um passageiro com máscara num voo entre Vancouver, no Canadá, e Sydney, na Austrália, na primavera de 2020. O uso obrigatório de máscara nos aviões foi rigorosamente implementado por algumas companhias aéreas.

Fotografia de Jen Osborne, Redux

“Normalmente, o número de partículas no ar é muito baixo, um avião é praticamente um espaço limpo, porque há muita ventilação e muito poucas fontes de geração de partículas no seu interior”, diz Liam Bates, CEO e cofundador da Kaiterra, fabricante de medidores de qualidade do ar. “[Os aviões] são realmente mais seguros do que praticamente qualquer outro espaço confinado.”

Os aviões mais antigos ou mais pequenos não têm filtros HEPA – têm sistemas de filtragem menos eficazes. Mas mesmo os melhores filtros não conseguem capturar todas as partículas de um vírus a bordo, e há formas pelas quais as companhias aéreas, os seus funcionários e passageiros podem influenciar a eficácia dos filtros.

Qual é a eficácia dos filtros?
A eficácia de filtragem de 99.97% do sistema HEPA parece reconfortante, e os executivos das companhias aéreas contam com isso. “Mas o grande problema destes sistemas”, diz Liam, “reside no facto de só garantir a qualidade do ar que passa pelos filtros. Se o ar que alguém inspira não tiver passado por esses filtros, estes números são irrelevantes.”

É por isso que, para além de bons filtros, as cabines dos aviões também precisam de bons passageiros, ou seja, todos a bordo devem usar máscara.

Isto deve-se às qualidades comprovadas de proteção das máscaras e ao facto de os filtros HEPA e a rápida circulação do ar só funcionarem com uma eficácia máxima quando o avião já está no ar. Isto significa que o período – por vezes interminável –entre sentar e levantar voo (ou entre a aterragem e o desembarque) é quando temos mais probabilidades de inalar gotículas de uma pessoa infetada com COVID-19. O ar estagnado e quente que ocasionalmente sentimos quando um avião está parado no solo pode significar que há pouca circulação através destes filtros.

Como acontece com grande parte da tecnologia, “os filtros HEPA devem ser inspecionados regularmente e substituídos conforme necessário”, diz Tony Julian.

Por exemplo, furos nos filtros ou problemas no isolamento comprometem a sua eficácia. Cada fabricante de filtros HEPA recomenda um cronograma de manutenção para os seus produtos, e a maioria das companhias aéreas muda os filtros frequentemente. Mesmo que uma companhia aérea troque os filtros com menos frequência do que o recomendado, a Associação Internacional de Transportes Aéreos afirma que o fluxo de ar através dos filtros pode ser reduzido, mas a sua capacidade de retenção de partículas não. Ao contrário do que possamos pensar, os filtros sujos podem operar de forma ainda mais eficaz do que os limpos.

A importância das máscaras
Quando tossimos, espirramos ou falamos, há gotículas microscópicas (que por vezes são visíveis) de saliva que escapam da nossa boca. A gravidade faz com que as gotículas maiores caiam rapidamente no chão (ou num apoio de braço), mas as mais pequenas podem ficar suspensas no ar. A ciência que estuda o SARS-CoV-2 ainda está a evoluir, mas há algumas evidências que sugerem que o vírus dentro destas pequenas gotículas é infeccioso.

Um trabalhador com equipamento de proteção desinfeta um avião da Asrair Airlines no Aeroporto Internacional Ben Gurion de Telavive, em Israel, no dia 17 de agosto de 2020.

Fotografia de Gideon Markowicz, JINI/Xinhua/Redux

O uso de uma máscara durante o tempo em que estamos dentro de um avião retém alguma desta saliva – e qualquer vírus que possa conter. Há evidências de que o uso de máscara protege as pessoas à nossa volta e reduz as probabilidades de nos infetarmos. Devemos encarar o uso de máscara como o ato de guardar o portátil durante a descolagem – minimizando as probabilidades de a turbulência do ar fazer com que alguém seja atingido no rosto por um objeto que pode magoar.

Nos EUA, não existe uma lei que obrigue os passageiros dos aviões a usarem máscara. Cada companhia aérea dos EUA implementou as suas próprias regras (por exemplo, a American, a Delta e a United). Existem vários relatos de companhias aéreas que aplicam estas regras de forma rigorosa (a Delta baniu mais de uma centena de passageiros), mas também há companhias que as ignoram ou que colocam essa responsabilidade sobre os passageiros – bem como a responsabilidade de fiscalizarem os outros passageiros. Mas também há histórias de pessoas que voam sem máscara (ou máscaras usadas incorretamente) e de tripulações de voo que não obrigam as pessoas a seguir as regras.

A triagem pode ajudar – ou não
Os aeroportos e companhias aéreas dos EUA estão a implementar novas medidas de triagem para ajudar a evitar que passageiros potencialmente infecciosos entrem nos aviões. Por vezes confiam na honestidade e no comportamento ético dos passageiros, como as companhias aéreas que, durante o check-in, pedem aos passageiros para se certificarem que não tiveram sintomas de COVID-19 nos últimos 14 dias.

Contudo, mesmo que todas as pessoas que embarcam num voo sejam honestas, os passageiros continuam em risco porque cerca de 40% dos casos de COVID são assintomáticos e muitos dos indivíduos nos estágios iniciais da doença não apresentam quaisquer sintomas. Algumas companhias aéreas, incluindo a Qatar Airways, estão a impor o uso obrigatório de máscaras ou viseiras para os passageiros e tripulantes. A máscara protege as outras pessoas e a viseira ajuda a proteger-nos (sobretudo a evitar que o vírus nos infete através dos olhos).

As diversas medidas de triagem indicam que os aeroportos e as companhias aéreas estão a encarar a COVID-19 com rigor, mas os especialistas dizem que estas medidas nem sempre se baseiam em factos científicos. “Os rastreios de temperatura dos passageiros fazem-nos sentir que estamos a fazer algo de tangível para evitar a propagação, no entanto, com base nos dados científicos que temos até agora, isso não é eficaz na identificação de pacientes com COVID-19, nem na redução da propagação”, afirma o Dr. Daniel Fagbuyi, nomeado pelo governo de Obama para o National Biodefense Science Board, que tem experiência a lidar com pandemias. As medições de temperatura feitas com termómetros de infravermelhos não detetam 30% das pessoas com febre.

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Formas de nos mantermos mais seguros durante um voo
O maior risco de voar pode ser o aeroporto, o embarque e a experiência de descolar/aterrar. O contacto de proximidade com pessoas que não usam máscara pode dar origem a infeções. Manter os supostos dois metros (ou mais) de distância social quando chegamos ao portão de embarque, quando nos vamos sentar, ou até quando saímos do avião, é provavelmente mais relevante do que qualquer outra coisa que possamos fazer (exceto cobrir o rosto).

Em casos onde é mesmo necessário voar, devemos optar por uma companhia aérea que cumpra as suas próprias regras de proteção – e assim não temos de nos preocupar em verificar quem usa máscara ou não. Até meados de agosto, a Alaska Airlines era aparentemente a companhia mais vigilante entre as companhias aéreas dos EUA em relação ao uso de máscara.

A Delta, a Alaska, a Hawaiian e a Jet Blue estão, por enquanto, a manter os lugares do meio vazios, e menos pessoas a bordo pode resultar numa maior proteção contra a COVID-19. Um estudo que foi muito falado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, publicado no dia 18 de agosto de 2020, descobriu que, deixar o lugar do meio vazio nos voos diminui o risco de um determinado passageiro contrair COVID-19 por um fator de 1.8, mas o estudo ainda não foi revisto por pares.

A bordo, devemos minimizar o contacto com superfícies e lavar bem as mãos antes de tocarmos no rosto (incluindo na máscara). Não há necessidade de voarmos com um fato de biocontenção, diz o Dr. Ken Perry, médico de emergência em Charleston, na Carolina do Sul. “As pessoas ficavam muito melhor se fossem meticulosas com o uso da máscara em vez de se preocuparem com luvas e outros dispositivos.”

Os cientistas dizem agora que tocar em objetos e depois tocar nos olhos, nariz ou boca com as mãos sujas não é a principal fonte de transmissão de COVID-19. No entanto, um relatório publicado recentemente sobre uma transmissão a bordo de um avião sugere que uma pessoa assintomática propagou a doença através das superfícies da casa de banho.

As companhias aéreas aumentaram as suas diretrizes de limpeza, incluindo a desinfeção dos aviões com pulverizadores eletrostáticos. E com a aprovação de emergência agora anunciada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a American Airlines vai começar a limpar as superfícies de maior contacto (encostos dos bancos, tabuleiros) com SurfaceWise2, um revestimento que aparentemente mata o coronavírus até sete dias.

Durante um voo, Daniel Fagbuyi recomenda que se mantenha a máscara o máximo de tempo possível. Isto significa evitar comer e beber durante o voo. Limpar as mãos com desinfetante não faz mal, diz Daniel, mas “lave as mãos com água e sabão depois de sair” do avião, sobretudo antes de tirar a máscara.

E apesar de poder ser desconfortável, a Dra. Joyce Sanchez, diretora médica da Travel Health Clinic em Froedtert e na Faculdade de Medicina de Wisconsin, diz que a máscara não afeta os nossos níveis de oxigénio e de dióxido de carbono. “A grande maioria das pessoas, incluindo as que têm problemas crónicos pulmonares e cardíacos, podem usar as máscaras com segurança”, diz Joyce.

Parece que, neste momento, a melhor forma de tornarmos os céus mais amigáveis é esconder o nosso sorriso.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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