Será que as Novas Tecnologias de Viagens Vão Invadir a Nossa Privacidade?

Reconhecimento facial digital. Aplicações de rastreio COVID. Durante uma pandemia, as inovações que reforçam a segurança nas viagens também podem expor os nossos dados pessoais.

Thursday, October 1, 2020,
Por Johanna Read
Um segurança com luvas examina o telemóvel de um viajante no Aeroporto Internacional de Atenas, na ...

Um segurança com luvas examina o telemóvel de um viajante no Aeroporto Internacional de Atenas, na Grécia, no dia 17 de setembro de 2020.

Fotografia de Yorgos Karahalis, Bloomberg/Getty Images

A revolução tecnológica no mundo das viagens, acelerada pela pandemia de COVID-19, é ao mesmo tempo maravilhosa e invasora da nossa privacidade. Aplicações para telemóvel, dispositivos de reconhecimento facial e produtos inteligentes podem tornar o trânsito aéreo e as passagens fronteiriças mais convenientes. E os elementos touchless que nos permitem evitar filas também podem ajudar a evitar vírus nocivos.

As novas tecnologias também podem acelerar um regresso às viagens normais, como a iniciativa CommonPass, uma colaboração entre o Fórum Económico Mundial e o The Commons Project, que visa permitir aos governos validar testes COVID de indivíduos e, eventualmente, as suas credenciais de vacinação.

Mas estas inovações também acarretam alguns riscos. Para uma história de advertência sobre tecnologia de viagens e segurança de dados, basta olhar para um episódio que aconteceu recentemente e que envolveu Tony Abbott, ex-primeiro ministro australiano. Tony Abbot publicou uma fotografia do seu cartão de embarque da Qantas Airlines na sua conta de Instagram, permitindo a um hacker digitalizar o código e obter o número de passaporte do antigo primeiro ministro.

Os bilhetes em papel são uma coisa do passado, mas ilustram bem que os cibercriminosos podem usar as suas capacidades de leitura HTML e mineração de dados para o bem ou para o mal. No caso de Tony Abbott, o hacker expôs as falhas de segurança para desencorajar as pessoas de mostrarem os seus cartões de embarque e outros documentos confidenciais online. A companhia aérea Qantas Airlines respondeu atualizando os seus protocolos de segurança.

Quando regressarmos a um mundo com novas tecnologias de viagem, como é que podemos proteger a nossa informação pessoal?

Tecnologia de reconhecimento facial
Singapura, que está sempre na vanguarda da tecnologia, anunciou que a partir de setembro de 2020 será o primeiro país do mundo a usar reconhecimento facial em documentos de identidade emitidos pelo governo. Em 2023, o Departamento de Segurança Interna dos EUA espera usar reconhecimento facial em 97% dos viajantes.

A pandemia de COVID-19 também deu origem a novas tecnologias – e a novas preocupações com as suas ramificações. Em alguns países, os visitantes são obrigados a descarregar aplicações de rastreio de contactos (no Belize) ou a usar um rastreador GPS (durante a quarentena em Hong Kong e para alguns visitantes de Granada, nas Caraíbas). Por enquanto, este acompanhamento e rastreio pode ser o preço a pagar quando se viaja durante um surto viral. As aplicações de rastreio de contactos mais seguras usam bluetooth e não carregam automaticamente informações para um banco de dados central. Mas em junho, a Amnistia Internacional destacou o Bahrain, o Kuwait e a Noruega por aplicações excessivamente invasivas, e o Qatar por uma falha de segurança que tornou as informações pessoais vulneráveis a ciberataques.

No dia 2 de março de 2020, no Aeroporto Nikola Tesla de Belgrado, na Sérvia, as autoridades usavam um monitor térmico para ajudar a descortinar os possíveis casos de coronavírus que entravam no país.

Fotografia de Oliver Bunic, Bloomberg/Getty Images

Para os viajantes, as ramificações dos programas de reconhecimento facial ainda não são bem conhecidas. Quem se preocupa com a sua privacidade deve ser cauteloso com toda a digitalização e gravação das suas características pessoais. Nos aeroportos dos EUA, os passageiros podem optar por não fazer identificação biométrica na alfândega e em outros pontos de controlo, mas é preciso fazer uma requisição. E isto pode fazer com que uma pessoa passe por mais triagens, ou pode dar a entender que tem algo a esconder, pelo que pode ser mais fácil seguir o protocolo.

Mesmo que a nossa cara – com ou sem máscara – se torne no nosso passaporte, cartão de embarque ou permita tomar o pequeno-almoço num hotel, é legítimo perguntar se isto é mais invasivo do que as outras formas em que a tecnologia usa fotografias para rastrear os nossos movimentos e interesses. A opção Imagens do Google já está a fazer “um ótimo trabalho no reconhecimento de pessoas pelas fotografias que têm online”, diz Vinny Troia, um hacker “ético” e CEO da empresa de avaliação de risco Night Lion Security. O Facebook faz automaticamente uma pesquisa de reconhecimento facial quando carregamos fotografias e sugere que se identifique as pessoas que deteta em cada imagem.

Invasões de privacidade maioritariamente inofensivas?
Embarcar num avião com apenas um movimento do ecrã do telemóvel é futurista e simples. Os assistentes de inteligência artificial que nos fazem reservas de hotéis, reservas nas companhias aéreas ou no aluguer de automóveis também parecem úteis. Mas existem formas em que essa tecnologia explora e usa os nossos dados. Algumas destas tecnologias são inofensivas: por exemplo, se a nossa pesquisa for sobre uma casa para alugar nas praias da Carolina do Norte, isso pode inundar as nossas redes sociais com anúncios sobre churrasqueiras.

O uso de aplicações (Facebook, Tiktok, WeChat) expõe os nossos dados, que são “vendidos a terceiros para publicidade, modelagem de dados e usos futuros que nem sequer considerámos”, diz Mark McCreary, advogado de privacidade e segurança de dados. “Graças aos dados dos viajantes, as empresas conseguem modelar e prever a procura por viagens e a tolerância de preços. Os dados são um grande negócio na indústria de viagens.”

Uma passageira mostra um código de saúde no seu telemóvel enquanto faz o check-in para um voo no Aeroporto Internacional de Pequim, na China, no dia 4 de julho de 2020. Alguns países estão a implementar aplicações de rastreio para tentar tornar as viagens aéreas mais seguras durante a pandemia, mas os defensores de privacidade temem que os viajantes possam correr o risco de expor demasiados dados pessoais.

Fotografia de Hou Yu, China News Service/Getty Images

(Relacionado: Agulhas microscópicas e reconhecimento facial – viagens aéreas adaptam-se para aumentar segurança.)

Para quem não tem problemas em publicar uma selfie quando acampa num parque nacional ou janta num restaurante, a ansiedade em relação às inovações nas viagens pode ser despropositada. Diminuir os anúncios direcionados de viagens é fácil: basta apagar periodicamente os cookies e o histórico de pesquisa, ou procurar voos ou carros para alugar em modo de navegação privado.

As boas notícias? “A maioria das aplicações de viagens de uso generalizado (por exemplo, aplicações de reserva de alojamento e transporte, guias de cidades, etc.) não são particularmente comprometedoras em termos de privacidade”, diz Dave Dean, fundador do Too Many Adapters, um site que desmistifica as tecnologias de viagens. Dave alerta que as aplicações das redes sociais (Facebook, Instagram) recolhem normalmente mais dados confidenciais do que as aplicações de reservas, e usam-nos de formas mais invasivas. “No entanto, a maioria das pessoas usa alegremente estas aplicações todos os dias.”

Falhas de segurança mais sérias
Há ameaças maiores do que anúncios indesejados ou reconhecimentos faciais que usam a tecnologia de viagens para invadir as nossas contas bancárias, cartões de crédito ou para roubar a nossa identidade.

Os viajantes costumam estar em lugares desconhecidos, distraem-se facilmente e têm mais propensão para serem vítimas tanto de roubo físico como de ciberataques (por exemplo, o nosso telemóvel ou computador podem ser invadidos através de uma rede wi-fi de um café em Moscovo). As invasões digitais podem resultar em ataques menos óbvios, como o chamado sniffing (parecido a colocar um telefone sob escuta), malware e phishing.

Os cibercriminosos criam rotineiramente redes e sites que parecem legítimos para roubar os nossos nomes de utilizador, senhas e contactos. “Uma boa precaução é limitar o uso de wi-fi público, que normalmente não é protegido e representa um alvo atraente para os hackers”, diz Attila Tomaschek, investigador do site de análises e ferramentas de privacidade ProPrivacy.

Paul Lipman, CEO da empresa de cibersegurança BullGuard, recomenda a utilização de dispositivos que “contenham apenas os dados de que precisamos para aquela viagem”, sobretudo quando se visita países onde os funcionários governamentais têm o direito (ou uma inclinação) para aceder aos nossos dispositivos.

A solução? Uma pegada tecnológica mais leve
A melhor solução pode passar por pouca bagagem, tanto física como digital. Dave Dean armazena o mínimo de informações possível nos seus dispositivos, mantendo apenas as aplicações de que realmente precisa, e revoga regularmente as permissões de terceiros para o Google e Facebook. Dave recomenda que se minimize o acesso das aplicações aos nossos contactos e localização. “Não autorizo o acesso à localização (GPS) para qualquer aplicação que não exija absolutamente isso para funcionar, e mantenho os serviços de localização desligados quando não os estou ativamente a usar para fins de navegação.”

Scott Keyes, fundador do Scott’s Cheap Flights, um site de tarifas aéreas de baixo custo, recomenda que todos os ecrãs de bloqueio e contas dos dispositivos devem ter senhas seguras e exclusivas, e recomenda a desinstalação ou saída de aplicações financeiras antes de nos fazermos à estrada. E devemos certificar-nos de que atualizamos o software com as atualizações de segurança mais recentes. Os adaptadores também são importantes: ter os cabos internacionais corretos (ou uma bateria recarregável) significa que não seremos invadidos (ou pirateados através de uma ligação USB pública).

Paul Mayers, executivo aposentado do governo canadiano, diz que, “quando visitava alguns países, tudo o que eu não precisava ficava em casa”. Tudo o resto – telefone, tablet, anotações de reuniões – “ia tudo comigo sempre que eu saía do meu quarto de hotel”. Em alguns países, as operadoras estatais podem e recorrem à espionagem para obter uma vantagem competitiva, incluindo invadir o nosso cofre no quarto de hotel para ter acesso ao portátil e fazer uma cópia rápida, ou para instalar malware de monitorização.

Tudo isto parece uma espécie de filme de espionagem onde nós, os nossos dados e a nossa capacidade de atenção se transformam num produto altamente lucrativo. Mas há passos simples que nos podem ajudar a evitar um papel principal.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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