A Triste e Controversa História do Monte Rushmore

Os turistas aglomeram-se para ver as enormes esculturas presidenciais no Dakota do Sul. Mas o Monte Rushmore tem uma história complexa de apropriação de terras, egos e cenas de cinema controversas.

Thursday, November 5, 2020
Por Amy McKeever
O Memorial Nacional do Monte Rushmore em Keystone, no Dakota do Sul, foi esculpido entre 1927 e ...

O Memorial Nacional do Monte Rushmore em Keystone, no Dakota do Sul, foi esculpido entre 1927 e 1941 na face de granito de uma montanha em Black Hills. Os problemas de financiamento arrastaram este projeto durante mais tempo do que o esperado.

Fotografia de Kerem Yucel, AFP/Getty Images

Construído em terras sagradas de nativos americanos e esculpido por um homem ligado ao Ku Klux Klan, o Memorial Nacional do Monte Rushmore ficou envolto em controvérsia mesmo antes de estar concluído, há 79 anos, no dia 31 de outubro de 1941.

Monte Rushmore presta uma homenagem patriótica a quatro presidentes dos Estados Unidos – George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln – com rostos de 18 metros esculpidos numa montanha em Black Hills, no Dakota do Sul.

Esquerda: Quatrocentos homens, muitos deles mineiros, trabalharam com o escultor Gutzon Borglum para esculpir os rostos de quatro presidentes dos EUA no Monte Rushmore usando uma combinação de dinamite, martelos pneumáticos e ferramentas para esculpir.
Direita: Em 1930, um trabalhador transportava dinamite e detonadores que seriam usados para explodir rocha no Monte Rushmore, removendo partes de granito antes de os escultores entrarem em cena.

Fotografia de FREDERIC LEWIS, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E ARCHIVE PHOTOS, GETTY IMAGES (DIREITA)

Ao longo dos anos, o monumento foi alvo de protestos devido à sua localização em terras indígenas, debates sobre se outro presidente mereceria um lugar na montanha e uma polémica em Hollywood sobre um filme de Alfred Hitchcock que foi parcialmente filmado no local.

Para compreender como é que o Monte Rushmore se tornou num símbolo cultural e ponto de discórdia, eis um olhar sobre a sua criação.

Apropriação de terras
Antes de ficar conhecido como Monte Rushmore, o povo Lakota chamava a esta formação de granito Tunkasila Sakpe Paha, ou Montanha dos Seis Avôs. Era um lugar de oração e devoção para os povos nativos das Grandes Planícies, explica Donovin Sprague, chefe do departamento de história do Sheridan College, em Wyoming, e membro da tribo Sioux do rio Cheyenne. A localização da montanha em Black Hills também é significativa.

“É o centro do universo para o nosso povo”, diz Donovin. Para as comunidades Lakota, Cheyenne e Arapaho, a região não era apenas espiritualmente importante, também era onde as tribos recolhiam alimentos e plantas que usavam na medicina.

No final do século XIX, os colonos euro-americanos começaram a invadir Black Hills, iniciando uma guerra com a população indígena. O governo dos Estados Unidos assinou o Tratado de Fort Laramie em 1868, dando aos Lakota o uso exclusivo de Black Hills. Porém, menos de dez anos depois, foi descoberto ouro na região e, em 1877, os EUA quebraram o tratado e assumiram o controlo da terra.

Em 1929, trabalhadores no Dakota do Sul usaram dinamite na lateral de uma montanha de granito para começar a moldar os rostos de quatro presidentes dos EUA.

Fotografia de FPG, Hulton Archive/Getty Images

“O que aconteceu em Black Hills foi claramente um roubo em relação às próprias leis dos EUA”, diz Christine Gish Hill, professora de antropologia na Universidade Estadual de Iowa que tem investigado o significado do Monte Rushmore para os nativos americanos.

Colonos e exploradores de ouro invadiram a região. Em 1884, Charles Rushmore, advogado nova-iorquino, visitou a região para fazer um acordo sobre uma mina de estanho e, por brincadeira, a Montanha dos Seis Avôs foi rebatizada em sua homenagem.

Mas a disputa de terras não ficou resolvida. Na década de 1920, as tribos Lakota processaram o governo dos Estados Unidos por roubo – uma batalha legal que se arrastaria durante décadas.

Criar uma atração turística
Na década de 1920, o Dakota do Sul, agora um estado dos EUA, tinha-se tornado num destino de viagem para os americanos que viajavam nas suas novas carroças motorizadas sem cavalos para ver a recém-designada Floresta Nacional de Black Hills e o Parque Nacional de Wind Cave. O governador Peter Norbeck também mandou construir a Autoestrada Needles, uma rota panorâmica que atravessa as icónicas formações de granito de Black Hills.

Esquerda: Uma vista aérea do Monte Rushmore captada em 1967 mostra as quatro faces presidenciais, as montanhas de Black Hills e o seu enorme parque de estacionamento. Tanto o parque de estacionamento como a garagem que o substituiu na década de 1990 foram criticados pela desflorestação necessária para a sua construção; a taxa atual de 5 dólares para estacionar na garagem também não é popular entre os turistas.
Direita: Em 1947, turistas admiravam o Monte Rushmore, que tinha sido finalmente concluído em 1941 após décadas de contratempos e atrasos no financiamento.

Fotografia de CHARLES E. ROTKIN, CORBIS / VCG / GETTY IMAGES (ESQUERDA) E J. BAYLOR ROBERTS (DIREITA)

Mas Doane Robinson, historiador da Sociedade Histórica do Estado do Dakota do Sul, acreditava que o estado precisava de mais coisas para atrair turistas. Em 1924, depois de ouvir falar sobre uma tentativa para esculpir as imagens de líderes confederados na encosta de Stone Mountain, na Georgia, Doane Robinson lançou uma campanha para criar esculturas de figuras históricas no Dakota do Sul.

Doane imaginou uma ode ao velho oeste, com esculturas de figuras como Lewis, Clark e o líder Lakota, Red Cloud. Doane contactou o escultor de Stone Mountain, Gutzon Borglum – que mais tarde iria transformar a montanha no que é hoje.

Escultor controverso
Gutzon Borglum ficou famoso pelas suas esculturas que homenageavam a história dos Estados Unidos, bem como pela sua personalidade fervorosa. Na Georgia, Gutzon envolveu-se com o Ku Klux Klan, que ajudou a financiar o projeto de Stone Mountain. Mas Gutzon rapidamente começou a entrar em conflito com a Associação do Memorial de Stone Mountain.

Em fevereiro de 1925, a associação demitiu Gutzon, citando má gestão de fundos e o “seu egoísmo ofensivo e ilusões de grandeza”. A sua demissão tornou-se notícia nacional quando Gutzon destruiu os modelos de Stone Mountain e fugiu do estado.

Em 1937, o escultor Gutzon Borglum trabalhava num modelo de argila do Memorial Nacional do Monte Rushmore.

Fotografia de Ullstein Bild, Getty Images

Em agosto de 1925, Gutzon Borglum concordou em trabalhar no Monte Rushmore – mas não da forma como Doane Robinson tinha sugerido. Gutzon encarou esta escultura como uma prova da excecionalidade americana e defendeu que devia representar os presidentes que tinham sido fundamentais para a expansão do país.

George Washington, o primeiro presidente, iria representar o nascimento do país. Thomas Jefferson, que quase duplicou o tamanho da nação com a compra do Território de Louisiana, representava a sua expansão para oeste. Theodore Roosevelt, que supervisionou a construção do Canal do Panamá, era um símbolo do crescimento económico. E Abraham Lincoln foi escolhido por ter lutado na preservação da nação durante a Guerra Civil.

Trabalho inacabado, uma sala secreta e representações na cultura pop
Durante os 16 anos que se seguiram, Gutzon discutiu com o governo federal sobre o financiamento e controlo do Monte Rushmore – que tecnicamente nunca concluiu.

Gutzon esperava poder esculpir os presidentes até à cintura, e queria esculpir uma descrição do memorial ao lado. Mas quando ficou claro que não havia espaço suficiente, decidiu construir uma sala por trás dos rostos presidenciais para armazenar artefactos históricos dos EUA.

Em 1938, Gutzon começou a abrir um túnel de 21 metros com dinamite na montanha para construir o seu “Hall of Records”. Contudo, à medida que a guerra se aproximava na Europa, o governo dos Estados Unidos ficou preocupado com o financiamento e instruiu Gutzon para adiar esta parte da obra até que as quatro faces estivessem concluídas.

Gutzon ainda estava a refinar as cabeças quando a sua saúde começou a piorar. Faleceu no dia 6 de março de 1941, deixando ao seu filho, Lincoln, a continuidade do seu trabalho. Mas a montanha tinha uma quantidade limitada de superfície que podia ser esculpida – por exemplo, a mão de Jefferson não pôde ser concluída devido à qualidade da pedra – e, pior do que isso, o financiamento acabou. O projeto foi declarado concluído no dia 31 de outubro de 1941.

O túnel que Gutzon tinha perfurado para o “Hall of Records” permaneceu vazio durante décadas, até 1998, quando o Serviço Nacional de Parques colocou um cofre de titânio na montanha, enchendo-o com informações sobre o Monte Rushmore, sobre os presidentes e a história dos Estados Unidos. Esta sala pouco secreta não está aberta ao público, mas tem sido alvo de muita especulação e chegou até a ser retratada no filme O Tesouro, que conta uma história fictícia de conspiração.

O Monte Rushmore também foi o cenário da cena de perseguição final do filme de Alfred Hitchcock de 1959, Intriga Internacional. No entanto, a própria rodagem do filme gerou polémica. Em 1958, o Serviço Nacional de Parques concedeu a Hitchcock permissão para filmar no memorial com a condição de que não servisse de pano de fundo para quaisquer cenas violentas. Hitchcock teve de prometer a Cary Grant e a outros atores que não iriam passar por cima das cabeças dos presidentes.

Hitchcock cumpriu parcialmente a sua promessa, filmando cenas no parque de estacionamento e no refeitório do memorial. Mas filmou a violenta cena final de perseguição do filme numa réplica com uma escala tão realista que o público acreditou que tinha sido filmada no Monte Rushmore. O Serviço Nacional de Parques e o Departamento do Interior dos EUA protestaram e, por fim, pediram à Metro-Goldwyn-Mayer para remover os agradecimentos pela sua cooperação nos créditos finais do filme.

Local de protesto
O Monte Rushmore foi aberto ao público enquanto os Lakota continuavam com as disputas legais. Nas décadas seguintes, o memorial e arredores serviram como ponto de referência para a forma como os nativos americanos eram tratados.

Ativistas e membros de diferentes tribos nativas americanas bloquearam a estrada de acesso ao Monumento Nacional do Monte Rushmore, no Dakota do Sul, no dia 4 de julho de 2020. Esta manifestação protestava contra a visita do presidente dos EUA, Donald Trump, e contra o facto de o monumento ter sido construído em terras indígenas sagradas.

Fotografia de Andrew Cabellero-Reynolds, AFP/Getty Images

Embora a perda de terras fosse a grande preocupação de muitos dos Lakota, Cheyenne e Arapaho, Christine Gish Hill diz que alguns indígenas também queriam que o local reconhecesse a sua história.

As nações nativas também questionaram a forma como o Monte Rushmore contava a sua história – e a história da expansão dos EUA. Gutzon Borglum tinha projetado o local como um santuário para a grandeza dos quatro presidentes que retratava – e, como resultado, diz Christine Hill, o memorial tornou-se “num espaço para um patriotismo descomplicado”.

A interpretação do Monte Rushmore da história dos Estados Unidos ignorou que Theodore Roosevelt, por exemplo, supervisionou o desmantelamento do Território Nativo Americano em Oklahoma, e que George Washington e Thomas Jefferson possuíam escravos africanos. Donovin Sprague refere que até o próprio Abraham Lincoln estava entusiasmado com a expansão para oeste e, em 1862, enviou tropas para o Minnesota, para reprimir uma revolta no Dakota.

O movimento pelos direitos civis da década de 1960 inspirou uma onda de protestos entre os nativos americanos por todo o país. No verão de 1970, o protesto chegou ao Monte Rushmore, quando algumas dezenas de ativistas da organização United Native Americans escalaram o memorial para exigir a devolução de Black Hills ao povo Lakota. Os ativistas acamparam no topo do memorial durante meses – e regressaram no verão seguinte para um protesto mais breve que terminou com as suas detenções.

Em 1980, a longa disputa legal chegou finalmente ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos. No histórico caso Estados Unidos contra a Nação dos Índios Sioux, o Supremo Tribunal decidiu que o governo dos EUA se tinha apropriado indevidamente do território dos Lakota em Black Hills, atribuindo uma indemnização de 17.1 milhões dólares pelos danos causados. Mas os Lakota recusaram a indemnização e, em vez disso, defenderam a devolução de Black Hills.

A dualidade do Monte Rushmore – entre solo indígena sagrado e destino patriótico – significa que este continua a ser um local de protesto até aos dias de hoje. No dia 4 de julho de 2020, mais de uma centena de manifestantes reuniram-se num comício realizado pelo presidente Donald Trump para protestarem contra o memorial e para lembrar aos participantes que o Monte Rushmore tinha sido construído em terras roubadas.

Propostas de mudança
Enquanto o monumento ainda estava em construção, houve pressões para se acrescentarem mais rostos ao Monte Rushmore. Em 1936, a primeira-dama Eleanor Roosevelt apoiou uma proposta para adicionar o rosto de Susan B. Anthony, ativista dos direitos das mulheres, mas a proposta não foi aceite. A ideia de que o memorial poderia de alguma forma evoluir iria persistir, com políticos a sugerirem a adição de John F. Kennedy, Ronald Reagan e Franklin Delano Roosevelt. Mais recentemente, Trump afirmou repetidamente que também devia constar nessa lista.

Enquanto alguns fazem pressão para que o Monte Rushmore seja expandido, outros exigem a sua demolição. Num momento em que os EUA continuam a considerar a relevância de estátuas de confederados e outros monumentos do seu passado racista, alguns líderes tribais e os seus apoiantes pedem a remoção do memorial.

É pouco provável que este memorial com quase 80 anos seja alvo de grandes alterações. O Serviço Nacional de Parques rejeitou a ideia que visava incluir uma nova face no Monte Rushmore, alterando assim o conceito de Gutzon Borglum, e a comunidade nativa americana está dividida sobre se o memorial deve ser destruído, ou se deve ser usado para educar os turistas sobre a verdadeira história do oeste americano.

“Não acho que se possa ganhar algo com a demolição de coisas, mas de onde venho, creio que devia representar uma faceta dos índios americanos ou alguém do povo Lakota”, diz Donovin Sprague. “Esta grande escultura é visitada por inúmeras pessoas, mas elas saem daqui com muito pouco conhecimento sobre estas coisas.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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