As Histórias da “Ponte do Diabo”, da Fertilidade às Invasões Francesas

A paisagem idílica e o cenário arquitetónico incomum conferiram à Ponte da Misarela um cariz espiritual. Envolta em fantasia, ficou popularmente conhecida como “Ponte do Diabo”.

Monday, November 16, 2020,
Por National Geographic
Ponte da Misarela

A Ponte da Misarela eleva-se a mais de 15 metros sobre o leito do rio Rabagão. A vegetação densa que a envolve e as cascatas e formações rochosas que a rodeiam, tornam este local num cenário natural arrebatador.

Fotografia de Turismo de Vieira do Minho

A Ponte do Diabo, como é conhecida a Ponte da Misarela, situa-se depois de Pitões das Júnias, descendo em direção ao Cávado, sobre o rio Rabagão e encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958.

Localiza-se a cerca de um quilómetro da sua foz no rio Cávado, e liga as freguesias de Ruivães, em Vieira do Minho, à de Ferral, no concelho de Montalegre. Assente sobre penedos e sustentada por um único arco, com aproximadamente 13 metros de vão, foi erguida na Idade Média e reconstruída no início do século XIX.

A origem da lenda
Para além da paisagem idílica em que se encontra, no fundo de um desfiladeiro escarpado, a Ponte do Diabo carrega uma lenda que perdura até hoje. Segundo a narrativa, um criminoso em fuga, perseguido pelas autoridades, ao chegar à margem do rio Rabagão, desesperado, invocou o diabo, pedindo-lhe ajuda para transpor o rio e passar a salvo para a outra margem. Como contrapartida, o criminoso terá oferecido a própria alma ao diabo. Aceitando a oferenda, o mafarrico fez aparecer uma ponte, ordenando ao criminoso que a atravessasse sem olhar para trás. Chegado à outra margem, o diabo fez desaparecer a ponte, ajudando o criminoso a escapar às autoridades.

Decorridos alguns anos, a "morte" bateu à porta do antigo criminoso, agora moribundo, anunciando-lhe: “Venho-te buscar, ó alma do diabo”. Dizendo-se arrependido, o aterrorizado homem pediu ajuda, mandando chamar um padre para lhe dar os últimos sacramentos e quebrar o velho pacto com o diabo. O padre monta a cavalo e sai velozmente em auxílio do arrependido. No entanto, ao chegar à margem do rio constata que não havia passagem no local onde o diabo, em tempos, teria feito figurar uma ponte.

Com pressa em cumprir a missão que lhe haviam atribuído, o padre ergue os braços ao alto e olhando para o céu escuro, pede ajuda divina e profere: “Por Deus das águas puras do Rabagão ou pelo diabo das pedras negras, apareça aqui uma ponte de pedra”. Nisto, avista a escura silhueta do diabo na outra margem e, destemido, pergunta: “És tu, Satanás?”. Não obtendo resposta, o padre, vocifera: “Vade retro!”. De seguida, pegando no hissope, aspergiu em direção à outra margem a água benta que trazia consigo e vê surgir uma ponte em arco assente nas enormes rochas das margens, materializando a curva formada pela água sagrada lançada sobre o rio. Ao vislumbrar tamanho feito, o padre faz o sinal da cruz e pronuncia as palavras do exorcismo ao mesmo tempo que vai ouvindo os rugidos bestiais de Lúcifer. A negritude atmosférica é invadida por um enorme cheiro a enxofre que paira no ar e, nisto, o padre ouve um grande estrondo no fundo das águas do Rabagão. Mais aliviado, em direção às águas profundas, grita: “Arrebenta tu diabo, que esta alma não é tua”. Após agradecer o milagre, seguiu caminho e socorreu com êxito o moribundo arrependido. Desde então, a Ponte da Misarela ficou com a fama de Ponte Mágica, Ponte do Diabo ou Ponte da Virtude.

Ritos, mezinhas e quebrantos
O povo da região aproveitou-se da localização da então conhecida Ponte do Diabo para exercer os seus rituais, onde se fazem mezinhas e se rezam quebrantos.

Um dos lados é denominado Púlpito do Diabo, por se tratar de um enorme rochedo, onde se acredita que o Diabo vai pregar à meia-noite.

De geração em geração passou-se a mensagem de que quando uma mulher sofre abortos consecutivos, deve ir até à Ponte do Diabo à noite. Na extremidade da ponte mais próxima do lugar onde habitua, a mulher deve aguardar que passe o primeiro caminhante em sentido contrário. Este deve ser convidado a proceder ao batismo in ventris do futuro bebé.

A Ponte da Misarela exibe um arco com mais de 10 metros, solidamente alicerçado nas escarpas graníticas.

Fotografia de Turismo de Vieira do Minho

O padrinho improvisado
Colhendo um pouco de água do rio, o caminhante deve fazer uma cruz com a mão direita, vertendo a água no ventre da mulher e proferindo a lengalenga:

Eu te baptizo pelo poder de Deus
e da Virgem Maria!
Padre-Nosso e Avé-Maria!
Se fores meninha (menina)
Serás Senhorinha;
Se fores rapaz
Serás Gervás (Gervásio).

Segundo a crença, a cerimónia deve terminar com uma ceia abundante e o sucesso chegará com o nascimento da criança. A ida à Ponte do Diabo, na procura do dito padrinho improvisado, pode ter de se repetir por vários dias, até que este finalmente chegue.

O caráter sagrado
Trata-se de um lugar fascinante e, como qualquer obra que extravasasse as comuns capacidades humanas, era considerada uma obra do diabo. Desta forma, esta antiga ponte em arco não escapou a esse destino.

As escarpas que a ladeiam e a queda de água da cascata no abismo conferem-lhe uma certa mística. Os poderes mágicos, associados às práticas ancestrais que se relacionam à fertilidade no local, levaram a que a população começasse a atribuir-lhe um caráter sagrado.

Esta ponte foi palco de um combate sangrento entre as tropas francesas do exército de Napoleão e as tropas luso-britânicas, durante a segunda Invasão Francesa. 

Em maio de 1809, o exército de Soult, instalado no Porto e perante uma ameaça de ataque iminente por parte das tropas aliadas lideradas pelo General Wellesley, decide abandonar a cidade e fugir em direção a Espanha, levando apenas os seus homens, alguns animais e o essencial à sua sobrevivência. Com os principais itinerários cortados de forma a impedir a marcha das tropas francesas, Soult opta pelos caminhos sinuosos da Serra da Cabreira para chegar a Montalegre.

A 15 de maio, os invasores entram em Salamonde e no dia seguinte são intercetados na Ponte da Misarela, lugar onde muitos soldados franceses perderam a vida de forma trágica, tal como descreve Carlos de Azeredo na sua obra 'Aqui não passaram – O erro fatal de Napoleão': "Ao ouvir-se na retaguarda o troar da artilharia e basta fuzilaria, as tropas imobilizadas, sem poderem manobrar para se defenderem, e sentindo-se completamente indefesas caíram no pânico. Muitos homens, ainda na vereda, procuravam avançar a todo o custo empurrando os camaradas da frente, atropelando-se uns aos outros (…) na sua ânsia de escaparem de uma terrível situação, lançavam fora armas e equipamento; os pobres animais famintos ou desferrados eram abatidos ou atirados pelas ravinas, (…) muitos homens na ponte eram atirados ao abismo pelo aperto e pela confusão.”

Essa tragédia ecoa numa cantiga popular:

“Chorai meninas de França,
Chorai por vossos maridos,
Na ponte da Misarela
eram mais mortos que vivos!”

O percurso pedestre da Ponte do Diabo
O trilho “Ponte da Misarela – Entre Cávado e Rabagão” foi homologado pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal. Com uma extensão de 12 quilómetros, garante o contacto direto com flora e fauna únicas, inseridas na paisagem característica do Baixo Barroso. O percurso pedestre começa perto do campo de jogos, atravessa o lugar de Vila Nova, fazendo uso do velho caminho de época medieval. Após atravessar a aldeia, sobe pelo meio da encosta, proporcionando vistas panorâmicas sobre o vale do rio Cávado. O caminho segue até ao Viveiro.

Entre campos agrícolas, lameiros e bosques de carvalhos, dá-se a chegada à aldeia de Ferral. A vista é agora sobre o rio Rabagão e o trilho continua até à velha calçada medieval que dá acesso à monumental Ponte da Misarela, a então mítica Ponte do Diabo.


Artivo revisto a 17 de novembro de 2020 por forma a incluir as duas freguesias unidas pela Ponte da Misarela. 

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