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Mulheres Indígenas Estão a Remodelar a Indústria de Turismo do Canadá

Há muito marginalizadas pelo setor de turismo, as mulheres indígenas estão a colocar as histórias dos povos das Primeiras Nações, Métis e Inuíte, no centro das atenções.

Por Jessica Prupas
Publicado 30/11/2020, 16:48 WET, Atualizado 23/06/2021, 10:13 WEST
Durante uma das suas visitas guiadas, Tracey Klettl, proprietária e operadora da Painted Warriors, demonstra como ...

Durante uma das suas visitas guiadas, Tracey Klettl, proprietária e operadora da Painted Warriors, demonstra como os caçadores indígenas usavam um arco e flecha.

Fotografia de Indigenous Tourism Alberta / Roam Creative

Há plantas que combatem a gripe e outras que atuam como calmante. Até o humilde dente-de-leão, que pode ser usado para combater inflamações, é um reflexo do poder curativo natural das plantas.

Mas Brenda Holder – mulher de ascendência Cree que partilha o conhecimento do seu povo através de passeios pela zona rural de Alberta, no Canadá – diz que a sua erva medicinal preferida é a Chamaenerion, uma planta do género Fuchsia que tem propriedades antibacterianas e antivirais, e que é usada para tratar um pouco de tudo, desde queimaduras e constipações a casos de VIH e SIDA.

Quando os visitantes descobrem a sabedoria secular que as culturas indígenas têm sobre as plantas, “ficam impressionados”, diz Brenda. “A maioria das pessoas deseja sentir uma ligação destas com a terra. São pessoas que procuram algo, mas que simplesmente não o sabem.”

(Relacionado: Descubra mais sobre os indígenas do Canadá no nosso artigo sobre os destinos em ascensão para 2021.)

Brenda Holder fundou a sua empresa, Mahikan Trails, há duas décadas atrás, para responder ao crescente apetite dos consumidores por experiências turísticas guiadas por indígenas. Desde então, o mercado no Canadá tem crescido para estas empresas de turismo, uma vertente que liga os visitantes curiosos às culturas das Primeiras Nações, e povos Métis e Inuíte.

Presley Simba-Canadien colhe plantas e bagas com a sua avó, Rosie Canadien, no Lago Tathlina, nos Territórios do Noroeste. As plantas que colhem incluem cálamo-aromático, chagas, salva e pontas de abeto que podem ser transformadas em chá e usadas em medicamentos tradicionais.

Fotografia de Pat Kane

Este aumento exponencial no turismo representa uma mudança notável desde que o setor se começou a desenvolver no Canadá, quando os povos indígenas foram amplamente excluídos e muitas vezes explorados pela indústria. Mas as coisas estão a mudar: os povos indígenas têm agora mais visibilidade do que nunca, e isto deve-se em parte a um grupo crescente de mulheres que está na linha da frente a remodelar o turismo.

Mas Brenda diz que este trajeto não tem sido fácil. “A indústria de turismo não nos deu espaço; nós é que conquistámos este espaço”, diz Brenda. “Decidimos há algum tempo que vamos assumir o controlo e que vamos fazer as coisas da forma que queremos.”

As operadoras turísticas uniram-se para formar organizações dirigidas de raiz por indígenas, incluindo a Associação de Turismo Indígena do Canadá (ITAC) e o Turismo Indígena da Colúmbia Britânica. Estes grupos desenvolvem e promovem o trabalho dos indígenas no setor de turismo e garantem que os seus membros têm o controlo sobre as suas próprias narrativas.

Esquerda: Janet Wilson, guia sénior da Homalco Tours, lidera um grupo pela região de Bute Inlet, na Colúmbia Britânica do Canadá. Esta empresa de turismo coloca os visitantes em contacto com a cultura indígena e oferece excursões de observação de vida selvagem.
Direita: Tracey Klettl diz que é importante que os visitantes compreendam as práticas essenciais de caça do seu povo, que respeita os animais enquanto seres vivos.

Fotografia de HOMALCO WILDLIFE & CULTURAL TOURS (ESQUERDA) E INDIGENOUS TOURISM ALBERTA / ROAM CREATIVE (DIREITA)

Dora Blondin coloca trutas do Lago Great Bear a secar numa tenda em Deline, nos Territórios do Noroeste. Nos passeios guiados, os visitantes aprendem a apanhar, a fatiar e a defumar peixe.

Fotografia de Pat Kane

“Costumava existir uma espécie de ‘pan-indianismo’ promovido pelo turismo canadiano que contribuía para os estereótipos sobre os povos indígenas”, diz Marilyn Yadultin Jensen, vice-presidente da Associação de Turismo Indígena do Canadá e formadora em liderança indígena. “Agora, temos uma parceria mais forte com organizações como a Destination Canada – a empresa nacional de pesquisa e marketing do governo que se dedica a apoiar a indústria de turismo do Canadá – e os povos indígenas estão na linha da frente desta indústria.”

Candace Campo, proprietária da Talaysay Tours, introduz os visitantes aos costumes, à história e às práticas do povo Shíshálh e Squamish através de caminhadas pedagógicas, passeios de barco à vela e outras excursões ecológicas em Vancouver e na Sunshine Coast da Colúmbia Britânica.

“Queremos que os nossos hóspedes saibam realmente quem somos”, diz Candace. “Somos guias turísticos; partilhamos histórias. É assim que fomentamos a compreensão.”

Uma história conturbada

Para muitos operadores de turismo indígenas, este trabalho representa a recuperação das suas terras ancestrais. A empresa de Brenda Holder organiza passeios pelo Parque Nacional Jasper – de onde, há uma década atrás, o governo canadiano expulsou os seus antepassados Cree para abrir o então novo parque. Muitos dos espaços verdes mais visitados do país eram o lar de populações indígenas que foram forçadas a sair devido ao desenvolvimento do sistema de parques nacionais no século XIX. Por exemplo, no Parque Algonquin de Ontário, foi negado ao povo Algonquin o título e o reconhecimento das suas cidades que estavam no interior dos limites do parque. Eventualmente, os Algonquin foram completamente removidos da região.

“A minha família foi uma das primeiras a regressar a Jasper depois de ter sido afastada da área”, diz Brenda. “Sinto que fizemos sempre parte desta paisagem. Temos aqui as nossas evidências espirituais.”

Mesmo quando os indígenas eram encorajados a regressar aos parques nacionais, muitas vezes isso acontecia para as suas culturas serem apropriadas com objetivos financeiros. O povo de Stoney-Nakoda foi convidado para se apresentar no festival Banff Indian Days, que começou na década de 1970. Usando uma linguagem que na época era considerada ofensiva para os indígenas, a publicidade do evento prometia pessoas da Primeira Nação vestidas com trajes a rigor, e esperava-se que os “artistas” dançassem e gritassem de formas que faziam lembrar os estereótipos do “Velho Oeste”.

Na década de 1980, a Comissão de Turismo do Canadá (agora Destination Canada) começou a oferecer experiências que incentivavam os turistas a “tornarem-se nativos” através de encontros culturais pré-programados com povos indígenas. Estas experiências exacerbavam os estereótipos sobre os povos indígenas. Alguns preconceitos de género ainda persistiam – mulheres indígenas que eram retratadas como “primitivas” ou romantizadas ao estilo de Pocahontas. Na ausência de operadores indígenas, os turistas começaram a contar com este tipo de experiências.

Apesar desta história conturbada, a indústria de turismo do Canadá começou lentamente a abrir espaço para as vozes indígenas. A Destination Canada fez parceria com a ITAC um ano depois da sua fundação, em 2015. Ambas as partes trocam agora conhecimentos e promovem o trabalho conjunto em espaços relevantes.

“A indústria de turismo não nos deu espaço; nós é que conquistámos este espaço.”

por BRENDA HOLDER, PROPRIETÁRIA E OPERADORA DA MAHIKAN TRAILS

“O desenvolvimento destas ligações demora tempo”, diz David Robinson, vice-presidente de estratégias e relações da Destination Canada. “A nossa parceria [com a ITAC] ajudou realmente a aumentar a nossa compreensão sobre o turismo indígena. Dependemos das orientações deles.”

Agentes de mudança

As operadoras independentes, como Tracey Klettl, irmã de Brenda e proprietária da empresa de turismo Painted Warriors, esperam educar os viajantes e ajudá-los a preencher determinadas lacunas no conhecimento que têm sobre as comunidades indígenas.

“Muito do turismo indígena costumava ser promovido ou conduzido por operadores não indígenas, que geralmente transmitiam a mensagem errada”, diz Tracey. “Os programas geridos por pessoas não indígenas [até há dez anos atrás] retratavam as mulheres indígenas como servas, mas [nas nossas culturas] não é bem assim.”

“Nas nossas culturas as mulheres indígenas são tradicionalmente muito respeitadas”, acrescenta Tracey. “Mas quando as mulheres indígenas se tornaram mais integradas na sociedade ocidental, os colonizadores assumiram que tinham um papel subserviente aos homens. A indústria de turismo tradicional só compreende este tipo de papel para as mulheres.”

Esquerda: Um par de chinelos tradicionais Dene – feito de couro de alce, pele de castor e adornado com missangas coloridas – estão em exposição para os turistas em Wekweeti, nos Territórios do Noroeste.
Direita: Estas flores decorativas de tecido são posteriormente costuradas em mocassins, luvas e casacos.

Fotografia de PAT KANE

Esta representação das mulheres indígenas – dóceis e abnegadas aos trabalhos caseiros – transformou-se num espetáculo no festival Stampede de Calgary, um rodeio anual que atrai milhares de visitantes por ano. Desde 1912, o festival ergue uma aldeia indígena nos seus terrenos, onde as atividades domésticas das mulheres indígenas são exibidas para todos verem – costurar, cozinhar, limpar e não só. No entanto, em 2018, o festival foi rebatizado para Elbow River Camp. O rodeio também deixou de coroar uma Princesa Índia para eleger anualmente a Princesa das Primeiras Nações.

Tracey espera que o seu trabalho, juntamente com o das outras instrutoras dos povos Métis e das Primeiras Nações contratadas pela sua empresa, desafiem todos os estereótipos que os viajantes possam ter sobre as mulheres indígenas, ensinando-lhes aptidões tradicionais de sobrevivência como caçar com arco e flecha e passear a cavalo – atividades que não estão de acordo com os preconceitos de género.

“Para mim, é importante que os visitantes compreendam que estas práticas são essenciais para o nosso estilo de vida”, diz Tracey. “Para nós, a caça é muito espiritual – há muito respeito pelos animais enquanto seres vivos.”

Tracey acredita que a reeducação dos viajantes é o primeiro passo para os ajudar a ficar mais sensibilizados para o ritmo alarmante com que as mulheres da sua comunidade ainda estão a morrer e a desaparecer. Nas últimas três décadas, desapareceram mais de 4000 mulheres indígenas. Apesar de ter sido aberta uma investigação nacional durante três anos, o governo canadiano foi lento a agir e as mulheres indígenas ainda continuam a ter 12 vezes mais probabilidades de desaparecer ou morrer do que as outras mulheres no Canadá.

“Há uma narrativa fomentada pela sociedade canadiana de que as mulheres indígenas são dóceis, e isso provoca muitos mal-entendidos em torno desta crise”, diz Tracey. “Estamos a perder as nossas vozes, e as nossas comunidades só querem ser ouvidas.”

Cheyenne Hackett, descendente da Primeira Nação Homalco e guia na Klahoose Coastal Adventures, na Colúmbia Britânica, canta sempre a Música das Mulheres Guerreiras antes de cada passeio. Esta oração assombrosa, cantada ao ritmo lento dos seus tambores, é dedicada aos milhares de mulheres que desapareceram.

Mulheres como Tracey Klettl e Cheyenne Hackett trabalham não só para promover a compreensão e sensibilização em torno das suas culturas, como também usam as suas visitas guiadas para darem voz às mulheres que já partiram.

Nos últimos anos, a comunidade Deline perto das margens do Lago Great Bear, nos Territórios do Noroeste, investiu em iniciativas de turismo indígena para ajudar a fortalecer a economia local e a criar novos empregos.

Fotografia de Pat Kane

Embora a procura por turismo indígena continue a aumentar, a crise de coronavírus tem sido um obstáculo para os operadores independentes – mas muitos estão a regressar aos passeios com cautela e a realizar programas educacionais para os visitantes, maioritariamente canadianos. A aprendizagem cultural, de acordo com Tracey, flui em ambos os sentidos.

“Gostamos de dizer aos nossos visitantes que eles vão sair daqui a olhar para o mundo de uma maneira diferente”, diz Tracey. “Sei que, quando eles partem, nós também vemos o mundo de maneira diferente.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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