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Baleias, Mitos e Lagos Árticos: Explore a Nova Road Trip da Islândia

Uma viagem épica pelo norte menos turístico desta nação revela uma natureza de tirar o fôlego e batalhas históricas em terra e no mar.

Por Amelia Duggan
Publicado 27/01/2021, 15:13
Paisagens dramáticas cativam os visitantes na Arctic Coast Way, um roteiro automóvel inaugurado em 2019 no ...

Paisagens dramáticas cativam os visitantes na Arctic Coast Way, um roteiro automóvel inaugurado em 2019 no norte da Islândia.

Fotografia de Filippo Bianchi, Getty Images

A Islândia está repleta de natureza inóspita e contos fantásticos – história, lendas e folclore que cobrem esta terra de forma tão densa quanto os seus nevões de inverno. Até recentemente, a maioria dos viajantes limitava-se a procurar os encantos naturais e culturais desta nação insular ao longo da Ring Road, a famosa autoestrada de 1.300 quilómetros que percorre todo o país. Em tempos normais, a autoestrada mais famosa da Islândia oferece muitas emoções – vulcões, géiseres – mas também está apinhada de turistas.

Na recém-inaugurada Arctic Coast Way as coisas são diferentes. Criada em 2019, esta rota liga várias estradas já existentes no norte acidentado da Islândia para criar uma road trip épica. Por enquanto, este ainda é um roteiro pouco visitado com penhascos de basalto de outro mundo, praias de seixos com focas a descansar e solidão plena.

De maio a setembro, podemos alugar um carro e passar vários dias a percorrer esta rota de 900 quilómetros de terra e asfalto. Também é possível fazer este percurso de inverno, mas a queda de neve e outros contratempos relacionados com o clima podem obrigar a alguns desvios.

A Arctic Coast Way começa na aldeia de Hvammstangi e segue o litoral recortado no norte da Islândia ao longo de sete penínsulas – cada uma com as suas próprias maravilhas geológicas, histórias e vida selvagem – terminando na aldeia de Bakkafjörður. As placas de sinalização indicam o trajeto: um símbolo que representa o infinito sobre um esboço do território islandês. Seguem-se alguns dos destaques desta viagem, desde observação de baleias à versão nórdica de Stonehenge. A maioria dos lugares permanece aberta; mas convém ligar antecipadamente para verificar os encerramentos relacionados com a COVID-19.

Belezas desconhecidas e batalhas históricas

O turismo ainda não chegou a estas regiões, e é obrigatório um veículo com tração às quatro rodas para percorrer os trilhos de cascalho. Hvammstangi pode estar a apenas meio dia de carro de Reiquiavique, mas estas costas solitárias parecem estar a um milhão de quilómetros da capital e dos pontos geológicos mais populares no sul.

“O norte não vai mudar; nunca será Reiquiavique”, diz Dagný Marín Sigmarsdóttir,  proprietária do Museu de Profecias na vila de Skagaströnd, cerca de 80 quilómetros a nordeste de Hvammstangi. O museu conta a história de uma vidente lendária do século X, e a própria Dagný Sigmarsdóttir pode ler a nossa sina. “Adoraríamos ter mais viajantes por aqui para partilharmos a beleza”, diz Dagný.

Em Sauðárkrókur, vamos ouvir uma mensagem semelhante. Depois de contornarmos as primeiras duas penínsulas – Vatnsnes e Skagi – chegamos a uma pitoresca cidade portuária no dramático Fiorde Skaga. Comparada com muitas das povoações na Arctic Coast Way, esta cidade é relativamente cosmopolita: tem um bar que está aberto até tarde e um restaurante que serve iguarias do norte, incluindo potro curado e ovelha defumada.

O Hotel Tindastóll é o hotel mais antigo da Islândia, com escadarias estreitas, vigas tortas no teto e bancos junto à lareira com mantas de pele. As fotografias emolduradas da antiga hóspede Marlene Dietrich adicionam glamour a alguns dos quartos.

Siglufjörður, apelidada de Sigló, é uma vila piscatória na Arctic Coast Way muito popular entre os turistas. A vila tem spas de fontes termais, um museu dedicado à cultura marítima local e vários restaurantes.

 

Fotografia de Christophe Vander Eecken, Laif/​Redux

Áskell Heiðar Ásgeirson também quer que mais visitantes façam uma pausa na sua cidade natal. “Os viajantes passam por Sauðárkrókur na Ring Road, ou param aqui durante breves momentos para almoçar. Nós gostávamos que eles ficassem aqui – nem que fosse para passar uma noite.”

Foi por isso que Áskell Ásgeirson criou a 1238: A Batalha da Islândia, uma exposição interativa que usa tecnologia de realidade virtual e realidade aumentada para nos colocar numa era repleta de ação do país – o período Sturlung. “Houve tantos assassinatos e traições dentro dos clãs familiares; é uma Guerra dos Tronos da vida real”, diz Áskell.

A batalha homónima do século XIII, talvez a mais famosa da história da Islândia, aconteceu não muito longe desta exposição, e a luta terminou com a ilha a ceder a sua independência à coroa norueguesa. A Islândia só retomaria novamente a sua soberania em 1944.

Áskell equipa os hóspedes com óculos, luvas e coletes de realidade virtual antes de os ligar ao passado, onde “lutam” ao lado do lendário líder do clã Sturla Sighvatsson com pedras e lanças virtuais. “Podemos não ter as maiores quedas de água ou os glaciares mais dramáticos, mas temos as nossas histórias”, diz Áskell. “Esse é o nosso grande tesouro.”

Uma estrada serpenteia por um fiorde perto da vila de Siglufjörður, na Arctic Coast Way. Esta rota de vários dias pelo norte da Islândia inclui estradas alcatroadas e trilhos de terra batida.

Fotografia de Feifei Cui-Paoluzzo, Getty Images

Uma cidade fantasma renascida

A beleza elementar da península seguinte, Tröllaskagi, acaba por se revelar um teste para as nossas capacidades de condução. As curvas na estrada têm vistas tão vastas e deslumbrantes que nos distraem. A Arctic Coast Way segue através de vales pontilhados com pastagens e lagos varridos pelo vento, incluindo terras altas tempestuosas com vista para o oceano. Aqui, as rochas cobertas de musgo parecem tão quadradas e empilhadas que podiam ser as ruínas de uma cidadela.

Na ponta de uma língua de terra, acedida através de uma série de estreitos túneis montanhosos, fica o porto de pesca de Siglufjörður. Apelidada de Sigló, esta vila piscatória parece ser uma escapadela de fim de semana muito promissora. As casas de verão com telhados inclinados à moda antiga erguem-se no sopé das colinas e têm vista para o fiorde, e a doca é ladeada por dois restaurantes elegantes e um hotel muito charmoso.

Ali perto, uma antiga fábrica de peixe foi convertida em cervejaria artesanal, a Segull 67, e as ruas estão decoradas com murais. Agora, parece um postal maravilhoso, mas há algumas décadas, antes dos investimentos recentes, Sigló era uma vila fantasma que ficou deserta após a próspera pesca de arenque ter terminado em finais da década de 1960.

Em 1935, as mulheres enchiam barris com arenque, sal e folhas de louro na vila piscatória de Siglufjörður, na costa norte da Islândia. A pesca em excesso arruinou a indústria na década de 1970, mas hoje a vila é um destino popular de fim de semana com uma cervejaria artesanal e um museu dedicado à história local.

Fotografia de Herbert Felton, Hulton Archive/Getty Images

“Depois de 1969, ninguém regressou. A cidade simplesmente apodreceu”, diz a guia turística Edda Björk Jónsdóttir. Edda leva os visitantes a conhecer o Museu Herring Era, que mergulha na história marítima da Islândia. “Renovámos estas casas à beira-mar e recolhemos estes artefactos para captar as histórias humanas de um período incrível da nossa história”, diz Edda.

A pesca de arenque em Sigló começou no início do século XX. Nessa época, o fiorde abrigava apenas um punhado de casas rústicas de turfa, mas depressa surgiu um porto e uma vila para servir a nova e lucrativa indústria piscatória. No seu auge, Sigló abrigava 12.000 trabalhadores durante o verão. “Tinha uma rua com cinema, uma fábrica de doces e bailes chiques. Vieram homens e mulheres de toda a Islândia para fazer fortuna”, diz Edda. “Depois, tão rápido quanto começou, acabou. O arenque foi pescado em excesso.”

No final da década de 1960, já não havia nada para pescar. Esse problema deu origem à Guerra do Bacalhau na década de 1970, na qual os pescadores islandeses entraram em conflito com os arrastões britânicos, enquanto pescavam mais longe da costa para encher as redes.

Ondas e baleias perto do Círculo Polar Ártico

Navegar pela água oferece mais detalhes sobre os ecossistemas marinhos da Islândia. A bordo de uma tradicional escuna de madeira, a partir da aconchegante cidade de Húsavík, podemos seguir para norte, atravessando a Skjálfandi, que significa “Baía Instável”.

Esquerda: Uma baleia-jubarte surge perto de um barco de observação de vida selvagem na costa norte da Islândia.
Direita: A tranquila cidade portuária de Húsavík é um centro de observação de baleias na Islândia.

Fotografia de FRANCESCO RICCARDO IACOMINO, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E ANDREW DEER, ALAMY STOCK PHOTO (DIREITA)

A maioria das pessoas pensa que o nome Skjálfandi vem da agitação da água, mas na verdade deve-se ao facto de a região ter atividade sísmica. Conforme a escuna se afasta da costa, a igreja da cidade em forma de uma caixa de chocolates, as piscinas geotermais no topo do penhasco e os estábulos de equitação transformam-se numa névoa esbranquiçada. A baía está ladeada por montanhas. À nossa frente – a apenas 50 quilómetros a norte da abertura da “Baía Instável” – fica o Círculo Polar Ártico.

Húsavík autodenomina-se “a capital de observação de baleias da Europa”, pelo que os passageiros devem estar atentos a sinais reveladores: um jorrar de água ou uma cauda, ou um bando de gaivotas a sobrevoar as ondas. Cerca de onze espécies de baleias visitam esta área para se alimentar, incluindo o maior animal do planeta: a baleia-azul. Também podemos avistar botos e aves marinhas, como papagaios-do-mar e tordas-mergulheiras.

Ainda assim, a Islândia é um dos três países do mundo que ainda permitem a caça de baleias nas suas águas – um revés surpreendente numa agenda política amplamente progressista. “Em Húsavík, pelo menos, não há dúvidas sobre isso: as baleias não estão no menu”, diz o biólogo marinho Christian Schmidt, que trabalha para a North Sailing, a organização de observação de baleias mais antiga de Húsavík. “Nem papagaios-do-mar. Tenho a sensação que só os turistas é que comem isso; ninguém na Islândia quer. Talvez pudéssemos fazer uma mudança se os turistas não quisessem provar.”

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Lagos interiores e banhos a vapor

Também vale a pena fazer um desvio da majestosidade da Arctic Coast Way para visitar uma das grandes atrações do interior: o lago Mývatn. A tranquilidade deste lago e o pântano repleto de aves que o rodeiam salientam as forças subterrâneas aqui em ação. O lago de 36 quilómetros quadrados fica no topo da Dorsal do Atlântico Norte – o ponto de encontro entre as placas tectónicas da América do Norte e Eurásia.

Circulando o lago, passamos por locais de nidificação de aves e ilhas espalhadas  junto à sua margem leste. Nesse local, encontramos uma série de curiosidades geológicas – e, quiçá, outros viajantes. Hverfjall, uma cratera imponente, domina uma paisagem de manchas de lama, fumarolas sulfurosas, crateras afundadas e campos de lava esculturais. Uma caminhada por este país das maravilhas oferece um vislumbre das violentas forças que se agitam no centro do nosso planeta.

A queda de água Dettifoss, uma das mais poderosas da Europa, está localizada no interior a partir da Arctic Coast Way. A água em Dettifoss corre com uma taxa de 193.000 litros por segundo.

Fotografia de Max Galli, Laif/Redux

Nesta região também encontramos os Banhos Naturais de Mývatn, a resposta do norte à eterna Lagoa Azul de Reiquiavique. Mergulhar numa “panela quente” é um passatempo nacional. Os acessórios recomendados incluem uma caneca de cerveja fresca e um chapéu de lã.

A água leitosa tem uma temperatura gloriosamente elevada. O que se deve fazer é encontrar uma saliência – sedosa com depósitos minerais acumulados – e assistir ao vento a chicotear o vapor ascendente, fazendo com que a paisagem arrebatadora se altere.

Elfos e vistas incríveis no extremo norte

É um passeio espetacular de meio dia de carro desde região de Mývatn até à Arctic Coast Way, com as suas estradas de terra, faróis castigados pelo tempo e oceano iridescente.

No caminho para as penínsulas escassamente povoadas do nordeste, há duas paragens muito agradáveis: a queda de água mais poderosa da Europa, a Dettifoss, onde os arco-íris contornam a forte rebentação, e o desfiladeiro de Ásbyrgi, com os seus trilhos arborizados e lago em tons de esmeralda.

De acordo com mitos antigos, a ravina de Ásbyrgi em forma de ferradura foi criada pelo casco do enorme garanhão de oito patas de Oðin (ou o deus nórdico Odin). Ásbyrgi foi mais tarde considerada a capital dos Huldufólk – o povo oculto, ou elfos. As lendas dizem que os elfos se parecem muito com os humanos, mas são mais altos, mais bonitos e usam indumentárias finas.

O Arctic Henge é um enorme relógio solar, ainda em construção, inspirado em Stonehenge de Inglaterra. Este relógio está localizado no topo de uma colina perto da vila de Raufarhöfn.

Fotografia de PETER SPELLERBERG, Alamy Stock Photo

De regresso à estrada costeira, contornando a ponta da Península Melrakkaslétta, estamos a cerca de um quilómetro a sul do Círculo Polar Ártico. Aqui, o oceano desaparece serenamente em tons de azul profundo e cinza no horizonte. No interior, os riachos e charnecas ganham contornos fantasmagóricos devido aos matagais em tons de geada e profusões de algodoeiro. Parece o fim do mundo.

São poucas as pessoas que vivem em Melrakkaslétta – a maioria concentra-se na vila de Raufarhöfn ou ali perto. É um lugar onde poucos viajantes se aventuram. Mas isso não impediu os seus habitantes de sonharem com uma atração ambiciosa no topo de uma colina: um monumental relógio solar construído à imagem de Stonehenge.

Neste momento, o projeto ainda está a meio, mas já existem cinco portais que emolduram a paisagem e evocam as raízes pagãs do país. Quando estiver concluído, espera-se que o Arctic Henge seja um local de peregrinação para quem quer desfrutar da aurora boreal e para a realização de festivais durante os solstícios.

A arquitetura final do projeto também evoca a mitologia nórdica em torno do nascimento e morte do cosmos, de acordo com o poema medieval Völuspá.

O norte, ao que parece, está sempre a encontrar novas e espetaculares formas de contar as suas histórias antigas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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