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A cidade perdida de Tamão está escondida à vista de todos

O misterioso precursor da cidade turística de Macau era uma mistura entre as culturas europeia e chinesa.

Por Ronan O’Connell
Publicado 22/03/2021, 08:35 WET
teleférico Ngong Ping

Em Hong Kong, o teleférico Ngong Ping oferece aos seus passageiros vistas de um trecho do Mar do Sul da China. Acredita-se que algures ao longo desta costa está enterrada a povoação de Tamão do século XVI.

Fotografia de Billy H.C. Kwok, Bloomberg/Getty Images

No centro de Macau está uma estátua de pedra de um explorador português. A sua dimensão e posição de destaque dão a impressão de que Jorge Álvares foi uma figura marcante na história desta cidade-estado conhecida por “Las Vegas da Ásia”.

Na realidade, Jorge Álvares é tão enigmático que a sua aparência nesta estátua é baseada em suposições e, passados 500 anos após a sua morte, ninguém consegue apontar exatamente qual é a localização da sua maior conquista – o primeiro assentamento europeu na China. Os historiadores nem sequer sabem ao certo como é que Jorge Álvares morreu, mas acreditam que a sua morte aconteceu num lugar importante, mas elusivo, chamado Tamão.

Perto da base desta estátua, num pequeno espaço verde denominado Praça Jorge Álvares, percebo que a imagem está a ser ignorada. Em vez disso, habitantes e turistas posam para fotografias com arranha-céus ou com um monumento de uma cruz cristã que destaca a influência europeia em Macau, que foi uma colónia portuguesa de 1557 a 1999.

No seu livro de 1955, China 1513: Viagem de Jorge Álvares à China, o autor José Maria Braga, um professor luso-chinês, escreveu que até esta estátua ser erguida na década de 1950, Álvares tinha sido esquecido durante centenas de anos.

Mesmo agora, com uma praça homónima, Álvares permanece desconhecido para a maioria das pessoas em Macau, de acordo com Wu Zhiliang, presidente da Fundação Macau, uma entidade governamental que protege a história e cultura de Macau. “Para a geração mais jovem, Álvares pode ser identificado como um navegador português que veio para a China”, diz Wu.

Estes alunos aprendem que, sob o domínio português, Macau tornou-se numa cidade rica e multicultural que fundiu as culturas europeia e chinesa e, por fim, cresceu com a receita dos casinos. No entanto, esta cidade de Macau próspera e diversificada podia nunca ter existido se não fosse Tamão.

O Lisboa é um dos 41 casinos de Macau, aqui fotografado em dezembro de 2019, antes de as autoridades encerrarem temporariamente os estabelecimentos de jogo devido à pandemia.

Fotografia de Lam Yik Fei, The New York Times/Redux

Esta enigmática povoação portuguesa, que durou oito anos, foi a precursora de Macau, segundo Jorge Flores, do Instituto Universitário Europeu, especialista neste período da história. “Não existe uma ligação direta [entre Tamão e Macau]”, diz Jorge Flores, “mas Tamão contribuiu para ensinar aos portugueses como funcionava a China, o Delta do Rio das Pérolas e o Mar do Sul da China”.

Escondida à vista de todos

Mas onde era exatamente Tamão? Jorge Álvares assinalou o nascimento de Tamão em 1513 com a plantação de um padrão algures entre Hong Kong e Macau. Estes pilares de pedra, encimados por uma cruz cristã, eram erguidos pelos exploradores portugueses para reivindicar terras descobertas.

Os historiadores chineses, macaenses e portugueses há muito que discordam sobre a localização desse marcador. Alguns argumentam que Tamão era onde atualmente fica Tuen Mun, no extremo oeste de Hong Kong. Outros sugerem a Ilha Lantau ou a Ilha Chek Lap Kok.

Mas a verdade pode estar escondida debaixo de um dos lugares mais movimentados do planeta. Jorge Álvares provavelmente plantou o referido padrão em terras agora ocupadas pelo Aeroporto Internacional de Hong Kong. Esta é a opinião de um dos poucos especialistas em Tamão, Jin Guo Ping, do Centro de Macaologia da Universidade de Jinan, na China.

“Chek Lap Kok é a referência mais possível [para Tamão] devido ao seu pequeno tamanho e relativa facilidade de observação de objetos à distância”, diz Jin. “Dada a sua vantagem em termos de defesa, era um local relativamente ideal para a ancoragem de embarcações.”

Contudo, o autor José Maria Braga pensava que Tamão se encontrava na Ilha de Lingding, a cerca de 13 quilómetros a noroeste do aeroporto de Hong Kong. Jorge Flores é menos específico, dizendo apenas que “provavelmente estava localizado na foz do Delta do Rio das Pérolas, a norte da Ilha de Lantau”.

Parte do que torna Tamão tão intrigante é a forma como esta cidade perdida não está escondida por uma selva remota ou soterrada debaixo dos escombros de uma avalanche na encosta de uma montanha. Todos os anos, milhões de turistas sobrevoam Tamão ou passam pela região nos ferries de passageiros que ligam Macau, Hong Kong e a China. Porém, esta cidade perdida não parece estar perto de ser encontrada.

Os visitantes caminham pela Ilha de Lantau, a oeste de Hong Kong. Os especialistas acreditam que esta ilha contém evidências da cidade perdida de Tamão.

Fotografia de Fabian Weiss, laif/Redux

Tanto Jorge Flores como Jin Guo Ping dizem não ter conhecimento de quaisquer evidências recentes sobre a localização de Tamão, ou de quaisquer investigações arqueológicas recentes. Em vez disso, a caça a Tamão tem sido conduzida por historiadores. Estes investigadores escavam um tipo diferente de poeira à procura de provas – em manuscritos, mapas e diários antigos.

“São estudos que consistem na compilação e interpretação minuciosa dos materiais escritos e visuais disponíveis daquele período para tentar chegar a algumas conclusões”, diz Jorge Flores sobre a exploração académica de Tamão. “Ainda assim, as evidências históricas são frequentemente escassas e fragmentadas nestes casos. Os estudiosos geralmente têm apenas alguns sinais e pistas para descodificar, daí a falta de consenso.”

A viagem começa

Jorge Álvares enfrentou uma escassez de informação semelhante quando zarpou para a China. Os portugueses estavam na Ásia há apenas 15 anos, começando com o desembarque de Vasco da Gama na Índia em 1498. Enquanto exploravam partes do Sul Asiático – recolhendo especiarias na Indonésia, seda na Tailândia e marfim em Myanmar – o norte do continente permanecia em grande parte em branco nos seus mapas e cadernos de anotações.

Os portugueses não sabiam o que esperar da China. Não havia forma de saber que estavam entre uma das civilizações mais avançadas do mundo, com cidades modernas, uma arte sofisticada, um comércio próspero e uma vasta infraestrutura. Contudo, os portugueses perceberam que a China era um local de grandes oportunidades comerciais. Assim, quando os exploradores portugueses tomaram a cidade malaia de Malaca em 1511, o rei D. Manuel I encarregou-os de interrogar os habitantes locais sobre tudo o que sabiam sobre a China.

Quando caminhei pela primeira vez pelas ruas desgastadas de Malaca, passando por mesquitas malaias, igrejas portuguesas e templos chineses, não sabia o poder que esta cidade portuária já tinha exercido. Os portugueses transformaram Malaca no principal porto comercial do Sudeste Asiático. E também se tornou no ponto de partida para a primeira viagem histórica de Jorge Álvares à China em 1513.

Quando a nau de Jorge Álvares chegou às águas chinesas, perto de Macau, Álvares descobriu que os visitantes não eram permitidos no continente chinês sem a permissão do imperador Ming Zhengde. Os comerciantes estrangeiros podiam negociar com os chineses, mas tinham de operar a partir de uma das ilhas na foz do Rio das Pérolas, que fluía através de Cantão, hoje conhecida por Guangzhou, e desaguava no Mar do Sul da China, entre Macau e Hong Kong.

Álvares instalou-se em Tamão. O comércio com os chineses intensificou-se e tornou-se muito lucrativo. Os portugueses vendiam vinho e especiarias, enquanto compravam porcelana, pérolas, ruibarbo e brocado.

Álvares não se limitou a colher os benefícios destas trocas, também recolheu informações valiosas. Nas suas conversas com comerciantes de Cantão, da Tailândia, da Indonésia e da Malásia, Álvares aprendeu sobre a cultura, religião, finanças e forças militares da China, de acordo com o livro de José Maria Braga. Para o rei D. Manuel I, averiguar os factos era tão importante como estabelecer acordos comerciais com os chineses. E também era crucial manter a paz. Portugal não queria uma guerra contra o poderoso Império Ming.

Tamão acaba em sangue

Todos os anos em agosto, uma paleta de cores brilhantes é refletida no Mar do Sul da China. Este espetáculo é criado por uma das atrações turísticas de Macau, o Concurso Internacional de Fogo de Artifício de Macau, que é realizado anualmente. Há exatamente 500 anos, as águas perto de Macau foram o palco de um espetáculo de explosivos cujo destino não era entreter, mas sim mutilar. Tratava-se da Batalha de Tamão.

Embora Álvares fosse geralmente cauteloso e cortês nas suas negociações com os chineses, alguns dos seus conterrâneos optaram por trilhos mais traiçoeiros. Seis anos depois de Tamão ter sido estabelecida, com as relações luso-chinesas em bom estado, o capitão português Simão de Andrade percorreu o Mar do Sul da China como se fosse um tufão.

Simão de Andrade rapidamente irritou os chineses. Primeiro, recusou-se a pagar impostos, depois agrediu um funcionário chinês e, por fim, criou o que Jorge Flores descreve como uma “presença militarizada e disruptiva” em Tamão. Foi aí que começou a construir uma fortaleza. Ao fazê-lo, Simão de Andrade deu à China a impressão de que os portugueses estavam a passar de comerciantes amigáveis para ocupantes agressivos.

Este tipo de desrespeito foi reforçado em 1521, com a recusa de uma frota portuguesa em interromper temporariamente o comércio em território chinês, apesar da morte do imperador Zhengde. As embarcações navais chinesas rapidamente invadiram Tamão e, após uma batalha mortal, os portugueses que sobreviveram acabaram por fugir. A cidade foi abandonada. A China suspendeu o comércio marítimo. Os portugueses foram forçados a reagrupar em Malaca e demorariam décadas a reconstruir a confiança com a China e obter permissão para construir um novo assentamento em Macau.

Seguir o trilho fantasmagórico de Jorge Álvares

Se um turista quiser seguir os passos desta história notável, as opções são limitadas. É possível ver a estátua de Jorge Álvares ou visitar o Museu de Macau, onde Álvares é brevemente mencionado. O que os visitantes ganham neste último local, sediado no forte português do Monte, com 400 anos, é uma vista ampla do legado de Álvares.

Neste forte, consegui ver os enormes casinos da Ilha da Taipa, em Macau. Diretamente por baixo de mim, na Península de Macau, estão as inúmeras estruturas antigas portuguesas que, coletivamente, ajudam a compor o local considerado Património Mundial da UNESCO, ou Centro Histórico de Macau.

Portugal controlou Macau durante 442 anos, até 1999. As influências portuguesas refletem-se nos inúmeros edifícios coloniais que ficam no centro histórico da cidade.

Fotografia de Billy H.C. Kwok, Bloomberg/Getty Images

Nesta zona vemos um aglomerado de belas praças portuguesas, um teatro europeu do século XIX, dois fortes portugueses, muitas mansões coloniais enormes e várias igrejas católicas desgastadas pelo tempo. A forma elegante como estas estruturas se misturam com os templos e casas chinesas torna a cidade velha de Macau numa delícia para percorrer a pé.

Álvares não viveu tempo suficiente para testemunhar os frutos do seu trabalho. Não conseguiu testemunhar o nascimento de Macau, ou o prosperar de uma relação de séculos entre Portugal e a China. Com o passar das gerações e a expansão de Macau, o papel de Álvares foi reduzido a uma nota de rodapé. Álvares tornou-se pouco mais do que o tema de uma estátua em Macau, algo que a maioria das pessoas ignora. Apesar do 500º aniversário da sua morte que acontece este ano, não encontrei quaisquer eventos comemorativos programados, quer seja em Portugal ou em Macau.

No entanto, há uma coisa que não se pode retirar a Álvares, que permanece na posse de um segredo extraordinário. Essa informação valiosa está enterrada ao seu lado. Em 1521, Álvares foi enterrado ao lado da placa portuguesa erguida por si em Tamão oito anos antes.

O mistério daquela povoação, onde os portugueses interagiram pela primeira vez com a China, não está perto de ser desvendado. O que é evidente é que Tamão, e o homem que a fundou, deu início a uma cadeia de eventos que acabou por dar origem a Macau, um híbrido europeu-chinês que é uma das cidades mais intrigantes do mundo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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