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Como viajar pelo mundo – através da rádio

Este website permite-lhe ouvir os sons de lugares distantes, deste a tradicional guitarra rubab do Afeganistão ao pop latino da Argentina.

Por Jordan Salama
Publicado 26/10/2021, 11:51
Um DJ atua no Radio Radio, um clube em Amsterdão que agora também é uma estação ...

Um DJ atua no Radio Radio, um clube em Amsterdão que agora também é uma estação de rádio online. A Radio Garden liga os ouvintes a milhares de estações online que emitem ao vivo para o mundo inteiro.

Fotografia de Joris van Gennip, Redux

Com este método de viajar já não acordo em locais longe de casa, cansado de uma noite inteira a rabiscar histórias que ouvi no dia anterior. Atravessar fronteiras para visitar familiares que vivem pelos quatro cantos do mundo também não é fácil.

As coisas agora são diferentes e as minhas viagens começam da seguinte forma: sento-me à mesa de jantar, geralmente de manhã cedo ou ao final da noite, quando ninguém está acordado, com uma chávena de chá de erva-mate e ouço a rádio. A estação de rádio vem sempre de qualquer lugar que não seja aqui em Nova Iorque e, na maioria das vezes, vem de um reino mágico chamado Radio Garden.

Este website gratuito seria quase indistinguível do Google Earth se não fosse pelos milhares de pequenos pontos verdes que pontilham o seu globo digital. Cada um destes pontos é uma estação de rádio local que transmite ao vivo.

Se movermos o cursor do rato podemos acabar em Bujumbura, no Burundi; em Dibrugarh, na Índia; na orla do Ártico da Noruega; ou na orla do Pacífico Sul. Independentemente de ser uma emissora grande ou pequena – e do quão urbana ou remota seja a sua localização – se essa estação emitir um sinal online, pode aparecer no website e nós podemos ouvi-la.

O metalofone costuma fazer parte da música gamelão tradicional na ilha indonésia de Bali, onde várias estações de rádio transmitem as suas emissões online.

Fotografia de DeGe Photo, Alamy Stock Photo

Desde o início da pandemia de COVID-19 que todos nós tentamos encontrar novas formas de interagir com o mundo durante os longos períodos de afastamento social. Um grupo no Facebook chamado “Vista da Minha Janela”, por exemplo, no qual os membros publicam fotografias tiradas em casa por todo o planeta, tem mais de dois milhões de membros. O interesse nas viagens de realidade virtual também aumentou, assim como as formas mais antiquadas de comunicação, como escrever cartas, sobretudo durante os primeiros confinamentos.

Mas não há nada mais simples ou mais íntimo do que ouvir rádio ao vivo. Durante a pandemia, a Radio Garden, que agora também está disponível em aplicação, começou a aumentar de popularidade, chegando por vezes a atrair até 15 milhões de ouvintes mensais.

“Reparámos num aumento geral no número de visitantes desde que começou a pandemia e também em alguns picos nos países que estão em confinamento”, diz Jonathan Puckey, fundador do website. “Recebemos muitos emails de pessoas que estão fechadas em casa a expressar a sua gratidão pelo serviço.”

Escutar lugares distantes

A iniciativa Radio Garden começou como um projeto no Instituto de Som e Visão dos Países Baixos, onde designers e programadores sobrepuseram emissões online de rádios sobre a sua geolocalização num mapa 3D do planeta.

Isto resulta em viagens bastante diferentes. Ao escutar as emissões de países como a Colômbia, tive recordações de viagens anteriores – música de acordeão romântica que me fez lembrar as viagens atribuladas de autocarro pelas estradas rurais da região que deu origem aos géneros musicais vallenato e cumbia.

Desde que mostrei pela primeira vez aos meus avós que eles podiam ouvir rádios argentinas – onde a minha abuela e o meu abuelo nasceram, e onde ainda temos família – sem sair da sua mesa de cozinha nos EUA, não há um dia em que Buenos Aires não nos envie ondas de rádio repletas de nostalgia.

Os nossos pensamentos transformam-se em memórias vivas de dias mais fáceis, recordando momentos em que o pop latino enchia as praças lotadas de gente nas tardes e noites quentes, enquanto passeávamos pelas ruas de calçada dos bairros onde nasceu o tango.

“Por vezes ouço tangos que já não ouvia há muito, muito tempo”, diz a minha avó. “Isso deixa-me feliz. Eu acompanho as músicas a cantar e as letras acabam simplesmente por regressar. Ouvir estas músicas faz-me lembrar quando era criança.”

“Ao escutar as emissões de países como a Colômbia, tive recordações de viagens anteriores – música de acordeão romântica que me fez lembrar as viagens atribuladas de autocarro pelas estradas rurais da região que deu origem aos géneros musicais vallenato e cumbia. ”

De facto, a rádio é um lembrete reconfortante dos sons que moldam os nossos mundos, as bandas sonoras das nossas vidas, independentemente do local onde vivemos. Talvez o aspeto mais fascinante do website da Radio Garden seja a sua capacidade de nos transportar para os lugares mais distantes, permitindo-nos ouvir comunidades que sempre quisemos visitar, mas que, por qualquer motivo, nunca o conseguimos fazer.

Já adormeci ao som da tradicional guitarra rubab e da música de flauta de Herat, no Afeganistão, na antiga Rota da Seda. Já pratiquei o meu árabe com os noticiários da Rádio Damasco; descobri música eletrónica de dança no Irão e Uzbequistão; e segui um trilho de pontos musicais nos cantos mais remotos da Sibéria russa.

Fomentar as ligações globais

A pergunta mais interessante que gosto de fazer às pessoas é qual é a zona do globo que querem visitar primeiro na Radio Garden. Percebi que cada pessoa parece ter os seus próprios critérios de escolha, com base nos idiomas que está a tentar aprender, nos locais que já visitou ou nos nomes de cidades sobre os quais ouviu falar recentemente na televisão.

Para mim, por mais emocionante que seja ouvir música de Ouagadougou, de Ulaanbaatar ou dos Açores, o essencial é a história pessoal: nasci e cresci em Nova Iorque, mas a minha família vem de todo o lado – da América Latina, do Médio Oriente e de todos os locais que ficam pelo meio. Os meus antepassados eram mercadores que não se limitavam a comercializar mercadorias, também trocavam culturas. Agora, devido às suas andanças, pedaços de meia dúzia de línguas ainda ecoam sobre as nossas mesas de jantar, e sentimos uma ligação profunda com um mosaico de lugares e tradições.

Por vezes, dizem-nos que as nossas culturas (árabe, judaica, latina) estão em conflito e que alguns dos nossos países (Síria, Iraque) são difíceis de visitar, mas com a Radio Garden a minha família pode atravessar o espaço e o tempo sem preocupações. Abdel Wahab e o seu cordofone oud preenchem os sons da manhã; e Aníbal Troilo e o seu melancólico acordeão bandoneon enchem a noite.

Depois de vários meses a viajar pela rádio, percebi que há muitas coisas que podem ser transmitidas pelo som, independentemente do idioma – desde o ritmo de uma música em particular, o tom de uma conversa apaixonada ou os apelos mais fervorosos para a oração. Devido a tudo isto, não consigo deixar de pensar que uma coisa como a Radio Garden tem o potencial de nos aproximar um pouco mais enquanto comunidade global.

Portanto, talvez seja apropriado que não existam fronteiras no website, apenas um planeta com terra e oceanos onde, se nos aproximarmos, podemos ouvir os sons da humanidade.

À medida que as viagens começam lentamente a regressar, espero que estas estações de rádio nos ensinem o que devemos procurar – e ouvir – quando estivermos novamente a viajar. Desta forma, mesmo que não compreendamos um idioma, sabemos o que um taxista pode estar a ouvir no seu carro. Podemos fazer uma pausa durante uma caminhada para ouvir a música que está a sair da janela de um apartamento. Podemos fechar os olhos e mergulhar nos sons.

Jornadas Sonoras
O nosso planeta está repleto de maravilhas musicais para descobrir, música que nos inspira e paisagens sonoras para explorar. Sintonize as nossas listas de reprodução no Spotify para embarcar em aventuras melódicas pelo mundo inteiro, desde Marrocos à Córsega, Vietname e mais além.

Jordan Salama é um escritor cujo primeiro livro, Every Day the River Changes: Four Weeks Down the Magdalena, narra uma viagem ao longo do maior curso de água da Colômbia. Siga-o no Instagram e no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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