Um trilho épico de peregrinação contorna a Ilha do Príncipe Eduardo

Desafiador, mas acessível, o novo trilho Island Walk de 700 quilómetros revela a província mais pequena do Canadá.

Por Heather Greenwood Davis
Publicado 30/11/2021, 15:05
Novo trilho Island Walk

O novo trilho Island Walk faz um circuito completo em torno da Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá. Este percurso passa pelo Cabo Norte e por moinhos de vento, penhascos e pelo Farol do Cabo Norte.

Fotografia por Sander Meurs, Tourism PEI

No outono de 2019, Bryson Guptill caminhou 700 quilómetros na Ilha do Príncipe Eduardo ao longo de 31 dias. Este habitante da ilha atravessou colinas verdes e campos agrícolas, conversou com estranhos ao longo de estradas de terra batida e observou garças e cormorões a voar ao longo da costa.

Esta caminhada com três amigos deu origem à ideia que se tornou no trilho Island Walk. A nova rota de 700 quilómetros contorna a província canadiana ao longo de uma combinação de trilhos já existentes, estradas de terra batida e autoestradas públicas.

Os caminhantes Sherry Gallant e Dominique Bourg atravessam uma secção do trilho Island Walk em Little Harbour, no extremo leste da Ilha do Príncipe Eduardo.

Fotografia por Heather Ogg
Esquerda: Superior:

atrações naturais que ficam perto do trilho, como o tortuoso lago Larkins, perto de Selkirk.

Direita: Inferior:

O passadiço de madeira no Parque Provincial de Souris Beach estende-se ao longo de uma praia de águas rasas.

fotografias de Sander Meurs, Tourism PEI

O plano original era inaugurar o trilho na primavera de 2020, diz Bryson Guptill, ex-presidente da Island Trails, uma organização voluntária que promove e desenvolve trilhos sustentáveis na ilha.

Contudo, devido à pandemia de COVID-19, durante grande parte dos últimos dois anos, o acesso à Ilha do Príncipe Eduardo – a província mais pequena do Canadá, com 5.660 quilómetros quadrados – ficou isolada do resto do país e do mundo. Quando a pandemia começou, a Ilha do Príncipe Eduardo, que é uma das províncias marítimas orientais do Canadá, implementou rapidamente restrições nas viagens, estabelecendo uma bolha protetora para ajudar a proteger os seus 160.000 habitantes.

A flexibilização recente destas restrições, juntamente com um público que desenvolveu um novo apetite pela natureza, deu uma nova vida ao trilho Island Walk.

Lançado oficialmente em setembro de 2021, o trilho combina a acessibilidade de um passeio com uma peregrinação que oferece uma sensação de realização e uma oportunidade de reflexão, tal como acontece com outros grandes trilhos de caminhadas pelo mundo inteiro.

A história dos trilhos

Os trilhos para caminhadas não são uma novidade nesta ilha. Em 1989, quando a companhia ferroviária Canadian National Railway abandonou as linhas férreas da Ilha do Príncipe Eduardo, deixando para trás os caminhos de ferro, os ilhéus persuadiram o governo local a transformá-los em ciclovia/trilho para caminhadas. Esta ação acabou por dar origem ao Trilho da Confederação (que aumentou para os 450 quilómetros de extensão e tem ramificações que se estendem por toda a província).

“O Trilho da Confederação é excelente, mas dado que é uma antiga ferrovia, percorre o interior da ilha – a distância mais curta de leste a oeste”, explica Bryson Guptill. “De certa forma, defrauda o propósito. Estamos numa ilha; e as pessoas querem ver o oceano.”

O trilho Island Walk torna isso possível ligando 350 quilómetros do Trilho da Confederação a estradas históricas, estradas secundárias mais tranquilas e a alguns trilhos locais e passeios pela praia.

Espaço para refletir

O trilho Island Walk também oferece a oportunidade para desfrutar de uma tranquilidade que as peregrinações mais famosas nem sempre conseguem proporcionar.

Para Bernie Brunino, que completou esta caminhada na semana passada, o tempo passado ao longo do trilho foi uma oportunidade de autorreflexão que provavelmente não teria sido possível sem a pandemia. As restrições devido à COVID-19 frustraram as intenções dos habitantes de Newmarket, em Ontário, que queriam fazer um trilho internacional. (Nos últimos anos, Bernie Brunino completou os Caminhos de Santiago e a Via Francigena).

A caminhante Ijeoma Ekeruche faz uma pausa na ponte Dunedin, em St. Catherines. Para muitos caminhantes, a longa distância do trilho Island Walk é uma oportunidade de introspeção.

Fotografia por Heather Ogg

“Achei a ilha incrível”, diz Bernie Brunino. “Caminhei dias sem encontrar ninguém. Nem sequer consigo descrever a paz que sinto. Pude refletir sobre o tipo de pai que tenho sido, como sou enquanto marido e perceber se fui um bom filho. É realmente terapêutico.”

Christine Renaud, de South Bay, em Ontário, também completou esta caminhada na semana passada. Christine Renaud usou a caminhada como uma oportunidade para angariar fundos para a Lennon House, um centro de apoio para pessoas que lutam contra o vício e distúrbios mentais.

“Os caminhos tranquilos e as praias isoladas são mais propícios para a reflexão do que as cidades barulhentas”, diz Christine Renaud.

Bernie Brunino e Christine Renaud são duas das cerca de 50 pessoas que Bryson Guptill espera ver neste trilho até ao final do ano – pessoas que recebem um passaporte e um certificado de conclusão da rota. Em comparação, em 2019, cerca de 350.000 pessoas fizeram os Caminhos de Santiago e receberam o certificado de conclusão, diz Bryson Guptill. “Isto é uma coisa diferente.”

Peregrinação acessível

Outra diferença importante reside no facto de cada trecho da rota de 32 secções ter, em média, cerca de 20 quilómetros. O trilho Island Walk compensa as distâncias diárias maiores por ser circular – onde quer que estejamos, nunca estamos longe dos centros mais populosos da ilha e de um lugar para comer, dormir ou explorar.

Antes da pandemia, a Ilha do Príncipe Eduardo já se estava a destacar enquanto centro de trilhos na região do Atlântico e, para os caminhantes iniciantes, o novo trilho para caminhadas pode ser um dos mais acessíveis da ilha. A secção do Trilho da Confederação oferece caminhos de pedra britada e uma elevação de nível máximo de 3%, algo que os mais novatos irão apreciar. Não há grandes escaladas ou montanhas árduas para atravessar.

Um campo de plantas de colza floresce perto das dunas em Springbrook, na Ilha do Príncipe Eduardo.

Fotografia por Paul Baglole, Tourism PEI

O trilho Island Walk foi inaugurado há pouco tempo, mas os negócios locais – desde hotéis a pousadas, cervejarias e restaurantes – já estão a começar a desenvolver formas de fazer parcerias e apoiar os viajantes, incluindo transportes e refeições embaladas para os caminhantes.

Bernie Brunino diz que os caminhantes mais reticentes devem começar devagar, optando por explorar apenas algumas secções, ao invés de percorrerem o trilho completo.

“As pessoas vão ficar com um gostinho do que é esta ilha”, diz Bernie Brunino, “mas o campo, a costa e o charme dos ilhéus vão fazer com que queiram descobrir o resto”.

O que deve saber

O trilho Island Walk está aberto o ano inteiro, embora a maioria dos caminhantes provavelmente opte pelos meses de maio e novembro. A proximidade com as cidades significa que cada caminhada de um dia requer pouco mais do que um bom calçado para caminhar e uma pequena mochila com mantimentos. Bryson Guptill escreveu um guia com dicas sobre cada etapa da jornada. É importante sublinhar que os visitantes precisam de fazer um teste COVID-19 antes de entrar na ilha.

Se tiver pouco tempo, pode optar por uma das seguintes secções:

Para caminhadas acessíveis: Opte pelos pontos de referência 31-32, Charlottetown. Esta parte do trilho provavelmente é a melhor para quem procura opções de acessibilidade. Nesta área, a zona do Trilho da Confederação facilita o acesso a pessoas em cadeiras de rodas ou outros equipamentos, e o trecho está iluminado durante a noite. Os exploradores também ficam com acesso a Charlottetown, a histórica capital da ilha.

Para comer: Opte pelos pontos de referência 12-13, de Portage até Notham. Esta parte do trilho coloca os caminhantes perto da comunidade de Tyne Valley, zona de alguns dos melhores hambúrgueres da ilha (Backwood Burgers), um bar de ostras e uma pequena mercearia para reabastecer. A Walk Food Hikes oferece caminhadas de meio dia ao longo do trilho com pequeno-almoço, entretenimento musical e, no final da caminhada, um almoço preparado pelo chef.

Para os amantes de cerveja artesanal: Opte pelos pontos de referência 26-27, de Cardigan até Montague. Saia do trilho em Montague para provar cerveja artesanal na Bogside Brewing e na Copper Bottom Brewing. Depois, acompanhe as suas cervejas com “o melhor pudim de pão da ilha”. Este é o trecho mais curto de todo o percurso e atravessa os afluentes de três rios com vistas costeiras do porto. Esta área foi colonizada em 1732 e foi um colonato francês durante muitos anos.

Para famílias com crianças pequenas: Opte pelos pontos de referência 23-24, de Bothwell até Souris. Uma paragem no Parque Provincial de Basin Head, nos arredores de Bothwell, contempla os caminhantes com as famosas areias cantantes (a areia tem muita sílica e parece murmurar enquanto caminhamos). Deixe as crianças divertirem-se antes de visitar o Museu de Pescarias de Basin Head, para descobrir a história da pesca costeira da ilha. Durante o verão, na ponte de Basin Head, os nadadores acrobáticos mais corajosos costumam saltar da ponte para as águas frias.

Para fotografar: Opte pelos pontos de referência 9-10, de Miminegash até Christopher Cross. Esta etapa leva os exploradores em torno do Cabo Norte que tem moinhos de vento e ao longo de um passadiço de madeira que oferece vistas espetaculares de penhascos vermelhos, águas turquesa e do Farol do Cabo Norte. Para desfrutar de vistas semelhantes, mas com um santuário de aves adicional e caminhadas pela praia, experimente os pontos de referência 22-23.

Para os fãs de Ana dos Cabelos Ruivos: Opte pelos pontos de referência 16-17, de Bayview até Cymbria. A série popular de livros Ana dos Cabelos Ruivos, publicada pela primeira vez em 1908, é a razão número um pela qual os viajantes internacionais visitam a Ilha do Príncipe Eduardo. Para quem é atraído para esta região pela famosa rapariga ruiva e pela área que inspirou a sua criadora, Lucy Maud Montgomery, esta secção de caminhada oferece a opção de caminhar por Cavendish (onde Lucy Maud Montgomery passou a maior parte da sua infância) ou fazer um passeio através do Parque Nacional da Ilha do Príncipe Eduardo. Ambas as opções têm acesso a lugares como o Parque Montgomery, a Casa Cavendish da autora e o Património Histórico e Nacional de Green Gables, que inclui locais que os leitores irão reconhecer dos livros, como Lover’s Lane e Haunted Wood.

Caminhe connosco: Quer desfrutar da natureza? Nós podemos ajudar. Os Mapas Ilustrados de trilhos da National Geographic destacam os melhores lugares para fazer caminhadas, acampar, fazer canoagem, remo e observação de vida selvagem nas fronteiras acidentadas e periferias urbanas da América do Norte. Criados em parceria com agências locais de gestão de terras, estes mapas foram pesquisados minuciosamente e oferecem detalhes incomparáveis e informações úteis para orientar não só os entusiastas mais experientes de atividades ao ar livre como os visitantes casuais. Clique aqui para obter um Mapa de Aventuras do Leste do Canadá, que inclui a Ilha do Príncipe Eduardo.

Heather Greenwood Davis é escritora de viagens e colaboradora da National Geographic em Toronto. Siga-a no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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