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Uma viagem de carro pela Borgonha revela muito mais do que bom vinho

Descubra uma história sagrada e colheitas divinais no norte desta famosa região vinícola francesa.

Por Nina Caplan
Fotografias Por Slawek Kozdras
Publicado 11/11/2021, 13:38
Existem mais de 28.000 hectares de vinhas na Borgonha, incluindo a célebre região da Côte d'Or. ...

Existem mais de 28.000 hectares de vinhas na Borgonha, incluindo a célebre região da Côte d'Or. Os caminhos mais lentos através das suas zonas menos conhecidas revelam a história religiosa e cultural francesa.

Fotografia de Slawek Kozdras

É muito fácil visitar as vinhas da Borgonha: Dijon, a cidade no centro da região, fica a apenas a 90 minutos de comboio de Paris. Mas os encantos sensoriais e cénicos desta região francesa começam muito a norte da Côte d'Or, ou “Costa Dourada” – e a estrada está pavimentada com histórias.

Os primeiros monges que cuidaram das vinhas da Borgonha não estavam focados nos prazeres gastronómicos, mas sim na imortalidade da alma. Se o vinho sacramental tinha como objetivo tornar-se no sangue de Cristo durante a missa, por que não torná-lo transcendentalmente delicioso? Esta paisagem foi moldada à imagem da igreja e os roteiros de peregrinação bem assinalados continuam a caracterizar a região.

No século XX, um tipo diferente de peregrinação começou a ficar popular: os parisienses começaram a viajar de carro para sul, à procura do sol e de tudo o que o acompanha. Nesta região, a primavera tem temperaturas médias de 20 graus; o verão pode chegar aos 30 graus; e o outono traz consigo as cores e sabores da colheita.

A região de Yonne deve o seu nome ao rio que a atravessa. A pequena cidade de Joigny fica nas margens deste rio.

Fotografia de Slawek Kozdras

A maioria dos visitantes da região da Borgonha concentra-se no famoso trecho a sul de Dijon. Mas nesta viagem de carro, estou a absorver as coisas devagar para desfrutar das almas gémeas da região que são amplamente divulgadas por todo o país: gastronomia e vida eterna.

Ao longo do rio Yonne

A apenas duas horas de carro a sul de Paris, chego ao norte da Borgonha e a uma região que tem o nome do rio que procuro: Yonne. Localmente, a região de Yonne é famosa pelas suas cerejas – as mais escuras e doces que já provei. Mas o resto do mundo conhece mais esta região pelo Chablis, uma espécie de Chardonnay austero, pedregoso, mas delicioso, que combina lindamente com ostras, entre outras coisas.

À hora do jantar, no La Côte Saint Jacques & Spa, o escanção serve Chablis de um pequeno produtor, Thomas Pico, da Domaine Pattes Loup. Tal como muitos outros vinicultores da Borgonha, Thomas Pico abandonou a utilização de produtos químicos nas suas vinhas, apesar do trabalho e dos riscos associados à agricultura orgânica devido às temperaturas inconstantes do norte. O resultado é uma degustação de um vinho com sabor a limão e creme, parece natas sem doce, resultando numa combinação improvável para um belo foie gras.

Esquerda: Superior:

O Château Saint-Aubin oferece degustações de vinho na sua propriedade, que foi fundada em 1860.

Direita: Fundo:

Uma loja que vende garrafas de Chablis, um vinho branco associado ao distrito vinícola que fica mais a norte da Borgonha.

Fotografia de Slawek Kozdras

O hotel Côte Saint Jacques foi inaugurado em 1945 e deve o seu nome à encosta ao longo do rio que os monges locais batizaram em homenagem a São Tiago. Desde então, o hotel tem sido gerido por sucessivas gerações da família Lorain. O chef Michel Lorain, falecido em 2021, conquistou para este local a sua primeira estrela Michelin em 1971; agora, o restaurante premiado com duas estrelas Michelin está aos comandos do seu sobrinho, o chef Alexandre Bondoux.

A Route Nationale 6 passa em frente à porta do hotel, mas a família Lorain construiu uma passagem por baixo da estrada para os hóspedes poderem entrar a pé na pequena cidade de Joigny com mais facilidade. Seguindo na minha lenta jornada, caminho até à Eglise Saint-André, com a sua Pietà medieval, uma imagem de Maria com o filho crucificado ao colo. Ali perto, encontro outra igreja através de um arco esculpido na distinta pedra branco-cinza da região.

Uma imagem aérea de Saint-Romain, uma zona rural na Côte d'Or da Borgonha.

Fotografia de Slawek Kozdras

Fico maravilhada com a precisão e o detalhe da Église Saint-Jean – situada no alto de uma colina com vista soberba até ao rio Yonne – a igreja foi construída no século XIII, muito antes das máquinas facilitarem as coisas. No seu interior, o teto é esculpido de forma complexa e há um extraordinário sepulcro de mármore do século XVI com sete figuras em tamanho real reunidas em luto em torno de Cristo falecido. A minha caminhada de 10 minutos de regresso ao hotel passa por outra igreja, na Place du Pilori, onde outrora os cidadãos julgados culpados eram açoitados pelos seus vizinhos.

Mergulhar no passado em Auxerre e Dijon

Nenhum camponês medieval desta região, mesmo estando pontilhada por igrejas, poderia duvidar da importância da comuna de Auxerre, a pouco mais de 30 quilómetros de distância. A sua pálida e poderosa Cathédrale de Saint-Étienne ergue-se dramaticamente por cima de casas aglomeradas e campos verdes planos. Este teria sido o maior edifício que a maioria dos camponeses alguma vez tinha visto, e a sua grandeza, enquanto atravesso o rio Yonne em direção à cidade, continua deslumbrante. Caminho em torno do edifício, admirando os vitrais (alguns datando do século XIII) e uma Joana D'Arc de mármore, piedosa de joelhos – aparentemente,  Joana D’Arc fez aqui uma pausa na batalha contra os ingleses para orar em 1429.

Tudo gira em torno destas terras. Era por este território que Joana D’Arc estava a lutar; é este o motivo da devoção dos monges, que foram descobrindo as diferenças entre cada pequeno lote e nutrindo as vinhas consoante as necessidades. De facto, existe uma história local que diz que os monges costumavam lamber o solo para compreender a diferença de sabores numa região vinícola que é a mais fragmentada do mundo. As grandes construções aqui erguidas são feitas desta terra – a rocha calcária de Auxerre é a mesma pedra calcária que se encontra no solo, os últimos resquícios de um mar da antiguidade. Depois, sigo de carro por aldeias cujas pedras claras brilham como se fossem fantasmas.

Esquerda: Superior:

Uma turista explora a Cathédrale de Saint-Étienne em Auxerre.

Direita: Fundo:

As icónicas telhas vitrificadas da Borgonha adornam um telhado em Dijon.

Fotografia de Slawek Kozdras

As vinhas desta região são mais antigas que os mosteiros; e algumas são possivelmente mais antigas que o Cristianismo, uma vez que já eram cuidadas às ordens dos imperadores romanos no primeiro século d.C. Só muito mais tarde, quando foi construído um mosteiro e os piedosos começaram a doar vinhas para garantir o seu lugar no céu, é que a cidade de Chablis e terras vizinhas ficaram sinónimo de vinho branco da mais alta qualidade.

(As alterações climáticas estão a alterar o paladar do vinho.)

Depois de conduzir cerca de 130 quilómetros até Dijon – outrora a capital de um ducado que não só era independente de França, como era indiscutivelmente mais forte – são revelados os dois grandes temas da Borgonha: espiritualidade e gastronomia. Dijon também tem uma vasta catedral, e no seu extenso palácio ducal fica o Musée des Beaux-Arts com as suas várias relíquias, incluindo retábulos gigantes e os túmulos de mármore delicadamente esculpidos de dois nobres mortos há muito tempo – as suas efígies têm as mãos cruzadas em oração.

No centro de Dijon, a Place de la Liberation é ladeada por edifícios históricos, incluindo o Palais des Ducs de Bourgogne, onde fica o Musée des Beaux-Arts de Dijon. Algumas partes deste edifício datam do século XIV.

Fotografia de Slawek Kozdras

O museu tem na sua coleção os talheres medievais de porcelana e uma chávena de prata e madeira que dizem ter sido usados por São Bernardo. Paro para refletir sobre os monges sentados a comer após um árduo dia a podar e a orar, erguendo uma taça de vinho aos lábios com a mesma sensação de expectativa que sentimos hoje.

A Costa Dourada

Por fim, a minha descontraída peregrinação leva-me até à Côte d'Or. Agora tenho uma visão diferente sobre este lugar, quando percebo o contraste entre a inclinação suave das vinhas viradas para sul e sudeste com os da paisagem mais fria e exuberante do norte.

As mudanças acontecem muito lentamente nesta região, se é que acontecem. A compra do Château de Pommard do século XVIII, com um lote único de 20 hectares (invulgarmente grande para esta região), por parte do empreendedor norte-americano Michael Baum em 2014 acabou por gerar polémica. Michael Baum está realmente a mudar as coisas: o pátio do castelo parece agora um pântano de lama enquanto os trabalhadores convertem os edifícios exteriores num hotel de luxo com 28 suítes – com inauguração prevista para 2023.

As construções de madeira encontram-se por toda a Borgonha, incluindo estas casas em Auxerre.

Fotografia de Slawek Kozdras

O castelo de Pommard não era uma propriedade monástica; foi construído no século XVIII por um secretário de Luís XV, e a vinha que fica sob a sala de degustação, chamada Micault, ainda tem o seu nome. Consigo sentir os séculos a fluir para o meu copo juntamente com o vinho de excelência. Michael Baum, que admite que “cresceu a beber cerveja e a comer sandes de bife com queijo”, está a trazer uma expansão americana para estas vinhas fechadas. A maioria das casas vinícolas da Borgonha não recebe visitantes sem hora marcada, muito menos fazer parceria com uma empresa de balonismo como a France Montgolfières, onde podemos aprender sobre as vinhas enquanto flutuamos silenciosamente por cima.

(Visite estas 5 cidades francesas maravilhosas longe das multidões de Paris.)

A Borgonha nunca foi apenas o domínio de monges, duques e santos, por mais gloriosas e imortais que as suas histórias se tenham tornado. A estonteante tapeçaria de vinhas e igrejas tecidas por toda esta região fértil também elevou a sua população em geral – bem como os viajantes que por ela passam. Enquanto desfruto de um gole de vinho celestial e me apercebo da passagem do tempo pelo toque do sino na pequena igreja de Saint-Aubin do século X, agradeço aos guardiães da terra – e talvez até a um poder superior.

Questiono-me se pode haver algo mais milagroso do que provar um grande vinho no seu local de nascimento. Eu viajei de Saint-Jacques para Saint-Aubin, e mesmo que nenhum dos mártires tivesse aprovado o meu foco nos prazeres temporais, pelo menos teriam concordado que estes vinhos ligam o céu e a terra para peregrinos de todos os tipos.

Nina Caplan é jornalista e escreve sobre viagens, vinho e arte. Pode encontrá-la no Twitter.

Slawek Kozdras é fotógrafo e escritor de viagens sediado em Londres. Pode encontrá-lo no Instagram.

Este artigo foi adaptado de uma peça publicada na edição de novembro de 2021 da National Geographic Traveller (Reino Unido).

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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