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Explore os túmulos e palácios destas ‘cidades perdidas’ das Américas

Os vestígios das primeiras civilizações americanas, descobertos após séculos na obscuridade, deslumbram com a sua complexidade e escala.

Por Patricia S. Daniels
Publicado 5/01/2022, 12:24
Templos maias em Caracol

O sol põe-se atrás de templos maias em Caracol, no oeste do Belize. Depois de quase 1.000 anos na obscuridade, este local foi descoberto em 1937 por um lenhador; as escavações arqueológicas começaram pouco tempo depois.

Fotografia por

O que significa dizer que uma cidade está “perdida”? Sabemos onde encontrar os vestígios da maioria das grandes cidades antigas, e muitos lugares vulgarmente considerados perdidos não eram realmente desconhecidos para as suas sociedades regionais.

O que se perde normalmente não é a localização de uma cidade, mas sim a sua história, a sua vida no mundo. As cidades e vilas antigas tinham as suas ruas apinhadas de pessoas de diferentes culturas: governantes e trabalhadores, locais para comer e lutar, mercados e templos, crianças e animais de estimação. Quando estas cidades desapareceram, as experiências humanas também desapareceram.

O trabalho de um arqueólogo é reconstruir estas histórias, peça a peça. Pelo mundo inteiro, os arqueólogos continuam a descobrir enormes centros urbanos que são um testemunho da sofisticação das culturas da antiguidade. As novas descobertas feitas com a tecnologia LIDAR, um método de sensoriamento aéreo remoto, têm revelado centenas de centros cerimoniais olmecas e astecas por todo o México.

Mas os desafios de preservação destas cidades antigas continuam bem presentes. A mineração e perfuração de petróleo e gás ameaçam locais Pueblo Ancestrais muito delicados em Chaco Canyon, no Novo México, levando o presidente Joe Biden a propor uma interdição de 20 anos nas perfurações num raio de 16 quilómetros desta povoação de casas de arenito – que têm uma construção intrincada e fossos cerimoniais alinhados por rochas.

“Chaco Canyon é um lugar sagrado que tem um significado muito profundo para os povos indígenas cujos ancestrais viveram, trabalharam e prosperaram naquela comunidade no deserto”, disse a Secretária do Interior dos Estados Unidos, Deb Haaland, através de comunicado. “Chegou o momento de considerarmos proteções mais duradouras para a paisagem viva que é Chaco Canyon.”

Explorar Chaco Canyon e outras povoações da antiguidade nas Américas oferece aos viajantes um vislumbre do passado – e a noção do quão importante é preservar estes locais. Seguem-se três cidades que outrora fervilharam de vida na América do Norte e Central e que caíram na obscuridade, mas que agora estão no mapa de arqueólogos, conservacionistas e viajantes.

Chaco Canyon: Cultura Pueblo Ancestral no Novo México

Desde o século IX até ao século XIII, os chamados povos Pueblo Ancestrais cultivaram, comercializaram e realizaram cerimónias religiosas no deserto em torno de Chaco Canyon, onde fica atualmente o Novo México. Para regar as suas culturas de milho, abóbora e feijão, os habitantes aproveitavam o fluxo intermitente de água vinda dos riachos locais através de canais e valas. Os comerciantes traziam mercadorias exóticas, como araras-escarlate e cacau, vindas dos povos mesoamericanos do sul.

A civilização de Chaco Canyon começou a dissolver-se por volta de 1140, talvez devido a uma série de secas severas. No final do século XII, a região já tinha sido completamente abandonada. Embora outros povos nativos, incluindo os Ute e Shoshone, se tenham mudado para a região nos séculos seguintes, a primeira jornada documentada até Chaco Canyon foi uma expedição feita em 1823 na qual homens que obedeciam à lei mexicana encontraram as antigas ruínas.

Pueblo Bonito é a cidade mais famosa dos locais Pueblo Ancestrais de Chaco Canyon, localizada onde fica atualmente o Novo México.

Fotografia por Phil Schermeister, Nat Geo Image Collection

Pueblo Bonito é a cidade mais famosa dos locais Pueblo Ancestrais de Chaco Canyon, e a atração a principal do Parque Histórico Nacional da Cultura Chaco. É conhecida como uma “casa enorme”, mas aos nossos olhos parece um complexo de apartamentos em forma de D. Estes edifícios de alvenaria de até quatro andares de altura podem ter contido mais de 600 divisões que eram usadas para alojamento, armazenamento, cerimónias e enterros. As paredes eram mantidas no lugar com adobe e depois rebocadas e caiadas de branco no interior, sendo por vezes adornadas com desenhos pintados.

Nas mais de 30 kivas – câmaras subterrâneas circulares – realizavam-se as cerimónias religiosas dos Pueblo Ancestrais. Por volta do século XIII, devido a razões que permanecem desconhecidas, os habitantes de Chaco Canyon começaram a abandonar as suas povoações e a partir para outras regiões mais a sudoeste.

O povo de Chaco Canyon não tinha uma linguagem escrita, ou seja, muito do que os estudiosos sabem sobre a sua sociedade foi determinado a partir de enterros. Uma sala fúnebre, por exemplo, continha 13 corpos presumivelmente da alta sociedade rodeados por milhares de missangas turquesa, conchas, tigelas e jarros. As análises de ADN revelaram que muitos destes indivíduos tinham parentesco através das suas mães ou avós, indicando que Pueblo Bonito pode ter sido governado por uma dinastia matrilinear.

Os viajantes podem explorar este Património Mundial da UNESCO através de visitas guiadas, passeios com guardas florestais por Pueblo Bonito, trilhos para caminhadas, de bicicleta, acampar e ouvir palestras noturnas junto à fogueira. A estrada de Canyon Loop Drive, de 14 quilómetros, inclui paragens em várias ruínas, incluindo Pueblo Bonito e Chetro Ketl, as povoações maiores e mais complexas. Quatro trilhos para caminhadas levam os visitantes até locais remotos de Chaco Canyon, passando por estradas antigas, pinturas rupestres, escadarias e vistas espetaculares do vale.

Chaco Canyon também tem a certificação de Parque Internacional Dark Sky. Mais de 99% do parque não tem iluminação exterior permanente, garantindo as condições ideais para a observação estelar. Os eventos especiais periódicos incluem programas de astronomia com telescópios para obter uma visão deslumbrante do céu noturno.

Caracol: Uma metrópole maia no Belize

Em 1937, um lenhador encontrou monumentos esculpidos em pedra nas florestas da região oeste da então chamada Honduras Britânica, hoje conhecida por Belize. Os arqueólogos acabaram eventualmente por descobrir mais monumentos, bem como túmulos, terraços e habitações neste local remoto. O lenhador tinha redescoberto a cidade que hoje é conhecida pelo nome espanhol de Caracol (uma referência à estrada sinuosa que vai dar ao local).

Os estudos feitos posteriormente revelaram que esta cidade era uma das principais metrópoles do grande Império Maia, que se estendia desde o México até à Nicarágua. Atualmente, Caracol é um dos locais maias mais bem preservados do Belize.

No seu auge (250 até 950 d.C.), Caracol era um enorme centro urbano com quase 20 quilómetros de largura e tinha pelo menos 100.000 habitantes. A maioria vivia em grupos residenciais dispersos entre os campos agrícolas A elite maia vivia no centro da cidade, que abrigava um palácio real elevado e uma praça formal. Tal como muitas outras cidades maias, Caracol também tem os famosos campos de bola de pedra, onde os jogadores competiam para manter uma bola de borracha sólida no ar.

A sua atração principal é a “Caana” ou “Sky Place”, uma pirâmide de 40 metros de altura que se eleva da selva e possui quatro palácios e três templos. Os quartos do palácio estavam originalmente revestidos com estuque branco e decorados com tinta vermelha.

Entre as descobertas mais intrigantes feitas em Caracol estão as indicações de que as mulheres ocupavam cargos elevados nesta sociedade hierárquica. Apesar de as mulheres serem pouco retratadas nos monumentos da região, eram homenageadas com funerais em túmulos de elite no interior da cidade. Alguns pictogramas, que mostram indivíduos em trajes andróginos do deus do milho com saias, têm estimulado debates sobre o seu género.

Entre 880 e 1000 d.C., Caracol foi abandonada. Ao contrário de outras cidades antigas, não foi a seca que vergou esta cidade. As indicações são as de que a sua sociedade posterior se tornou cada vez mais estratificada, com a elite a acumular a maior parte dos bens. No final do século IX, o palácio ardeu. A inquietação social e, possivelmente, invasores externos, podem ter representado o fim para a longa jornada de Caracol enquanto poder maia.

Os visitantes podem chegar até Caracol através de uma longa e desafiadora viagem por estradas não pavimentadas a partir de San Ignacio, Santa Elena ou Georgeville, cidades ao longo da Autoestrada Western. Em 2020, foi iniciado um projeto de pavimentação das estradas que levam até Caracol, mas as obras ainda estão a decorrer.

A recompensa para esta viagem são 10.000 hectares de maravilhas, com três praças em torno de uma acrópole central, dois campos de bola de pedra e várias estruturas mais pequenas. No centro de visitantes, perto da entrada, pode ver em exibição os artefactos encontrados no local, bem como diagramas e fotografias das décadas de escavações. Recomendamos a marcação antecipada de uma visita em San Ignacio ou San Elena.

Cahokia: Montes construídos pelo povo Mississipiano

A apenas seis quilómetros de onde fica atualmente a cidade de St. Louis, no Missouri, a povoação de Cahokia surgiu nas ricas várzeas criadas pela confluência dos rios Mississippi, Missouri e Illinois. Os agricultores já viviam nestas terras férteis desde o século VII a cultivar abóboras, girassóis e, posteriormente, milho. Naquela época, Cahokia era a maior cidade na região norte do México, com uma população a rondar os 10 e os 20 mil habitantes, rivalizando com cidades europeias da época.

A comunidade de Cahokia começou a declinar durante o século XIII e o local foi completamente abandonado por volta do ano 1350. Passar-se-iam centenas de anos até que exploradores franceses documentassem a sua descoberta no século XVII.

Monks Mound é a peça central do local histórico de Cahokia Mounds, os restos de uma comunidade do povo Mississipiano perto de St. Louis, no Missouri.

Fotografia por IRA BLOCK, Nat Geo Image Collection

Hoje, os visitantes do Sítio Histórico de Cahokia Mounds encontram colinas de terra cobertas de vegetação, mas o local já sustentou pelo menos 100 estruturas elevadas – incluindo uma praça central gigante que ocupava o equivalente a 45 campos de futebol.

A maior construção é um terraço com 30 metros de altura conhecido por Monks Mound (Monte dos Monges), batizado em homenagem aos monges trapistas que viviam aqui nas proximidades no século XIX. A base ocupa 6 hectares e é maior do que a área da Grande Pirâmide de Khufu no Egito. Esta construção exigiu mais de 200 milhões de pés cúbicos de terra, extraídos de poços ainda visíveis. Este tipo de esforço organizado geralmente requer uma sociedade centralizada e hierárquica.

Os historiadores sabem pouco sobre os governantes ou a história da cidade, mas as evidências encontradas no local mostram que este era um centro cosmopolita de comércio, artesanato e agricultura. A cidade foi ocupada por membros do povo Mississipiano, que trocavam bens com outros povos mais a norte, como no Wisconsin da atualidade e, possivelmente, com culturas mesoamericanas mais a sul. Tal como os mesoamericanos, os habitantes de Cahokia também gostavam de jogos, incluindo uma atividade conhecida por “chunkey”, na qual os jogadores atiravam lanças contra discos de pedra.

Semelhante às culturas do sul, incluindo a cultura asteca, os enterros em Cahokia podem ter incluído sacrifícios humanos. O denominado Monte 72 contém dezenas de corpos, de homens e mulheres, alguns deles decapitados.

Por volta de 1175 d.C., a julgar pelas paliçadas de madeira montadas no centro da cidade, algo ou alguém começou a ameaçar esta povoação. Um clima em arrefecimento e o stress provocado sobre o meio ambiente local também podem ter contribuído para tornar a cidade menos habitável. Por volta de 1350, a sua população já tinha dispersado. Alguns dos montes ficaram cobertos de relva, outros foram achatados pelos agricultores e, em meados do século XX, o governo dos EUA construiu uma autoestrada mesmo no meio desta cidade.

Atualmente, as ruínas de Cahokia são Património Mundial da UNESCO e um exemplo proeminente da cultura Mississipiana. Os visitantes podem explorar o parque através de um trilho de caminhada de 16 quilómetros que contorna o local ou através uma escalada rápida do Monks Mound, a maior terraplenagem da América do Norte (com 30 metros de altura e cerca de 300 metros de comprimento). No centro interpretativo pode encontrar mapas dos trilhos, dispositivos para visitas guiadas áudio e um museu da cultura Mississipiana com um modelo em tamanho real de uma povoação.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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