O Velho Oeste vive no sul de Espanha

Esta região desértica desempenha um papel importante nos filmes western – e oferece aos viajantes vários cenários cinematográficos e cultura cowboy.

Duplos cavalgam e dirigem carroças no Oasys MiniHollywood, um dos vários cenários de filmagens de westerns na região espanhola de Almería. Os desertos e desfiladeiros desta região já atraem equipas de cinema e televisão desde a década de 1950. Hoje, as suas cidades falsas do Velho Oeste também estão abertas para espetáculos de cowboys e visitas guiadas.

Fotografia por Matilde Gattoni
Por Matteo Fagotto
Publicado 26/01/2022, 12:45

As tábuas de madeira desgastadas pelo tempo rangem sob os passos pesados de Rafael Molina, enquanto este caminha pelo saloon. Na rua, o som de cavalos a galopar interrompe o silêncio do deserto circundante. Em torno de Rafael Molina, as lojas vazias e as casas abandonadas desta cidade do Velho Oeste parecem ter sido saqueadas por cowboys fora da lei.

“Quando era criança, só sonhava com isto”, diz Rafael Molina, ator e duplo reformado de 68 anos. “A minha aspiração era ver um cenário de filmagens em primeira mão. Hoje, sou proprietário de um dos cenários mais famosos da história dos westerns.”

O cenário de filmagens Oasys MiniHollywood está localizado no sopé da Sierra de Los Filabres, no deserto de Tabernas, em Espanha.

Fotografia por Matilde Gattoni

Os duplos profissionais Ricardo Cruz Fernández (à esquerda) e Rafael Aparicio García (à direita) trabalham como figurantes em filmes e dão espetáculos de cowboys no Fort Bravo em Tabernas, Espanha.

Fotografia por Matilde Gattoni

Rafael Molina comprou este cenário, chamado Fort Bravo, no final da década de 1970. Contudo, este movimentado local de filmagens está localizado em Espanha – e não em Montana ou no Texas. Esta é uma de três cidades falsas do Velho Oeste na pequena aldeia de Tabernas e no deserto circundante da província de Almería. Desde o final da década de 1950, estas montanhas escarpadas, planícies áridas e desfiladeiros já serviram de cenário para mais de 170 westerns, incluindo O Bom, o Mau e o Vilão (1966) e Aconteceu no Oeste (1968).

Outros filmes e séries de televisão também foram filmados em Tabernas, incluindo Indiana Jones e A Guerra dos Tronos. Mas esta região fustigada pelo vento – a 30 minutos de carro a norte da cidade costeira de Almería – continua a ser sinónimo de tiroteios do oeste selvagem.

Hoje em dia, este local é cobiçado não só por realizadores de cinema neo-western, como atrai viajantes que desejam desfrutar do seu folclore e paisagens. Eis a história improvável de como tantos filmes passados numa região quase mitológica dos Estados Unidos acabaram por ser filmados no sul de Espanha. E descubra como os viajantes podem desfrutar das paisagens cinematográficas e apreciar as pessoas fascinantes que dão vida ao Velho Oeste.

Comunidade de cowboys

Rafael Molina pertence a uma pequena comunidade de atores e duplos locais em Tabernas que tem atuado em filmes e séries de televisão desde as primeiras produções feitas na região na década de 1950. Estes atores conseguem encenar um pouco de tudo, desde lutas a corridas de cavalos. O conhecimento adquirido ao longo de gerações passa muitas vezes de pai para filho, mantendo os segredos do ofício na família. Imersos na era dourada dos westerns, estes atores encarnam os valores dos seus heróis do cinema: orgulho, coragem, liberdade e uma relação de confiança com os cavalos.

“Eu gostei sempre de cavalos e do oeste [dos EUA]”, diz Ricardo Cruz Fernández, de 29 anos, duplo que apareceu em produções recentes, incluindo A Guerra dos Tronos e Os Irmãos Sisters, um western franco-americano de 2018 interpretado por Joaquim Phoenix. Ricardo Fernández começou a sua carreira de cowboy depois de concluir um curso de duplo há cerca de uma década.

Entre as diferentes produções, Ricardo Fernández faz espetáculos diários no Fort Bravo para milhares de turistas que visitam o cenário todos os anos. Num dos espetáculos, Ricardo Fernández retrata um ladrão de bancos que foge com ouro. Os visitantes encontram-no no saloon, com lutas e tiroteios (falsos) e atores que interpretam os seus cúmplices traiçoeiros. A cidade também tem espetáculos de dança e passeios de carroça.

Esquerda: Superior:

Bailarinas dão um espetáculo no saloon do Oasys MiniHollywood em Tabernas, Espanha.

Direita: Inferior:

Uma cavaleira treina um jovem cavalo andaluz nas ruas do Oasys MiniHollywood, um cenário de westerns no sul de Espanha.

fotografias de Matilde Gattoni

O duplo Ricardo Cruz Fernández está na varanda de um dos edifícios de Fort Bravo, um dos três cenários de westerns em Tabernas, Espanha.

Fotografia por Matilde Gattoni

“Prefiro interpretar o vilão, porque fico com um leque maior de possibilidades”, diz Ricardo Fernández. “O bom da fita só precisa de manter as coisas em ordem.”

O romance de Ricardo Fernández com o Velho Oeste começou quando ele era criança e viu a chamada “Trilogia dos Dólares” do realizador italiano Sergio Leone. Esta trilogia — Por Um Punhado de Dólares; Por Mais Alguns Dólares; O Bom, o Mau e o Vilão – foi filmada durante a década de 1960 na região de Almería. Um dos atores era um jovem então desconhecido chamado Clint Eastwood, que interpretava o papel de um cowboy sem nome que usava um poncho.

“Os filmes de Sergio Leone não precisavam de muitos diálogos ou enredos complexos”, diz Ricardo Fernández. “Os gestos dos atores, a música e os pequenos detalhes são suficientes para nos arrepiar.” O estilo de filmagem inovador de Sergio Leone e as bandas sonoras cativantes da trilogia pavimentaram o caminho para o chamado spaghetti western, um género de filme muito popular nas décadas de 1960 e 1970. A maioria dos realizadores destes filmes eram italianos, e os produtores e atores eram uma mistura de italianos, espanhóis e americanos, todos a falarem o seu idioma no ecrã.

Descartados inicialmente pela crítica norte-americana, os spaghetti westerns tornaram-se num enorme sucesso devido à visão crua que trouxeram a um estilo de filme que tinha praticamente desaparecido. As figuras do Velho Oeste que estes filmes retratavam estavam muito longe dos heroicos conquistadores brancos dos épicos anteriores. As personagens principais não eram os defensores dos indefesos, mas sim caçadores de recompensas desprovidos de moral, movidos pelo lucro pessoal, pela ganância e vingança. As ações e a violência estavam na ordem do dia; e o bem raramente triunfava.

Os cartazes “procurado” ao estilo do Velho Oeste estão pendurados na prisão do cenário de filmagens Oasys MiniHollywood.

Fotografia por Matilde Gattoni

Almería já tinha sido o local de filmagens de alguns filmes de renome (Lawrence da Arábia, Cleópatra), mas foi Sergio Leone, e a consequente inundação de westerns europeus, que levaram finalmente as paisagens deslumbrantes desta província para as luzes da ribalta internacional.

Desde então, Almería já acolheu mais de 500 produções, incluindo filmes de grande sucesso (Patton, Exterminador Implacável: Destino Sombrio) e séries (Doctor Who). “As nossas paisagens são muito convenientes. Temos mar, deserto e montanhas nevadas a uma curta distância”, diz Plácido Martínez, um produtor local. “Podemos ser o Texas, o Novo México, o Arizona, a Califórnia e inúmeros outros cenários naturais.”

Cavaleiros transformados em duplos

Na década de 1960, quando as produções estrangeiras de westerns descobriram Almería, esta província era uma das mais pobres de Espanha, atormentada por uma taxa elevada de desemprego e pela emigração. Apesar da sua localização remota, os custos de produção eram extremamente baixos e os habitantes locais eram cavaleiros habilidosos – eram os duplos e figurantes ideais para os spaghetti westerns passados na fronteira entre os EUA e o México.

“Eu ganhava mais dinheiro num dia do que o meu pai numa semana de trabalho árduo nas minas de ouro”, diz Manuel Hernández Montoya, habitante local de 61 anos que trabalhou como figurante em vários westerns quando era criança. Manuel Montoya é agora dono do hotel e restaurante temático Hostal Alba na aldeia vizinha de Los Albaricoques, onde foi filmado o duelo final do clássico Por Mais Alguns Dólares.

Esquerda: Superior:

O duplo Rafael Aparicio García já apareceu em vários westerns filmados no cenário de Fort Bravo.

Direita: Inferior:

Dois duplos participam numa cena de tiroteio no Oasys MiniHollywood.

fotografias de Matilde Gattoni

Por um Punhado de Dólares foi um enorme sucesso, estimulando a construção de mais dois cenários para westerns ao ar livre em torno de Tabernas – Oasys MiniHollywood e Western Leone, e continuam ambos em utilização. Quando as equipas não estão em filmagens, estes cenários recebem turistas com as suas ruas empoeiradas e edifícios ao estilo do século XIX, incluindo espetáculos de cowboys, visitas guiadas e passeios a cavalo.

A região tinha poucas estradas pavimentadas naquela época, e a indústria cinematográfica foi fundamental para a construção dos primeiros hotéis e aeroporto de Almería. Em poucos anos, a cidade passou de uma terreola remota para uma espécie de Hollywood europeia, com celebridades como Claudia Cardinale, os Beatles e Charles Bronson a desfrutarem das suas bebidas na piscina do Gran Hotel entre os horários de filmagem.

A indústria cinematográfica também impulsionou a imagem internacional de Francisco Franco, o ditador que governou Espanha de 1939 até 1975. “O regime gostava muito de receber celebridades como Ava Gardner, Frank Sinatra ou John Wayne”, diz Evaristo Martínez, jornalista local e especialista em cinema. “Franco facilitava as produções internacionais de todas as formas possíveis, incluindo as produções de filmes que eram censurados localmente.”

O género spaghetti western começou a entrar em declínio no final da década de 1970 devido ao excesso de produções, à redução consistente na qualidade e ao interesse do público que se começou a focar em géneros diferentes. Foi um momento complicado para a indústria cinematográfica local, resultando na perda de milhares de empregos – e os cenários de westerns começaram a cair em desuso. Abandonados pelos seus proprietários, os cenários foram mantidos por alguns duplos que faziam espetáculos turísticos para sobreviver. Quando Rafael Molina comprou Fort Bravo por 6.000 dólares, o banco, as lojas e o saloon do cenário estavam em ruínas e tiveram de ser reconstruídos.

A indústria cavalga de novo

Depois de algumas grandes produções feitas na década de 1980 – incluindo Indiana Jones e a Grande Cruzada e Conan e os Bárbaros – a indústria cinematográfica de Almería começou a ganhar um novo alento. Os westerns não recuperaram a proeminência da sua era dourada, mas os habitantes locais continuavam a sentir uma ligação profunda ao género. “Os westerns mudaram definitivamente o destino da nossa província, desde a década de 1950 até agora”, diz o produtor Plácido Martínez.

Os guias turísticos podem levar os visitantes pelos cenários abandonados de westerns nas planícies do deserto de Tabernas, em Espanha.

Fotografia por Matilde Gattoni

Além das visitas aos três cenários, os turistas também podem participar na indústria cinematográfica de Almería durante o Almería Western Film Festival, realizado todos os anos em outubro em Tabernas. Este festival conta com milhares de fãs que assistem a exibições de filmes, vestem-se como pistoleiros e provam a culinária ao estilo western.

A cidade também tem várias agências de turismo que realizam visitas a cenários abandonados no deserto, passeios que atravessam desfiladeiros remotos e montanhas onde foram filmadas grandes produções. “Uma vez tivemos um turista que veio do Japão só para tirar selfies em todos os locais da Trilogia dos Dólares, e usava uma réplica do poncho de Clint Eastwood”, diz Cristina Serena Seguí, diretora da agência de turismo Malcaminos.

Algumas pessoas sugerem que é a inescrutabilidade dos cowboys de olhar profundo e as paisagens desoladas que continuam a atrair turistas e equipas de filmagem para a região. Mas Plácido Martínez tece uma narrativa mais inspiradora. “Os westerns contam a história da criação de um país e de uma sociedade a partir do zero. São filmes que representam a história da humanidade.”

Matteo Fagotto é um jornalista italiano (e cofundador da Tandem Reportages) focado em questões sociais, ambientais e direitos humanos. Siga-o no Twitter.

Matilde Gattoni é uma fotógrafa franco-italiana sediada em Barcelona.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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