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Portas de Ródão: como se formou este famoso monumento natural?

É na Vila Velha de Ródão que encontramos uma referência incontornável e deslumbrante da natureza.

Por Catarina Fernandes
Publicado 3/01/2022, 17:09
Portas de Ródão

As Portas de Ródão são uma presença imponente no rio Tejo e uma passagem para a biodiversidade.

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A alguns quilómetros da fronteira entre Portugal e Espanha, um estrangulamento no curso da água com 45 metros de largura deu origem às Portas de Ródão, que penetram o rio Tejo. É uma ocorrência geológica natural que abrange as duas margens do Tejo e os concelhos de Vila Velha de Ródão e Nisa.

Esta referência incontornável na paisagem sobre o Tejo situa-se na crista quartzítica da Serra do Perdigão, cujo local serve de habitat para a maior colónia de grifos do país, sendo um lugar privilegiado para pesquisa de fauna e avifauna. Aqui podem ser observadas 116 espécies de aves, muitas delas consideradas em vias de extinção e algumas raras, tais como a cegonha-preta, milhafre real, abutre-preto ou a águia perdigueira.

A formação das Portas de Ródão

As enormes rochas que parecem erguer-se simulando as portas que guardam o rio e a vila, estão na origem do nome Portas de Ródão. A zona rochosa resulta da interseção do relevo da serra das Talhadas é formada por duas paredes escarpadas, com uma altura de 170 metros. Uma das portas encontra-se mais a norte, no concelho de Vila Velha de Ródão e, a outra, no estreitamento do rio, no concelho de Nisa.

Este fenómeno geológico é o resultado de 2.5 milhões de anos de erosão, visíveis aos olhos mais experientes e mais evidente na margem direita, o que faz com que o local tenha sido considerado Monumento Natural, em 2009. É ainda possível apreciar toda a zona envolvente, em segurança, a partir de um miradouro disponível no local.

As paisagens naturais deslumbrantes, repleta de recursos naturais, são atrativos para várias espécies de fauna e flora. Nas suas encostas observa-se urze, alecrim, giesta e cedro, e são a casa de várias espécies ameaçadas. As Portas de Ródão são ainda um dos monumentos naturais do Geopark Naturtejo da Meseta Meridional e um ponto obrigatório para os amantes da observação de aves.

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A lenda do Rei Wamba rodeia as Portas de Ródão

Sendo as Portas de Ródão um lugar mítico, não podia deixar de ter um conto que distingue a sua história e outorga contornos especialmente ricos, que despertam a curiosidade dos transeuntes. Assim, reza a lenda que, em tempos, o rei Wamba, o Rei Visigodo da Hispânia, viveu nesta região durante o seu reinado que durou entre 672 e 680, numa vida marcada pelo persistente combate aos Mouros.

A lenda conta que a esposa do rei Wamba acabou por se apaixonar pelo rei mouro e, para viver o amor correspondido, o rei mouro tentou raptá-la, escavando um túnel que passaria por baixo do Tejo. Acontece que os cálculos não foram bem analisados e o buraco do túnel saiu ao nível das águas.

Assim que o buraco e a intenção foram descobertos, o rei Wamba brindou o arqui-inimigo com a sua esposa, de uma forma um tanto dantesca. Atou a esposa à mó de um moinho e fê-la girar pelas encostas até ao rio Tejo. Da lenda para os factos, quando visitar a região poderá constatar que nos locais por onde a mó com a esposa do rei Wamba passou, nunca nasceu nenhuma vegetação.

Do passado ao presente, é ainda possível observar que o que foi outrora o castelo do rei Wamba, no topo da porta norte, é hoje uma pequena vigia, recuperada nos últimos anos, e que serve de ponto de observação das aves e da paisagem.

Área protegida e habitat para a maior colónia de grifos do país

A região das Portas de Ródão estende-se por 965 hectares, caracterizados por um património natural e histórico incalculável. As aves são um dos maiores atrativos para os visitantes e é nesta área protegida que habita a maior colónia de grifos do território nacional. Além disso, nos vales mais encaixados, com formações vegetais mais densas e de grande diversidade, encontram-se ainda diferentes espécies de avifauna e mamíferos.

Esta zona está classificada como Rede Natura 2000 e nela encontram-se várias espécies autóctones, como é o caso do medronheiro (Arbutus unedo) e do zimbro (Juniperus oxycedrus), sendo que este último constitui o habitat prioritário mais meridional na Península Ibérica de florestas endémicas de zimbros.

Os diferentes usos do solo da região resultaram na atração de várias espécies de fauna e flora. O zimbro, por exemplo, foi particularmente relevante para a classificação da zona, enquanto a espécie terá tido a sua grande expansão há vários milhões de anos. A sua importância fez nascer um projeto de restauro de habitat e prevenção natural contra incêndios.

Outra planta característica é a Andryala ragusina L., considerada em perigo. De comum temos a murta (Myrtus communis), a aroeira (Pistacia lentiscus) ou o carrasco (Quercus coccifera), além do medronheiro já referido.

No que respeita à fauna, podemos referir que as aves são um verdadeiro ex-libris da região, onde das espécies identificadas, muitas são consideradas em vias de extinção e outras raras. É nos olivais, matagais e escarpas rochosas que também se pode observar a presença de um número assinalável e diversificado de outras espécies de animais.

Nas Portas de Ródão é possível, ainda, observar diferentes animais selvagens, tais como o javali (Sus scrofa), o veado (Cervus elaphus) ou o saca-rabos (Herpestes ichneumon) e, de barco, a lontra (Lutra lutra). No rio avistavam-se ainda algumas espécies migratórias, tais como a lampreia, o sável, o muge e a enguia, agora desaparecidas devido à construção das barragens ao longo do curso do rio. A cara e o achigã foram introduzidos e o peixe-gato-europeu e o lagostim-vermelho-da-luisiana são considerados espécies invasoras.

A região pitoresca

Se vai de visita às Portas de Ródão, não pode deixar de visitar outros locais de valores históricos, culturais e gastronómicos tão típicos da região. Pode visitar o Castelo de Ródão ou do Rei Wamba, o templo da nossa Senhora do Castelo e o miradouro, atravessar as Portas de Ródão para ambos os lados e estender a viagem ao passado.

Visite o Centro de Interpretação de Arte Rupestre do Vale do Tejo, um dos mais importantes conjuntos de arte pós-paleolítico da Europa, onde encontra a maior concentração de gravuras rupestres pré-históricas da Península Ibérica, visite o Conhal do Arneiro, onde é indispensável subir a um dos seus gigantescos montes de seixos, e viaje até à mineração de ouro, durante o período de ocupação romana.

Apanhe um barco no cais fluvial de Vila Velha de Ródão e atravesse as portas agora pelo rio. Zonas como a Foz do Cobrão e as Portas do Almourão, no rio Ocreza, são outras áreas pitorescas da região.

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