As ‘aldeias brancas’ da Andaluzia foram forjadas pelas epidemias do passado

Uma viagem de carro por estas aldeias espanholas revela tradições antigas que encontram uma vida nova.

Os pueblos blancos (ou aldeias brancas), como Camares, na imagem, pontilham muitas das colinas na Andaluzia, no sul de Espanha. Quando uma vaga de epidemias fustigou a região entre os séculos XVI e XIX, as casas foram pintadas com cal, ou cal apagada, como uma forma de proteção contra as doenças.

Fotografia por The Studio Under The Wall, Alamy Stock Photo
Por Jen Rose Smith
Publicado 23/02/2022, 15:46

As aldeias caiadas de branco oscilam no topo das colinas por toda a região interior da Andaluzia, em Espanha, mas estes pueblos blancos oferecem mais do que uma bela arquitetura. Estas aldeias foram construídas para defender as comunidades contra invasores durante séculos de conflitos.

Hoje, os conflitos acabaram, mas a comunidade permanece: um pueblo blanco chamado Algar iniciou recentemente uma campanha para que uma tradição local chamada charlas al fresco, ou “conversas ao ar livre”, seja reconhecida na Lista Imaterial de Património Mundial da UNESCO. Esta lista reconhece a importância de crenças, costumes e tradições, como dança, preparação de alimentos e artesanato, que são intrínsecos a culturas e lugares específicos.

“Nós levamos todas as nossas cadeiras para a rua para passar o tempo com os nossos vizinhos e amigos. Isto acontece desde sempre”, diz o presidente da junta de Algar, José Carlos Sánchez, nascido e criado nesta comunidade andaluza que tem apenas 1.442 habitantes. “É uma coisa especial, ver pessoas velhas e novas sentadas na rua juntas.”

Escondida no vale da Serrania de Ronda, a aldeia de Ubrique é uma das 19 aldeias brancas espalhadas pelo sul de Espanha.

Fotografia por M. Ramirez, Alamy Stock Photo

Este encontro comunitário de longa duração tem o poder de ultrapassar divisões sociais e políticas e unir a comunidade para as pessoas partilharem notícias, diz José Sánchez, que lançou a candidatura à UNESCO no verão passado. Quando a pandemia o permitia, os habitantes colocavam as suas máscaras e continuavam a conversar.

Ainda assim, cada vez há menos pessoas neste convívio durante a noite – que são atraídas, em vez disso, para plataformas online, diz José Sánchez. Uma viagem de carro pelas aldeias brancas da Andaluzia não revela apenas uma terra que outrora esteve presa entre reinos medievais em guerra, mas também um modo de vida que está ameaçado pelas normas sociais em rápida transformação.

Por entre as aldeias brancas da Andaluzia

Algar é um dos 19 pueblos blancos desta região mais meridional de Espanha. No final da Idade Média, estas aldeias formavam uma fronteira contestada.

A norte estavam os reis cristãos, ansiosos por reconquistar a Península Ibérica, mas enfrentavam o Emirado Islâmico de Granada, um reino mouro governado a partir do magnífico Palácio de Alhambra.

(Granada: uma antiga cidade de sultões e uma maravilha do século XXI.)

O emirado rendeu-se às forças cristãs em 1492, mas os mouros de língua árabe deixaram o seu legado arquitetónico gravado nesta paisagem. Na era islâmica, as aldeias provavelmente começaram a adquirir a sua tonalidade distinta, diz Eduardo Mosquera, que estuda arquitetura histórica na Universidade de Sevilha, sublinhando que Ibn Khaldun, um estudioso andaluz-árabe do século XIV, descreveu um método para fazer cal, ou cal apagada.

Mosaicos de pedra adornam as ruas de Frigiliana, uma aldeia branca conhecida pela sua história mourisca.

Fotografia por imageBROKER, Alamy Stock Photo

A cal ajudava a manter as casas frescas durante o verão escaldante da Andaluzia, diz Eduardo Mosquera, e com o passar do tempo, a sua cor imaculada também ficou associada à higiene. Quando uma série de epidemias – desde peste a cólera e febre amarela – varreu a região entre os séculos XVI e XIX, as casas foram pintadas com cal. (E isto pode ter realmente ajudado: os estudos mostram que a cal apagada mata as bactérias que provocam a cólera.)

Ao enfrentarem doença após doença ao longos dos anos, algumas das aldeias da Andaluzia foram lentamente ficando pintadas de um branco puro, que ainda brilha atualmente sob o sol que banha o sul de Espanha o ano inteiro.

Viagem de carro pelas aldeias brancas

Atualmente, as aldeias brancas da Andaluzia também são um motivo de orgulho cultural. A produção tradicional de cal da Andaluzia recebeu o estatuto da UNESCO em 2011, e a sudoeste de Sevilha, o Museu de Cal de Morón demonstra o processo artesanal para os visitantes.

A Igreja de Nossa Senhora da Encarnação – uma das igrejas mais famosas da Andaluzia – bem como o Castelo Árabe do século XII, dominam o horizonte de Olvera.

Fotografia por Diego Grandi / Alamy Stock Photo

“Este tipo de reconhecimento pode aumentar a sensibilização sobre o património partilhado da comunidade”, diz a antropóloga Gema Carrera, diretora do Atlas do Património Imaterial da Andaluzia. Embora a tinta industrial tenha suplantado amplamente a cal na Andaluzia, Gema Carrera diz que a designação da UNESCO tem ajudado a estimular uma revitalização. “É muito importante do ponto de vista educacional.”

Para descobrir o quão espetaculares as aldeias brancas conseguem ser, alugue uma viatura e dirija-se para as colinas. Ligadas por um emaranhado de estradas de montanha, as aldeias brancas da Andaluzia convidam a viagens de lazer que revelam os modos de vida tradicionais que aqui perseveram.

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Comece a sua jornada no canto nordeste da região das aldeias brancas, onde fileiras de oliveiras de folhas prateadas rodeiam a vila de Olvera, no topo de uma colina. A partir daqui, uma curta viagem de carro leva-o até Setenil de las Bodegas, onde casas históricas foram construídas diretamente sobre uma série de falésias salientes.

Dezenas de restaurantes foram construídos nas cavernas de Setenil de las Bodegas, em Espanha.

Fotografia por agefotostock, Alamy Stock Photo

A paisagem fica mais selvagem à medida que a estrada serpenteia para sudoeste, para o Parque Natural da Sierra de Grazalema, e em direção a Zahara de la Sierra, uma pequena vila que aproveita ao máximo um cenário espetacular no topo de um promontório rochoso. Ziguezagueie sobre a passagem elevada de Puerto de las Palomas para chegar até Grazalema, uma vila de pastores famosa pelo queijo envelhecido e roupas quentes de lã.

Quando os cumes das montanhas derem lugar a quintas amplas, chegou a Algar – a bonita aldeia branca onde as charlas al fresco ainda se arrastam noite dentro durante o verão.

O futuro das ‘charlas al fresco’ em Algar

Esta tradição não é exclusiva de Algar, diz Gema Carrera. “É uma tradição que podemos ver em muitas partes da Andaluzia e por todo o Mediterrâneo. Os verões são muito quentes, portanto as pessoas saem para se refrescarem, e as culturas aqui valorizam muito a socialização.”

Este tipo de convívio ao ar livre tem diminuído à medida que os carros invadem as ruas, diz Gema Carrera, sublinhando que o ar-condicionado e as tecnologias também têm contribuído para alterar os padrões sociais.

“Mas quando se trata de preservar o património, as tradições não precisam de ser singulares para serem dignas de reconhecimento”, acrescenta Gema. É mais significativo que sejam representativas, e esta tradição é representativa. E para uma aldeia como Algar, o simples processo de obtenção de estatuto da UNESCO pode ajudar a sustentar um modo de vida tradicional. E pode desencadear conversas sobre valores partilhados e sobre quais são os costumes a salvaguardar nos anos vindouros.

“Sobretudo num momento como este, de pandemia, em que tanta coisa está a mudar e muitas relações sociais também se alteraram, porque isso pode ter um efeito importante nesta comunidade”, diz Gema Carrera. “Esta comunidade começa a ter orgulho numa prática, que depois ganha outro valor.”

(Templos, torres e cultos da Roma antiga ganham vida ao longo da Muralha de Adriano.)

A campanha do presidente da junta de Algar para obter reconhecimento da UNESCO não se trata apenas de olhar para o passado. José Sánchez também espera que os seus esforços tragam novas energias para uma aldeia pacata com a qual poucos forasteiros – até mesmo os espanhóis das cidades próximas – estão familiarizados. José Sánchez quer colocar a aldeia no mapa pela sua simpatia, insistindo que os viajantes são bem-vindos.

Por enquanto, a candidatura da UNESCO está pendente. O processo de reconhecimento pode levar anos. Porém, em casa, na aldeia de Algar, José Sánchez já viu resultados.

“Quando lancei a campanha da UNESCO, vi um carro parar numa noite de verão e dois estranhos a sair com um par de cadeiras de praia”, diz José com um sorriso. O presidente ficou emocionado porque os dois forasteiros tinham ouvido falar da tradição e tinham vindo participar. “Venha até Algar para uma conversa no próximo verão”, diz-me José Sánchez. “Pode até trazer uma cadeira de praia.”

Sediada em Vermont, a escritora de viagens Jen Rose Smith cobre aventuras ao ar livre, lugares remotos e culinária tradicional para a CNN, Washington Post, Outside e outros meios de comunicação. Siga-a no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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