A disseminação global do coronavírus está a afetar os viajantes. Mantenha-se atualizado sobre a explicação científica por trás do surto>>

Templos, torres e cultos da Roma antiga ganham vida ao longo da Muralha de Adriano

Novas descobertas continuam a surgir desta muralha que outrora assinalava os limites do império romano.

Por Joe Sills
Publicado 9/02/2022, 11:06
Muralha de Adriano

Pontilhada pelas ruinas de um pequeno forte, a Muralha de Adriano estende-se ao longo de um terreno montanhoso perto de Haltwhistle, em Northumberland, Inglaterra. Em 2022, esta construção romana completa 1.900 anos.

Fotografia por Nigel Hicks, Nat Geo Image Collection

A Muralha de Adriano delineou outrora a extensão do império romano na Britânia. Agora, é uma paragem a caminho da capital da Escócia, Edimburgo, ou a caminho da maior cidade do país, Glasgow. As coisas mudaram bastante nos últimos dois mil anos.

Mas esta cadeia de 117 quilómetros de muralhas, valas, torres e fortes – que se estende por toda a Grã-Bretanha, ligando o Mar do Norte e o Mar da Irlanda – continua a ser fascinante. Em 2022, 1.900 anos após o início da sua construção, soldados vestidos com armaduras romanas vão patrulhar novamente a sua extensão e os sons de instrumentos antigos irão pairar sobre as suas muralhas.

O escritor Joe Sills e a arqueóloga Raven Todd DaSilva atravessam uma secção traiçoeira do Caminho da Muralha de Adriano, a leste de Sewingshields Crags. À direita fica o Parque Nacional de Northumberland – lar dos rios mais limpos e céus mais negros de Inglaterra.

Fotografia por David Guest

Estas celebrações fazem com que este seja um ótimo momento para visitar a muralha e sobretudo para caminhar ao longo de toda a sua extensão. A atração mais popular da muralha, o Forte Romano de Housesteads, um extenso complexo construído numa encosta, recebe cerca de 100.000 visitantes por ano. Mas anualmente só 7.000 pessoas é que percorrem toda a extensão da muralha.

O reinado do imperador Adriano (117-138 d.C.) coincidiu com o auge do poder romano. Este imperador apostava na expansão — o território romano atingiu a sua maior extensão quando o seu reinado começou — e era conhecido como um construtor de monumentos, desde a sua vila opulenta em Tivoli, perto de Roma, até às fortificações defensivas que marcavam as fronteiras do seu império; ambas são consideradas Patrimónios Mundiais pela UNESCO.

Construída no reinado de Adriano, a partir de 122 d.C., a muralha estende-se pelos condados de Northumbria, Cumbria e Tyne e Wear. Para os caminhantes, este marco perto da fronteira escocesa é o trilho perfeito para quem procura uma rota linear que praticamente dispensa a necessidade de um mapa. Alinhado por construções de pedra e sebes, este percurso passa por calçadas, prados, bosques e rochedos numa trajetória que já é percorrida desde tempos idos.

Reviver a antiguidade

O número relativamente pequeno de caminhantes na muralha oferece a oportunidade perfeita para nos ligarmos a um passado distante numa paisagem que em muitos locais permanece intocada.

Após a morte do meu pai devido à COVID-19, este cenário tornou-se no local ideal para eu fazer o luto, para recordar e seguir em frente – como o meu pai desejaria. A minha rota leva-me ao longo de 135 quilómetros do Trilho da Muralha de Adriano, um trilho nacional do Reino Unido, que vai desde o Forte Romano de Arbeia South Shields, que fica nos subúrbios costeiros de Newcastle, até aos arredores pantanosos de Carlisle, em Bowness-on-Solway.

Equipado com botas resistentes e carregando uma mochila demasiado pesada, sou acompanhado na minha caminhada pela arqueóloga Raven Todd DaSilva. Juntos, partimos para refazer a rota da muralha de leste a oeste. Em vez de cartões magnéticos de hotel, levamos tendas – um esforço para economizar dinheiro e obter  um vislumbre das terras selvagens da muralha, da forma como estas poderiam ter sido durante a época romana.

Ao percorrer um trilho antigo, à procura de novas descobertas ao longo de uma rota que outrora assinalou a fronteira noroeste do império romano durante quase 300 anos, descobrimos que não estamos sozinhos.

Esta construção foi notícia no verão passado, quando uma nova secção da muralha foi encontrada sob as ruas de Newcastle, um lembrete de que a vida moderna e as nossas raízes antigas não estão assim tão separadas uma da outra.

A falésia perto de Crag Lough, não muito longe da Árvore de Sycamore Gap, era um miradouro natural e oferecia proteção contra as tribos celtas do norte.

Fotografia por David Guest

A cerca de um quilómetro do Estádio de St. James Park – o estádio da cidade de Newcastle que figura na Premier League inglesa e tem 52.000 lugares – uma equipa de funcionários do sistema hidráulico que instalava tubos para o Northumbrian Water Group descobriu uma secção de 3 metros da Muralha de Adriano enterrada a apenas 60 centímetros abaixo do asfalto moderno. Por fim, os canos foram redirecionados e as pedras foram deixadas intactas.

A Muralha de Adriano ocupa uma posição interessante entre os Patrimónios Mundiais da UNESCO. Estas fortificações defensivas nunca se perderam no tempo; tornaram-se simplesmente parte das novas comunidades que se foram instalando ao longo dos seus contornos. As pedras da muralha estão espalhadas pelas quintas circundantes. E também fazem parte das fundações de capelas e estradas nas proximidades.

(Best of the World: 25 Viagens incríveis para 2022)

“Mas geralmente não é isso que fazemos agora”, diz Raven Todd DaSilva. “Nós separamos a história e colocamo-la atrás de uma vedação, mas as coisas nem sempre foram assim.”

Antes da Revolução Industrial, diz Raven DaSilva, a sociedade tinha uma relação diferente com o passado. Antes do século XIX, a história raramente era separada do presente, algo que explica em parte porque é que a descoberta feita no verão passado em Newcastle gerou tanto burburinho. Por volta do ano 400 d.C., quando os romanos partiram, grande parte da muralha foi pilhada pelos políticos, generais e padres regionais. Nas áreas metropolitanas restam poucos vestígios visíveis da muralha.

Mas longe da cidade, ao longo de uma cordilheira vulcânica conhecida por Whin Sill, grande parte da muralha ainda permanece de pé. Junto ao cume vemos um desfile de ovelhas a passar. Os animais de criação e comedouros são visões familiares nos arredores de Newcastle. Aqui, um caminhante pode evitar os famosos doces da região enquanto serpenteia ao longo da orla romana durante dias.

Tecnologia romana

Arcadas antigas, pilares de pontes e trabalhos de terraplenagem estão espalhados ao longo da nossa rota para oeste. O progresso neste caminho é lento e só passados alguns dias é que a expansão urbana de Newcastle começa a dar lugar a terras e campos agrícolas.

A partir de um pasto perto de Chollerford, Raven DaSilva começa a correr à chuva em direção a uns montes relvados rasteiros que marcam a localização de um pequeno forte. Poucas horas depois, num prado perto de Hexham, fazemos um brinde para celebrar o momento em que os montes se transformam em fileiras de pedra que dão pela altura da cintura –  o nosso primeiro vislumbre real da muralha.

Depois de três noites a acampar e mais de 64 quilómetros a andar com a mochila às costas, o sol começa a brilhar no interior de Inglaterra, amanhecendo sobre o Templo de Mitra, enquanto caminhamos no seu interior.

Atores que interpretam soldados do exército imperial romano posam para uma fotografia no Forte Romano de Birdoswald, no norte de Inglaterra.

Fotografia por Oli Scarff, AFP/Getty Images

Construído por volta de 200 d.C., o chão debaixo dos nossos pés estaria escondido do mundo exterior na época romana. Neste santuário subterrâneo, os soldados praticavam rituais de uma religião que chegou à Grã-Bretanha vinda do Médio Oriente. Os sacrifícios e cerimónias rituais feitas aqui homenageavam Mitra, o deus do sol, cuja aparência desgastada, uma réplica do original, enfrenta agora a erosão do tempo a céu aberto.

Mitra era um culto adorado pelos soldados, e Raven Todd DaSilva explica que o templo foi construído perto de um posto avançado do exército. Raven conduz-me através de uma fileira de colunas em direção a um altar do outro lado do templo. Este é o local onde a luz do sol teria penetrado para iluminar os altares que os artesãos deixaram para trás há muito tempo, o ponto focal das cerimónias no templo antes de os primeiros cristãos terem provavelmente destruído o local por volta do ano 350 d.C.

Ajoelho-me em frente ao altar e seguro na cruz de prata que o meu pai tinha perto de si na ala de pacientes com coronavírus momentos antes de falecer. Aproveito para observar as incrustações turquesa enquanto estas brilham com a luz do amanhecer. O ar aqui parece estagnado. É impossível ignorar o peso do tempo nestas ruínas, e também é impossível ignorar que as pessoas que sentavam aqui há dois milénios eram as mesmas que se sentam atualmente.

Continuamos a nossa caminhada e passamos por uma vaca curiosa, que nos observa enquanto discutimos as diversas formas pelas quais a vida romana está ligada à nossa existência atual, desde as casas de banho às divisas, ao idioma, à arte e projetos de construção que ainda são claramente visíveis por toda a Grã-Bretanha.

(Descubra mosaicos e mistério em Mérida, um posto avançado do império romano.)

“As pessoas que viviam aqui tinham canalização”, diz Raven DaSilva. “Tinham quintas com campos como estes, cozinhas onde assavam pão, e balneários onde tomavam banhos de água quente. As crianças tinham brinquedos. Os adultos já comunicavam através de cartas. Temos tendência para pensar nos povos antigos como sendo menos inteligentes do que nós, mas isso não é verdade. Eles tinham apenas recursos diferentes.”

As ruínas mais impressionantes que encontrámos até agora são a prova disso. Os balneários extensos, incluindo os dos fortes Vindolanda e Chesters, apresentam comodidades que atualmente ainda são cobiçadas nas estâncias. Pisos aquecidos, salas de massagem, vestuários e áreas de exercícios, estava tudo à disposição dos clientes. Nenhuma ida aos balneários estava completa sem uma visita ao frigidarium, calidarium e tepidarium – salas para arrefecer, aquecer e relaxar.

Tal como muitos outros fortes romanos, também Vindolanda tinha balneários que serviam para fins de socialização. O Forte de Vindolanda, perto de Bardon Mill, em Northumberland, tem dois balneários que mostram evidências de que tanto homens como mulheres e crianças passavam aqui o seu tempo.

Fotografia por Vindolanda Charitable Trust

“Geralmente não sabemos realmente o que está debaixo dos nossos pés”, diz Raven DaSilva. “Para mim, esta é a parte mais entusiasmante de ser arqueóloga. Nós temos tendência para pensar que sabemos muito, mas existe sempre alguma coisa à espera para ser encontrada e que nos vai surpreender.”

Tesouros escondidos da Muralha de Adriano

Usei a cruz do meu pai à volta do pescoço de costa a costa, com o seu peso delicado a saltitar sobre o meu peito enquanto passava por fortalezas, incluindo os fortes de Housesteads, Chesters, Vindolanda e Segedunum.

Estes fortes são os mais acessíveis ao longo do caminho, com os seus relvados bem cuidados e museus repletos de visitantes. Alguns visitantes usam capacetes romanos de plástico, outros bebem em copos que fazem alusão à muralha.

Mas para Raven Todd DaSilva e para mim, os momentos altos de uma semana passada nas sombras do passado são mais subtis do que meros souvenirs.

São memórias de montes de terra enlameados ao longo de prados, memórias de relevos de pedra banhados pelo sol no Templo de Mitra. São momentos de tranquilidade a caminhar pelo trilho, quando a linha que separava o que as pessoas viam há 2.000 anos e o que estávamos a ver agora era muito ténue. Estes momentos incluem o encontro inesquecível com as primeiras secções selvagens da Muralha de Adriano, a poucos quilómetros das ruas de betão onde esta antiga fortificação está mais uma vez nas notícias.

Plano de Viagem

O Caminho da Muralha de Adriano percorre 117 quilómetros entre os trilhos perto do Mar do Norte e o Mar da Irlanda; se caminhar do trilho nacional do Reino Unido até Wallsend, para visitar o Forte Romano de Arbeia South Shields, adiciona cerca de oito quilómetros à jornada. Esta caminhada demora em média cerca de cinco a sete dias.

A maioria dos caminhantes percorre a rota a partir de oeste em direção a leste, terminando em Newcastle. A rota leste-oeste até Bowness-on-Solway segue a construção cronológica da muralha e também oferece as melhores vistas, mas é uma caminhada contra o vento.   

Em 2022, as celebrações dos 1.900 anos da muralha incluem uma simulação de ataque noturno ao forte em Chesters, gastronomia e espetáculos ao vivo num jardim iluminado por tochas em Hexham, e um festival Saturnalia ao longo da muralha. Pode obter mais informações sobre as celebrações aqui.   

Os fortes essenciais ao longo da muralha incluem o Forte Romano de Chesters, Vindolanda, Birdoswald e Housesteads. Os locais para acampar ao longo da muralha incluem o Pitch on the Wall, Greencarts, e Winshields Farm. A disponibilidade varia sazonalmente. Os serviços de bagagens para quem prefere não carregar as suas malas estão disponíveis via Hadrian’s Haul.

Joe Sills é um jornalista sediado em Memphis, no Tennessee. Pode encontrá-lo no Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Viagem e Aventuras
Descubra mosaicos e mistério em Mérida, um posto avançado do império romano
Viagem e Aventuras
Explore 13 mil anos de história da humanidade nesta ilha remota da Califórnia
Viagem e Aventuras
Explore os túmulos e palácios destas ‘cidades perdidas’ das Américas
Viagem e Aventuras
10 Destinos para este verão onde pode deixar o carro de parte
Viagem e Aventuras
A poluição está a ameaçar parte da arte rupestre mais antiga do mundo

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados