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A terra da Caverna da Bela Adormecida está a despertar para o turismo

O Kosovo, outrora devastado pela guerra, tem muitas maravilhas naturais, incluindo alguns dos mundos subterrâneos mais impressionantes da Europa.

Publicado 23/03/2022, 12:18
Caverna de Mármore

A Caverna de Mármore, localizada em Gadime, no Kosovo, é apenas uma das inúmeras cavernas que fazem deste país um dos principais locais para a prática de espeleologia.

Fotografia por Arben Llapashtica

Numa manhã de outono perto da vila de Radavc, no Vale de Rugova, no Kosovo, faço uma caminhada por um trilho desde o meu hotel até ao rio White Drin, um habitat vigoroso e gélido de trutas, que flui desde o cume Rusolia dos Alpes Albaneses até quase 160 quilómetros para sul até à Albânia.

As quedas de água deste rio, as maiores do Kosovo, são um espetáculo maravilhoso de cascatas em sucessão. Continuo a caminhar ao longo do trilho por mais 800 metros, passando pelo último desabrochar da época das flores brancas edelvaisse, até chegar aos portões de entrada de uma caverna.

Uma jovem de vinte e poucos anos está sentada numa cabine ali perto. O seu nome é Melisa Bojku, e depois de aceitar dois euros, entrega-me um capacete, caminha com o seu chaveiro até ao portão e juntos esprememo-nos pela boca estreita da caverna. Está frio e húmido no interior. Alguns morcegos voam por cima das nossas cabeças. Um ligeiro odor a guano paira no ar. O chão da caverna está escorregadio, mas não é difícil de navegar, e os seus corredores de calcário estão discretamente iluminados com luzes verdes, amarelas e vermelhas. Este cenário é ao mesmo tempo austero e barroco, parece que estou a entrar numa magnífica catedral de uma divindade primordial.

Melisa Bojku diz que esta caverna foi esculpida hidrologicamente e tem pelo menos dois milhões de anos, e que as estalagmites húmidas ao lado dos nossos pés são meros bebés, provavelmente com cerca de 500 anos de idade, em comparação com as estalactites brilhantes no teto. Melisa refere as listas vermelhas de óxido de ferro enquanto descreve a antiga colisão entre o calcário e a rocha vulcânica. Descendo sem parar, acabamos eventualmente por vislumbrar os contornos escuros de um canal subterrâneo. Mais abaixo, uma enorme, embora invisível, população de grilos subsiste dos insetos atraídos pelo guano de morcego.

Estalactites pendem do teto da Caverna de Mármore, também conhecida por Caverna Gadime. Descoberta em 1966, esta é uma das poucas cavernas geridas pelo governo kosovar.

Fotografia por Bujar Gashi

Melisa Bojku pede desculpa porque não podemos visitar uma sala adicional – contém restos humanos neolíticos com seis mil anos que agora estão a ser examinados por arqueólogos. Uma bala da Primeira Guerra Mundial também foi encontrada aqui, assim como um cachimbo de um homem da mesma época. Também podem haver evidências da presença de soldados da Segunda Guerra Mundial, de acordo com histórias que os habitantes locais contaram a Melisa. Ninguém sabe o que pode aparecer nas escavações.

Estima-se que a caverna abrigue cerca de mil morcegos, representando oito espécies diferentes. “Durante o dia, eles ficam a relaxar”, diz Melisa, acrescentando com um sorriso tímido: “Gosto de vir aqui depois de sair do trabalho, por volta das quatro ou cinco da tarde, só para ficar a ouvi-los a voar em frenesim. Os meus amigos acham que eu sou um bocado estranha.”

Fãs de cavernas

A Caverna da Bela Adormecida, como é agora conhecido o antigo fenómeno geológico de Radavc, foi descoberta pela primeira vez em 1968 por arqueólogos sérvios. Mas não aparecia em qualquer mapa do Kosovo, muito menos era um destino turístico que atrai cerca de 23.000 visitantes por ano, não fosse pelos esforços de Fatos Katallozi, um aventureiro de 57 anos que formou Melisa Bojku, uma estudante perfeitamente normal, para se tornar fã de cavernas.

Fatos Katalozzi é praticamente responsável por estabelecer o Kosovo enquanto um importante local de exploração de cavernas na Europa. A sua história espelha a de muitos outros kosovares que demonstraram uma determinação notável na reconstrução do seu país, que foi devastado pela guerra nas últimas duas décadas.

Embora as cavernas mais famosas do mundo incluam algumas compostas inteiramente de gelo (como a gigante Eisriesenwelt em Werfen, na Áustria) e outras de lava vulcânica (como a Cueva de los Verdes nas Ilhas Canárias), a grande maioria é produzida a partir de calcário poroso.

A região dos Balcãs, com 70% das suas terras compostas por calcário, é assim extremamente abundante em cavernas. A mais famosa também é a maior da Europa: a caverna de Postojna, com 24 quilómetros de extensão, na Eslovénia, que foi descoberta há 200 anos e já atraiu uns impressionantes 38 milhões de visitantes desde então. Na Roménia há algumas cavernas mais profundas do que Postojna, mas grande parte da exploração recente tem sido dedicada às cavernas na Albânia e na Bulgária.

A entrada da Caverna da Rainha emoldura uma vista do Vale de Rugova, no Kosovo. Para chegar a esta caverna, os espeleólogos escalam uma via ferrata até à Ponte Tibetana, que vai dar a um caminho estreito e bem conservado.

Fotografia por Bujar Gashi

Embora o Kosovo seja um pouco mais pequeno do que a Jamaica, é um pequeno paraíso para os amantes da natureza que gostam de montanhas encorpadas e cursos de água translúcidos. O mundo tem sido lento a prestar atenção a esta maravilha. E, para ser sincero, o governo do Kosovo também. Enquanto país mais novo dos Balcãs, para não mencionar o mais pobre e que ainda não recebeu o reconhecimento oficial da vizinha Sérvia, o Kosovo, uma nação marcada pela guerra, tem enfrentado dificuldades para vender uma imagem de local de férias. Este país não tem um Ministério do Turismo, e só tem dois parques nacionais que estão quase completamente sem funcionários. Desta forma, a indústria subdesenvolvida do turismo do Kosovo têm dependido muito da iniciativa de protagonistas locais como Fatos Katallozi.

Encontrei-me com Fatos Katallozi na sua empresa, a Outdoor Kosovo, situada na antiga cidade comercial de ouro e prata de Peja. Esta cidade foi arrasada principalmente pelas tropas sérvias durante a guerra em 1999 e posteriormente reconstruída. O exterior do escritório de Fatos Katallozi ainda revela as marcas de queimaduras dos tempos de guerra.

Esguio e com os traços faciais de um falcão, Fatos Katallozi leva-me até ao seu jipe, que está carregado com equipamentos de espeleologia. Conduzimos em direção a noroeste, longe do trânsito da cidade e mais 20 minutos até ao Vale de Rugova, mergulhando numa cordilheira florestal com uma folhagem vibrante de outono e cataratas que aparentemente saem de todas as fachadas das montanhas.

No cume Hajla, na Montanha Rugova, os alpinistas têm uma vista panorâmica do Kosovo.

Fotografia por Pavel Dudek, Alamy Stock Photo

“Quando eu era criança e fazia montanhismo, tinha sempre muita curiosidade sobre as cavernas”, diz Fatos Katallozi durante o caminho. “Mas não devemos entrar nas cavernas sozinhos e sem luzes adequadas.” Fatos lembra-se de estar num piquenique em família durante um fim de semana em Radavc, num lugar conhecido pelas suas borboletas, raposas, flores edelvaisse e, claro, as suas magníficas quedas de água.

Enquanto estava lá, os aldeões que vendiam mel e nozes locais levaram a família de Fatos Katallozi a visitar a caverna. Fatos ainda se lembra da rajada de ar frio que saía da entrada estreita. A família não entrou, mas aquele menino jurou que um dia o iria fazer.

Passaram-se anos, durante os quais Fatos Katallozi serviu no exército jugoslavo e depois frequentou a faculdade no Kosovo, até que as autoridades sérvias a encerraram por ensinar em língua albanesa, que era proibida sob o regime de Milosevic. Fatos Katallozi mudou-se para Londres durante a guerra, onde trabalhou como engenheiro de manutenção dos caminhos de ferro britânicos. Fatos regressou ao país em 2002 para encontrar a sua cidade de Peja ainda em ruínas. Não havia lugar para ir no Kosovo, exceto para cima. Em vez disso, Fatos Katallozi foi para baixo.

“No Vale de Rugova, descemos até ao maior complexo subterrâneo do país: a Caverna Great Canyon, uma imponente ‘cidade-estado’ composta por pináculos de calcário e galerias ondulantes.”

Em 2005, Fatos e alguns amigos formaram um clube de espeleologia no Kosovo. Fatos fez questão de investigar cavernas em todos os países europeus que visitou, desde a Grécia ao Luxemburgo. Ao fazê-lo, Fatos Katallozi lembrou-se da caverna da sua infância e da sedutora queda de água mesmo ao lado. Fatos regressou ao local, rastejou até ao interior pela primeira vez e, quando ergueu a lanterna, ficou surpreendido com o que viu.

O município de Peja concordou em deixar Fatos Katallozi reaproveitar a caverna local como um local turístico. Fatos elaborou uma proposta para a construção de pontes metálicas, iluminação e um posto de concessão. Em outubro de 2016, uma agência suíça que investe em programas agrícolas e turísticos no Kosovo concedeu-lhe uma pequena bolsa, com o acordo de que contratasse pelo menos três funcionários locais, e um tinha de ser uma mulher. Fatos Katallozi contratou sete pessoas, incluindo Melisa. Fatos Katallozi inaugurou a caverna aos visitantes no mês de abril de 2017, com um novo apelido – “o que é que prefere visitar, a Caverna de Radavc ou a Caverna da Bela Adormecida?” diz Fatos Katallozi com um sorriso.

Mundos ocultos

Fatos Katallozi acrescenta que cada caverna é tão diferente quanto cada corpo humano, cada uma tem as suas próprias peculiaridades históricas, morfológicas, clima e dimensão. No Vale de Rugova, descemos até ao maior complexo subterrâneo do país: a Caverna Great Canyon, uma imponente ‘cidade-estado’ composta por pináculos de calcário e galerias ondulantes, com mais de 12 quilómetros de comprimento e tetos superiores a 300 metros, e quatro lagos subterrâneos que ainda não foram completamente mapeados.

A exploração desta caverna requer meio dia, e uma resistência a condizer. Fatos Katallozi e seu clube são literalmente os guardiões da caverna, com a posse exclusiva da chave de entrada. “É como um labirinto, e sem um guia, perdemo-nos”, diz Fatos, sem precisar de adiantar mais.

Mais fáceis de navegar são as quatro cavernas perto da vila de Kusar, acessíveis através de um trilho na floresta. Envoltas por uma densa folhagem, as quatro cavernas Kusari não são notáveis pelas suas características geológicas, mas sim pelas faixas escuras deixadas pelo fogo ao longo das suas paredes, uma evidência clara da presença de humanos no interior. Fatos Katallozi descobriu vários ossos de mamíferos antigos, sugerindo banquetes familiares. Os habitantes locais – incluindo os pastores que contaram a Fatos Katallozi sobre a existência das cavernas Kusari – continuam a falar sobre o local como se fosse sagrado.

Com a ajuda do presidente da câmara de Kusar, Fatos Katallozi angariou os fundos necessários para construir as escadas e corrimãos para toda a rede de cavernas. Para além disso, Fatos também é responsável pela abertura da Caverna Great Canyon aos visitantes, depois de passar anos com equipas eslovacas e italianas a mapear as suas profundezas.

Tal como acontece como a chamada Caverna da Bela Adormecida, estes são exemplos francamente naturais – um contraste marcante com a Caverna de Mármore, gerida pelo governo kosovar, não muito longe da capital Pristina, com a sua porta de vidro e restaurante, e o caos diário de crianças em idade escolar. O futuro de qualquer país, incluindo o Kosovo, depende em parte da forma como cuidam do seu passado.

Hoje, este aventureiro de Peja continua a perscrutar as montanhas da região oeste do Kosovo, com os olhos atentos a sinais de água a abrir caminho através de calcário, eventos que trazem consigo carbonato de cálcio e outros minerais e que formam fendas que se expandem num mundo oculto de vida. “Estão por toda a parte lá em cima”, diz Fatos Katallozi, enquanto conduzimos em direção à montanha Pashtrik, ao longo da fronteira albanesa. Com uma voz melancólica, Fatos diz que “adorava explorar aquilo. Mas não é seguro.”

Fatos Katallozi explica que foi na batalha de Pashtrik, em 1999, que o Exército de Libertação do Kosovo, auxiliado pelos ataques aéreos da NATO, quebrou finalmente a resistência do exército sérvio, forçando-o a render-se. A montanha continua repleta de bombas da NATO. Parece que a história recente do Kosovo continua a manter, pelo menos por enquanto, a sua história mais antiga longe do alcance.

Robert Draper é escritor colaborador da National Geographic. Pode encontrá-lo no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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