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Viagem e Aventuras

Rio da Grécia que vai dar ao ‘submundo’ atrai agora viajantes que procuram aventura

O Aqueronte, o mítico rio que conduzia ao submundo de Hades, é muito popular para a observação de aves, escalada em rio e prática de tirolesa. Mas será que a região consegue sustentar este turismo?

Por Maria Atmatzidou
Publicado 2/03/2022, 14:46

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O rio Aqueronte flui ao longo de muitas aldeias pitorescas na Grécia, incluindo Glykí, onde atravessa um desfiladeiro deslumbrante.

Fotografia por NONE Harris Dro, NONE Loop Images/Universal Images Group/Getty Images

Na era dos deuses e monstros, os Titãs lutavam contra os Olimpianos pelo controlo do universo. Durante este confronto colossal que durou uma década, os Titãs adquiriam força ao beberem do rio Aqueronte. Irritado com esta atitude, Zeus amaldiçoou o rio, tornando-o negro e amargo – um destino adequado para um dos cinco rios da mitologia grega que alegadamente conduzem ao submundo.

Esta é apenas uma das histórias de origem deste rio. Na vida real, o Aqueronte está longe da sua antiga reputação mitológica – era conhecido por “rio da desgraça”. Este curso fluvial com mais de 50 quilómetros de extensão em Épiro, uma região no noroeste da Grécia, está repleto de vida e encanta turistas com o seu ecossistema diversificado de majestosos desfiladeiros, lagoas e quedas de água. Nas aldeias ribeirinhas, os amantes da natureza podem observar animais selvagens raros, aprender sobre a história da região e, sim, navegar pelo histórico rio.

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Com as suas águas cristalinas e uma história de origem mitológica, o rio Aqueronte tem-se tornado cada vez mais popular entre os turistas nos últimos anos.

Fotografia por Salvatore Laporta, NONE Kontrolab/LightRocket/Getty Images

Mas o aumento recente nas multidões durante a pandemia está a revoltar os habitantes e funcionários governamentais em aldeias turísticas como Ammoudiá e Glykí. Alguns visitantes estão a deixar lixo por todo o lado, a danificar a flora e a perturbar as áreas de nidificação das aves. Agora, com a época de turismo da primavera no horizonte, as autoridades estão a procurar formas de equilibrar o aumento de visitantes com sustentabilidade. Em risco estão os animais e os espaços naturais ameaçados da região, algo que os habitantes locais estão determinados a preservar para as gerações futuras.

Mito, história e muito mais

O rio Aqueronte nasce nas montanhas de Tomaros, na província de Ioannina, e flui para oeste até à aldeia piscatória de Ammoudiá, onde se estende até um delta, antes de desaguar no mar Jónico. Muitas das aldeias ao longo do caminho oferecem acesso ao rio, mas a maioria dos viajantes define os seus itinerários com direção às aldeias de Ammoudiá, Mesopótamos e Glykí.

Entre estas três aldeias, Mesopótamos é a que está mais ligada à mitologia do rio. Este vilarejo, localizado a apenas cinco quilómetros a leste de Ammoudiá, abriga o que outrora era o lago Aquerusiano, considerado uma entrada para o submundo de Hades. De 1958 até 1977, Sotirios Dakaris, professor de arqueologia da Universidade de Ioannina, escavou as margens noroeste do lago e descobriu ruínas que datam do período helénico (finais do século IV até finais do século III a.C.). As ruínas foram identificadas como sendo o Necromanteion, ou o Oráculo dos Mortos.

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Nesta gravura do século XVIII, Plutão e Perséfone (em cima, à esquerda) observam Hades, o submundo da mitologia grega. Caronte, o barqueiro dos mortos, navega pelo rio Estige, enquanto Cerberus, o cão de três cabeças, guarda a entrada da terra dos mortos.

Fotografia por NONE Ann Ronan Picture Library, NONE Heritage Images/Getty Images

Há milénios, o Necromanteion (ou Nekromanteion) já era mencionado na Odisseia de Homero, onde Ulisses se reuniu por breves momentos com as almas de muitas pessoas, incluindo da sua mãe, nas margens do rio Aqueronte. Tal como o herói de Homero, os antigos peregrinos gregos também faziam esta árdua viagem ao oráculo para comunicarem diretamente com os falecidos.

“O mundo dos mortos era considerado muito perigoso”, diz Anthi Aggeli, diretor do Eforato de Antiguidades de Preveza e especialista em história local. “Portanto, os peregrinos tinham de estar limpos de corpo e alma. E tinham de seguir uma cerimónia de limpeza específica.”

Os peregrinos geralmente ficavam no Necromanteion “durante um mês lunar”, diz Spyros Raptis, presidente da organização Amigos de Necromanteion e Aqueronte e guia turístico na região há 35 anos. “Eles comiam alimentos específicos – incluindo plantas alucinogénias – e realizavam rituais na escuridão. Durante a sua estadia, os crentes afirmavam ver sombras dos seus entes queridos falecidos.”

Os especialistas continuam a debater se este local é realmente o lendário Necromanteion ou uma divisão antiga de uma quinta, mas continua a fascinar, sobretudo depois de os testes de som realizados entre 1997 e 2008 por investigadores da Universidade Aristóteles de Tessalónica terem concluído que esta câmara subterrânea é de facto “silenciosa”. Mesmo que não seja o antigo Necromanteion, “é certamente uma câmara anecóica primitiva construída há 2.700 anos”, afirma Panagiotis Karampatzakis, um dos investigadores.

Os viajantes da atualidade podem combinar uma visita a estas ruínas com uma passagem pela aldeia de Ammoudiá, onde os passeios de barco exploram os pantanais ao longo do rio com os seus nenúfares, libelinhas de cor esmeralda e árvores decoradas com ninhos de aves Remiz pendulinus. É fascinante, diz o guia turístico Giorgos Bitzios, barqueiro em Amoudiá.

A aldeia de Glykí, que fica a cerca de 20 quilómetros a montante de Ammoudiá, é conhecida pelas suas aventuras emocionantes, como canyoning e escalada em rio – uma atividade popular na Ásia que combina natação e escalada de pedregulhos – até um desfiladeiro conhecido por Estreito.

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A aldeia de Glykí tornou-se num destino muito popular para a prática de canoagem e escalada em rio, no rio Aqueronte.

Fotografia por NONE Droneworx TS, NONE Alamy Stock Photo

Outros aventureiros rasgam os céus em tirolesas com a ajuda da Zipline Greece, deslizando cerca 320 metros a velocidades de até 50 km por hora sobre águas azuis-turquesa. Mas nem tudo é aventura. “O Aqueronte é um rio ameno [no verão]”, diz Vivi Markou, que começou o seu negócio de turismo, a empresa Riverdream, com duas canoas e dois cavalos. “A canoagem aqui [em Glykí] acomoda todos os níveis de experiência. É ideal tanto para famílias como para as pessoas mais velhas.”

Natureza – e desafios

Para além da miríade de atividades ao ar livre, o Aqueronte abriga habitats únicos com animais e plantas raras que estão em perigo de extinção na região. As aves vulneráveis, incluindo águias-reais, grifos-eurasiáticos, águias-de-bonelli e abutres-egípcios, nidificam no chamado Estreito de Glykí, enquanto os colhereiros-europeus, cegonhas-pretas e patos zarros-pardos se abrigam nos pântanos de Ammoudiá. Ao todo, os 4.630 hectares que abrangem o Estreito e os pântanos fazem parte da rede de áreas protegidas NATURA 2000 da Comissão Europeia.

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O rio Aqueronte abriga muitos animais selvagens que estão ameaçados de extinção, incluindo grifos-eurasiáticos (na imagem a nidificar).

Fotografia por NONE David Havel, NONE Alamy Stock Photo

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Águia-de-bonelli fotografada a voar.

Fotografia por NONE Age of Stock, NONE Alamy Stock Photo

O turismo só se tornou numa atividade económica viável na região em 2006, quando a construção de estâncias turísticas e autoestradas nas proximidades deu acesso a aldeias isoladas como Glykí. Em 2019, a região foi visitada por cerca de 50.000 pessoas, principalmente entre abril e setembro, impulsionando Glykí como um destino vital para o turismo do rio Aqueronte. Com melhores oportunidades, a maioria dos jovens fica agora nas aldeias para trabalhar nos negócios locais.

(Como a escalada desportiva está a ajudar a revitalizar uma ilha grega.)

A popularidade da região também parece estar a aumentar. No verão passado, durante a pandemia, as visitas à região aumentaram para os quase 2.000 visitantes diários, “algo muito promissor para a próxima época”, diz Giorgos Ntagkas, vice-presidente do departamento de cultura, desporto e comércio do município de Souli. “O nosso objetivo é prolongar a época turística e desenvolver ainda mais as atividades ao ar livre, melhorar os trilhos, abrir rotas para as bicicletas de montanha e junto ao rio e promover a prática de parapente.”

Contudo, as autoridades precisam agora de lidar com o aumento dos efeitos secundários do turismo. Os visitantes estão cada vez mais a sair dos trilhos estabelecidos, a deixar lixo por todo o lado, a acampar e a acender fogueiras. Recentemente, os vários ramos cortados de plátanos deixaram-nos vulneráveis a um fungo perigoso.

Como se não bastasse, alguns dos projetos de construção de restaurantes em Glykí estão a ter impactos no leito do rio, enquanto as cantinas à beira-mar (negócios semelhantes a pastelarias) em Ammoudiá provocaram a destruição de dunas e o abate de árvores de zimbro e arbustos.

As autoridades já estão atentas aos problemas no planeamento futuro. “Estamos a estudar a capacidade de lotação [no Estreito e arredores]… para que o ecossistema não se deteriore”, diz Alexandros Konstantinis, gestor ambiental do Corpo Administrativo de Kalamas-Aqueronte-Corfu.

Como este estudo ainda está em andamento, é demasiado cedo para afirmar conclusivamente quais serão as mudanças implementadas ainda este ano. Enquanto isso, as autoridades afirmam que já estão a aplicar os regulamentos existentes e a aumentar a sensibilização com centros de informação em Ammoudiá e Glykí, e com eventos educacionais por toda a região que destacam o património histórico e natural de Aqueronte.

As autoridades esperam que, com passar do tempo, as novas iniciativas sensibilizem um público mais vasto, para que a biodiversidade preciosa do rio não se torne também ela num mito.

“Queremos que os visitantes venham pela beleza desta paisagem”, enfatiza Giorgos Ntagkas, do município de Souli. “Como é óbvio, não pretendemos sacrificar a natureza em detrimento do lucro.”

Maria Atmatzidou é uma escritora sediada em Atenas que cobre viagens e arqueologia. Maria Atmatzidou foi editora-chefe das edições gregas das revistas National Geographic e National Geographic Kids. Siga-a no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com