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Neste microestado europeu, os aventureiros estão a contribuir para a ciência

Na pequena Andorra, pode explorar cumes irregulares, vales florestais e lagos glaciares – e ajudar os investigadores a estudar as alterações climáticas.

O pôr do sol sobre o Vale de Madriu-Perafita-Claror, Património Mundial da UNESCO em Andorra. Este pequeno país escondido nos Pirenéus atrai viajantes que gostam de esquiar, caminhar, escalar e também gostam de se voluntariar para ajudar a ciência.

Fotografia por Jaime Rojo
Por Brooke Sabin
Publicado 14/07/2022, 16:27

O passarinho que seguro na mão parece frágil como vidro. Respiro fundo, concentro-me na faixa amarela brilhante que a ave tem por cima dos olhos e penso nas instruções que recebi: segurar as pernas entre os dedos com firmeza, mas suavemente, e colocar a outra mão por baixo. E depois libertar o pássaro.

Assim que o faço, a estrelinha-de-popa – a ave canora mais pequena da Europa – levanta voo e desaparece sobre os picos escarpados dos Pirenéus.

Estou num prado exuberante nas montanhas de um país que muitos americanos nem sequer sabem que existe: Andorra. Este nome evoca uma terra mítica de encanto povoada por duendes e fadas. Mas Andorra é de facto um lugar real onde os viajantes podem ajudar a fazer ciência real.

Uma camurça fêmea e a sua cria estão no topo de um cume. As camurças, um tipo de antílope-cabra nativo dos Pirenéus, podem ser vistas pelos caminhantes e muitas vezes são apanhadas pelas armadilhas fotográficas de pesquisa.

Fotografia por Jaime Rojo

Juntei-me a um pequeno grupo de voluntários numa expedição de nove dias realizada pela organização sem fins lucrativos Earthwatch, uma organização com 51 anos que envia voluntários para ajudar em investigações pelo mundo inteiro, quer seja para ajudar em arqueologia em Itália ou na conservação de rinocerontes na África do Sul.

Aqui em Andorra, um microestado aninhado na cordilheira dos Pirenéus, entre França e Espanha, o ecologista Bernat Claramunt-López está numa jornada ambiciosa: um estudo de vários anos sobre praticamente todas as partes deste frágil ecossistema alpino – desde organismos microscópicos no solo a pinheiros imponentes – para determinar os efeitos das alterações climáticas.

Embora o efeito mais óbvio seja o degelo dos glaciares, sabe-se pouco sobre o impacto nas plantas, animais e nas suas teias de vida intrincadamente relacionadas. Espera-se que os resultados deste estudo ajudem a moldar as políticas de conservação em Andorra e mais além.

Mas Bernat Claramunt-López não consegue fazer este trabalho sozinho, contando assim com voluntários, também conhecidos por cientistas cidadãos. Desde que o seu projeto começou em 2016, os voluntários já contribuíram com cerca de 15.000 horas de trabalho. “Mais mãos no campo significam mais dados e, na ciência, precisamos de dados”, diz Bernat.

Igualmente importante é a oportunidade para quebrar as barreiras entre a ciência e o público. Publicar apenas os artigos científicos já não é suficiente, diz Bernat Claramunt-López. “Porque posso partilhar o que sei, ou o que descobrimos neste projeto, diretamente com a sociedade.”

Esquerda: Superior:

No Vale do Rialb, um destino popular para caminhadas, o investigador principal Bernat Claramunt-López mede as mudas de árvores para avaliar o crescimento dos chamados pinheiros negros e pinheiros escoceses em várias elevações.

Fotografia por Tricia Harris
Direita: Fundo:

A voluntária Tricia Harris verifica uma caixa de ninho para ver se os pássaros fizeram um lar no interior e, eventualmente, ajudar a determinar se os padrões de reprodução das aves estão a mudar.

Fotografia por Oriol Palau

Para os voluntários, é uma oportunidade para descobrir um destino de uma forma que os afasta das típicas rotas turísticas, para conhecer pessoas de todas as origens e contribuir para investigações que visam proteger o planeta. Por outras palavras, viajar com um propósito.

Lagos, vales e cumes

Como não há aeroportos ou estações de comboio em Andorra, um país de 468 quilómetros quadrados, o ponto de encontro com os meus colegas voluntários para a expedição de setembro de 2021 é feito em Barcelona. Tricia Harris, diretora de projeto de uma empresa de alta tecnologia sediada em Londres, e Tim Hoffman, engenheiro que produz peças para a Marinha dos EUA em Lexington, no Massachusetts, estão vacinados, com máscara e prontos para enfrentar a montanha com botas de caminhada.

Ambos são devotos às viagens de voluntariado, mas nunca estiveram em Andorra. Eu também não sabia nada sobre este lugar até me juntar a esta expedição em 2017. Conforme o nosso autocarro entra em Andorra e ficamos rodeados por montanhas de tons verde-esmeralda, interrogo-me como é que um país tão antigo e tão bonito pode estar tão distante do radar de viagens dos americanos.

Pinheiros negros cobrem o Coll d'Ordino. As montanhas são bons lugares para investigar os efeitos climáticos devido à compressão climática – porque as condições ambientais mudam em distâncias relativamente curtas. “As mudanças são mais fáceis de observar”, diz Bernat Claramunt-López. “Só precisamos de escalar!”

Fotografia por Jaime Rojo
Esquerda: Superior:

Na Reserva da Biosfera de Ordino, onde é feita toda a investigação, a flora brota por todo o lado. Uma espécie comum é a rosa alpina, uma espécie de rododendro.

Direita: Fundo:

As flores Epilobium angustifolium de cores roxas cobrem uma encosta rochosa do Parque Natural do Vale de Sorteny, localizado na reserva. Este parque, que abriga dois dos locais de estudo, alberga mais de 800 espécies de plantas.

fotografias de Jaime Rojo

Fundada em 1278, Andorra é a única nação do mundo cuja língua oficial é o catalão e a única que é um coprincipado. Este território é liderado oficialmente pelo bispo de Urgell, em Espanha, e pelo presidente de França, embora a maior parte do poder resida agora no parlamento eleito.

Com os seus cumes irregulares, vales florestais e lagos glaciares cristalinos, Andorra atrai de facto muitos visitantes, sobretudo vindos de outros países europeus. Muitos destes viajantes optam pelas pistas de esqui ou fazem caminhadas pelos trilhos, que variam entre passeios de uma para toda a família a caminhadas mais exigentes ao longo de vários dias, com as cabanas de montanha a oferecer acomodações rústicas.

(Onde encontrar aventuras épicas nas aldeias mais espetaculares da Europa.)

Os locais culturais, como por exemplo a casa museu Rull, que revela como era a vida na aldeia entre finais do século XIX e início do século XX, e a Forja Rossell de 1842, oferecem janelas para o passado difícil do país. Os luxos da atualidade podem ser encontrados na cidade capital de Andorra-a-Velha, onde se encontra a maior estância termal do sul da Europa e uma variedade de oportunidades para fazer compras com uma taxa fiscal reduzida.

Porém, para Bernat Claramunt-López, o fascínio de Andorra reside nas suas paisagens naturais. Este homem magro de 53 anos percorre os Pirenéus desde que era criança na Catalunha. “Estudei biologia porque queria estar nas montanhas a observar os pássaros, as plantas e a natureza”, diz Bernat.

“Interrogo-me como é que um país tão antigo e tão bonito pode estar tão distante do radar de viagens dos americanos.”

por Bernat Claramunt-López

Agora, Bernat é o coordenador da Rede Europeia de Pesquisa de Montanha e, enquanto investigador do Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais da Universidade Autónoma de Barcelona, onde também leciona, lidera cerca de nove expedições por ano em Andorra.

Explorar a biodiversidade alpina

No nosso primeiro dia de trabalho, acordamos antes do nascer do sol sobre El Serrat, uma vila de pedra no noroeste de Andorra, onde o Hotel Bringué, um negócio familiar, serve de acampamento base. Juntamente com Bernat Claramunt-López e dois técnicos de campo – os biólogos Jana Marco, de Alicante, em Espanha, e Oriol Palau, da Catalunha – carregamos as nossas mochilas com as necessidades para o dia: fitas métricas, redes, cordas, postes, pinças, cadernos, portáteis, água e sandes.

Como esta é a primeira expedição desde as paralisações devido à pandemia e há menos voluntários do que os habituais 8 a 12, temos muito trabalho para fazer.

Para cobrir mais terreno, formamos equipas de duas pessoas, um voluntário com um cientista, e realizamos tarefas diferentes. Jana Marco e eu ficamos com os pequenos mamíferos. A nossa missão é verificar uma parcela onde foram instaladas armadilhas para avaliar a diversidade e abundância de animais. Um passeio por uma estrada sinuosa onde mal cabem dois carros leva-nos até um prado ladeado por pequenos riachos. Sigo atrás de Jana Marco enquanto ela saltita entre os riachos, com o seu rabo de cavalo a balançar, para alcançar a primeira de 36 armadilhas dispostas ao longo de uma encosta escorregadia cheia de orvalho.

Um tetraz-grande macho percorre as florestas de Andorra, onde cientistas cidadãos estão a ajudar a documentar e a proteger a biodiversidade.

Fotografia por Jaime Rojo
Esquerda: Superior:

Esta almofada rosa, ou musgo, é uma flor silvestre perene que sobrevive num cume exposto na Reserva da Biosfera de Ordino.

Direita: Fundo:

Perto da cidade de El Pas de la Casa, os lírios amarelos das montanhas florescem com um aroma almiscarado distinto.

fotografias de Jaime Rojo

Cada uma de nós escolhe uma rota, encontrando as caixas de metal nos esconderijos perto de uma pilha de pedras ou monte de relva, à procura de uma porta fechada, o que pode significar que um animal, como um rato-dos-pomares ou das neves, está no seu interior. Passados alguns minutos, grito animadamente “fechado!” Jana Marco corre e abre suavemente a porta. Infelizmente, a armadilha está vazia, assim como as outras. Desapontada, mas destemida, Jana Marco lidera o caminho montanha acima até ao local principal de pesquisa do dia.

Cerca de uma hora depois, chegamos a um planalto de alta altitude. Localizado na linha das árvores perto de um lago glaciar de águas cristalinas, este local oferece vistas deslumbrantes sobre a Reserva da Biosfera de Ordino, uma zona de 8,463 hectares reconhecida pela UNESCO pela sua diversidade ecológica, e protege espécies em declínio como o abutre-barbudo.

Primeiro, recolhemos as câmaras fotográficas remotas para estas não sofrerem danos durante o inverno. As fotografias são posteriormente analisadas para verificar o número e tipos de animais captados nas imagens, provavelmente raposas-vermelhas, camurças, veados, javalis, marmotas e uma vasta seleção de cavalos.

Para alcançar as cinco armadilhas fotográficas mais distantes, atravessamos o topo da montanha, navegando por zonas íngremes onde nos agarramos às moitas ou às extremidades de rochas para nos segurarmos. Quando vacilo numa secção particularmente sinuosa, Jana Marco agarra a minha mão e ajuda-me a atravessá-la.

Na região leste de Andorra, a montanha Pic de Setut eleva-se a mais de 2,740 metros.

Fotografia por Jaime Rojo

Depois, tentamos localizar os pinheiros negros que têm uma faixa de metal dendrómetro, registamos o seu crescimento e verificamos as caixas dos ninhos dos pássaros antes de descermos por um riacho frenético para nos reunirmos com o resto do grupo numa encosta relvada.

Jana Marco, que tem uma licença especial de anilhamento de aves, ensina-nos a montar as redes de neblina. Depois, Jana coloca uma gravação de cantos de aves e nós aguardamos. Não demora muito tempo. Em menos de nada, temos uma estrelinha-de-popa e duas aves canoras um pouco maiores — um chapim-carvoeiro e uma toutinegra-de-barrete

Enquanto observamos, Jana Marco coloca anilhas de identificação nas aves, inspeciona as penas e pesa cada pássaro. E também sopra na barriga de cada ave para revelar a pele nua, para conseguir avaliar os níveis de gordura e músculo. Registo loucamente todas as informações num caderno, e depois Tricia Harris, Tim Hoffman e eu revezamo-nos na libertação das aves. Sempre que um destes pássaros voa em liberdade, parece magia.

Numa aventura científica

Nos dias seguintes, alternamos de parceiros, separamo-nos e reagrupamo-nos à medida que completamos os locais de pesquisa restantes. Entre caminhar, fazer medições e tirar anotações, damos  por nós num ritmo que faz todas as outras preocupações desaparecer. O nosso mundo inteiro parece estar aqui com estas pessoas nestas montanhas.

Todas as noites, durante o jantar no hotel – onde nos deliciamos com as iguarias locais, como o trinxat, uma mistura de batata com repolho e carne de porco, e crema catalana, uma sobremesa cremosa – fazemos a revisão do dia.

Tricia Harris e Jana Marco contam-nos as suas proezas aviárias – anilharam 20 aves em duas horas. “Apareceram tantos pássaros”, diz Tricia Harris, “e continuaram a vir mesmo enquanto estávamos a recolher os que apanhávamos”. Bernat Claramunt-López e eu descrevemos o misterioso som de um assobio que nos fez parar a meio da medição de mudas de árvores. (A imagem de um duende passou rapidamente pela minha mente.) E todos nos rimos do rato-dos-pomares que aparece todos os dias na mesma armadilha para se aconchegar na cama de algodão.

E também estamos maravilhados pela forma como Tim Hoffman, que ainda está a recuperar de uma cirurgia ao joelho, está a lidar com este terreno desafiador. O facto de os cientistas nunca parecerem ver impedimentos, só oportunidades – e terem um entusiasmo contagiante – também ajuda.

Esquerda: Superior:

O rio Madriu flui perto da aldeia de Entremesaigües, no Vale Madriu-Perafita-Claror, reconhecido pela UNESCO.

Direita: Fundo:

O musgo adiciona tons brilhantes ao Parque Natural do Vale de Sorteny.

fotografias de Jaime Rojo

Os visitantes do Parque Natural do Vale de Sorteny podem explorar os seus 1,080 hectares montanhosos por conta própria ou em excursões guiadas para observar a vida selvagem e os lagos glaciares. Uma estalagem oferece acomodações para comer e dormir.

Fotografia por Jaime Rojo

“Esta expedição não é apenas ciência; é ciência com pessoas”, diz Jana Marco. “E esta combinação, creio eu, é simplesmente perfeita.”

No dia de folga, levamos com uma dose de cultura de Andorra quando Bernat Claramunt-López nos leva a visitar uma das várias igrejas históricas que pontilham a paisagem. Construída entre os séculos VIII e XII, a singela construção de pedra da Igreja de Santa Coloma apresenta uma torre sineira redonda que outrora era utilizada como meio de comunicação com as outras aldeias serranas. Os elaborados afrescos no interior, saqueados em 1930, já foram recuperados.

No final da expedição, escalámos 12 montanhas, recuperámos 60 câmaras, verificámos 108 caixas-ninho, marcámos 35 pequenos mamíferos, anilhámos 74 aves e medimos mais de mil árvores. Estamos cansados, mas também estamos surpreendentemente rejuvenescidos, sabendo que o nosso trabalho árduo faz diferença.

Já há algumas tendências a surgir desta pesquisa, diz Bernat Claramunt-López. Parece haver um aumento na atividade microbiana no solo, o que significa que há mais carbono a ser libertado na atmosfera. Para além disso, as árvores nas altas altitudes, onde é mais frio e ventoso, estão a crescer a um ritmo mais acelerado do que as árvores nas altitudes baixas. Isto provavelmente é o resultado, pelo menos em parte, da subida das temperaturas.

No último dia, enquanto atravessamos um enorme vale montanhoso, onde a folhagem está a começar a ficar com as cores outonais, penso nas paisagens que percorremos, na vida selvagem que vimos, nas nuances culturais que aprendemos.

Apesar de a expedição durar menos de duas semanas, os seus efeitos perduram, e não apenas no que diz respeito à investigação. Tim Hoffman resume bem as coisas quando diz que isto lhe deu “uma nova perspetiva e inspiração sobre a forma como quero viver a minha vida”.

Andorra, ao que parece, até pode estar realmente encantada.

Como viajar em voluntariado científico

“A organização Wildlife in the Changing Andorran Pyrenees aceita voluntários para expedições na primavera, verão e outono. A organização Earthwatch opera cerca de 30 viagens de ciência de cidadania adicionais pelo mundo inteiro. Há outras oportunidades de voluntariado mais distantes oferecidas pela Biosphere Expeditions e Adventure Scientists. A Nature Conservancy também realiza projetos nos EUA e noutros países. Para aprender mais sobre ciência de cidadania e descobrir mais de 3000 projetos, visite o SciStarter, fundado pela exploradora da National Geographic Darlene Cavalier.

Brooke Sabin é editora da National Geographic. Pode encontrá-la no Instagram.

O fotógrafo Jaime Rojo é Explorador da National Geographic.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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