Estas Comunidades Criam Tapetes a Partir de Redes de Pesca

A exploradora Heather Koldewey ajuda pessoas nas Filipinas, além de contribuir para a remoção de plástico nos oceanos, começando pelas redes de pesca deixadas ao abandono.quarta-feira, 4 de julho de 2018

Por Laura Parker
Crianças brincam num aterro sanitário em Bohol, nas Filipinas. Durante as marés cheias e as chuvas, os resíduos do aterro espalham-se pelas águas. As Filipinas são o polo mundial da biodiversidade marinha, mas ocupam a terceira posição, a seguir à China e à Indonésia, como o país mais poluente das águas oceânicas.
Todos os anos, a National Geographic junta exploradores, cientistas e contadores de histórias de todo o mundo para partilharem as suas descobertas, visões e soluções, com o objetivo de criar um futuro mais sustentável. Saiba mais sobre o Festival de Exploradores e assista em direto ao feed do evento. Leia mais histórias de exploradores e junte-se à conversa com #NatGeoFest.

O Danajon Bank, situado no grupo central das Filipinas, foi outrora um tesouro geológico rico em vida marinha. É uma formação geológica rara, bem como a única barreira de coral dupla nas Filipinas e uma das seis existentes no mundo. A atividade piscatória na zona registou um aumento de 240% por cento desde 1960, segundo um estudo recente, levando os pescadores a adotar técnicas cada vez mais desesperadas na captura de peixe cada vez mais escasso.

À medida que a população de peixes diminuiu, o número de redes lançadas às águas para a captura de peixe aumentou. Não demorou muito até que as redes de pesca deixadas ao abandono se amontoassem às toneladas nas praias e nas raízes rugosas dos mangais. Longe da costa, as chamadas redes fantasma flutuam à deriva durante anos, aprisionando peixes, esponjas, caranguejos e pepinos do mar, ou afundam sobre os delicados recifes, asfixiando os corais.

Atualmente, os mesmos pescadores que outrora apanhavam quimeras e caranguejos azuis nas suas redes, retiram-nas agora das águas do oceano. Trabalham ao abrigo de um promissor programa de recolha de redes, com o duplo objetivo de providenciar um salário que permita assegurar a subsistência, e contribuir, simultaneamente, para a recuperação de um ecossistema destruído. NetWorks, desenvolvido em parte pela Zoological Society of London, é um dos muitos programas em países costeiros, que visa combater o problema das redes perdidas ou abandonadas, que se tem acentuado nos últimos anos, e os danos que causam.

A indústria de reciclagem do equipamento de pesca é ainda relativamente jovem, não tendo acompanhado os esforços para manter o plástico fora dos oceanos até recentemente, ainda que a introdução das redes de nylon tenha transformado a indústria pesqueira no final da década de 1970, contribuindo para o aumento da escala e eficiência da atividade piscatória a nível global.

“Penso que as redes são postas de lado, uma vez que são mais difíceis de manusear para o público em geral do que as garrafas, as palhinhas e os sacos de plástico e porque são da responsabilidade da indústria pesqueira”, diz Heather Koldewey, cientista marinha e responsável pelos programas globais da Zoological Society of London. “É um problema que requer uma solução diferente da gestão de resíduos terrestres para reduzir o volume de plástico, que acaba nos oceanos”, diz Koldewey, também ela um membro da National Geographic.

Mas o problema é real. Mais de 705 000 toneladas de redes de pesca são perdidas anualmente, segundo as estatísticas mais recentes das Nações Unidas, publicadas em 2009. Na Grande Ilha de Lixo do Pacífico, quase metade do peso dos detritos à superfície são equipamentos de pesca, de acordo com um estudo de 2017 de Laurent Levrenton, um oceanógrafo da Ocean Cleanup Foundation.

GRANDE IMPACTO

Bem feitas as contas, os equipamentos de pesca constituem cerca de 10 por cento dos resíduos plásticos presentes nos oceanos, sendo responsáveis por um número desmedido de mortes de formas de vida marinha. Mais de 100 000 grandes baleias, leões marinhos e focas são mortos todos os anos, segundo a World Animal Protection, bem como um número “inestimável” de aves marinhas, tartarugas e peixes.

Heather Koldewey, membro da National Geographic e exploradora, trabalha com a Zoological Society of London para ajudar as comunidades a recolher plástico dos oceanos.

As tartarugas são especialmente vulneráveis ao enredamento. Na Austrália, onde habitam seis das espécies de tartarugas marinhas, com maior risco de extinção no mundo, é grande a probabilidade de uma tartaruga marinha morrer por enredamento numa rede de pesca abandonada, segundo a pesquisa de Denise Hardesty e Chris Wilcox, cientistas de investigação da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organization, na sigla inglesa CSIRO, na Austrália.

No Golfo da Carpentaria, que abrange Queensland e o Território do Norte na Austrália, redes de pesca perdidas ou abandonadas dão à costa, com uma das maiores densidades no mundo — até cerca de 2700 quilos por quilómetro ao ano. Hardesty chama às redes “armadilhas flutuantes,” e cita exemplos de vários lugares à volta do globo. Quando 870 redes fantasma foram recuperadas no estado de Washington, por exemplo, continham mais de 32 000 animais marinhos, incluindo mais de 500 aves e mamíferos.

A World Animal Protection estima que entre 30 a 40 seres marinhos possam ficar presos numa única rede. A forma como estas redes são perdidas pode variar drasticamente numa mesma região, dependendo das condições meteorológicas e marítimas, do vandalismo ou roubo, ou da legalidade da atividade piscatória. A título de exemplo, no norte da Espanha, um operador pesqueiro, que usa redes de emalhar, perde cerca de 2000 redes por ano, enquanto outro com um método piscatório idêntico, perde cerca de 100 redes por ano

Um pouco por todo o mundo, desde a Grécia passando pelo Mar do Norte à Nova Zelândia, nas regiões litorais, estão a ser implementados programas de recuperação de redes de pesca.

AJUDANDO AS PESSOAS, TAMBÉM

Uma mulher filipina limpa as redes abandonadas para vender, sendo reciclada, posteriormente, no estrangeiro.

A formação geológica de Danajon Bank, com uma extensão de 156 quilómetros, situada entre as ilhas de Bohol, Leyte e Cebu, que integram o grupo central das Filipinas, era o berço de toda a vida marinha do Pacífico. Em face da diminuição da população de peixes, muitos pescadores das aldeias das ilhas viram-se forçados a abandonar a sua profissão. A iniciativa NetWorks chegou às ilhas em 2012, implementando um programa pioneiro de recuperação de redes. Mas, à semelhança de muitas regiões pobres e considerando que mais de 60 por cento das famílias de pescadores locais vive abaixo do limiar da pobreza nos Estados Unidos, para salvar as espécies marinhas em risco, os cientistas tinham de ajudar as famílias, cujo sustento provinha do mar há gerações.

O programa de recuperação de redes permitiria não apenas limpar o oceano, como também contribuiria para gerar emprego. Antigos pescadores mergulham à procura de redes e trazem-nas para a costa. Estas são transportadas para uma estação de compactação na ilha de Bohol, onde adquirem a forma de cubos compactos, enviadas depois para a Aquafil, uma empresa de reciclagem de redes, situada na Eslovénia, que compra redes de pesca em todo o mundo para as transformar em fio de nylon. Este material, por sua vez, é utilizado por fabricantes de tapetes nos Estados Unidos.

Elementos da comunidade encontram-se com a exploradora da National Geographic Heather Koldewey, na imagem à direita, para discutir formas de obter receitas através da transformação de resíduos.

“Nós aliamos a conservação marinha ao modelo de negócio, que integra as comunidades marginalizadas de países em desenvolvimento na cadeia de fornecimento à escala global”, diz Koldewey.

O objetivo é erguer um negócio autossustentável. Até agora, o programa tem sido promissor o suficiente para levar a NetWorks a expandir-se para um segundo centro nas Filipinas, para os Camarões na África Central e ainda a Indonésia.

“Este trabalho faz parte de uma estratégia mais ampla para mudar a perspetiva do público relativamente aos plásticos. Não é necessário deitá-los fora, porque é possível obter um benefício económico a partir da reciclagem deste material”, diz Amado Blanco, enquanto faz uma viagem de quatro horas numa embarcação típica da Polinésia, desde Cebu até à pequena ilha de Guidacpan, onde pescadores de terceira geração têm vindo a formar parte de uma rede de empreendedores à escala global.

Blanco tem sido responsável pela gestão de projetos nas Filipinas, ao abrigo do programa, durante tempo suficiente para assistir a mudança de atitudes.

Koldewey conhece as gentes da localidade de Bohol.

“As pessoas já não queimam as redes”, diz Blanco. “Assim como já não as atiram para a costa ou para o chão. Hoje, colocam-nas em sacos e vendem-nas.”

Este artigo faz parte da campanha da National Geographic, Planeta ou Plástico? — o nosso esforço para alertar sobre a poluição dos plásticos em todo o mundo. Saiba o que pode fazer para reduzir a sua utilização de plásticos de uso único, e assuma este compromisso.
Continuar a Ler