Este Museu Celebra os Corações Partidos

Histórias de amor e de sofrimento do mundo inteiro compõem o Museu dos Corações Partidos.segunda-feira, 9 de julho de 2018

Por Christine Blau
Este gnomo de jardim, objeto de arremesso no dia em que um casamento de 20 anos terminou, pertence agora ao Museu dos Corações Partidos em Zagreb, na Croácia.

O Museu dos Corações Partidos situa-se entre a Igreja de São Marcos e a de Santa Catarina, na zona alta da cidade de Zagreb. Aos sábados, na capital croata, noivas e noivos revezam-se para tirar fotografias em frente destes cenários de espiritualidade, enquanto os convidados aproveitam o momento para beber um café no terraço do museu, com uma localização privilegiada. Na zona posterior, atrás da clientela, uma exposição inovadora revela a dor do desgosto amoroso.

A ideia de reunir objetos pessoais associados aos fins das relações amorosas partiu de um antigo casal de artistas croatas, Olinka Vištica, uma produtora cinematográfica, e Dražen Grubišić, um escultor, quando decidiram pôr um ponto final na relação de quatro anos. “É um espaço metafórico que permite deixar as coisas no passado, mas, ainda assim, preservar um vestígio de que aquela relação existiu e de que foi importante”, explica Vištica a propósito da coleção que exibiu na sua residência em 2010, tornando-se no primeiro museu particular em Zagreb. A contribuição dos fundadores do museu para o acervo do desgosto amoroso, financiado por crowdsourcing, foi um coelho de corda, colocado em frente da fotografia do antigo casal, que retrata um momento de férias num deserto perto de Teerão. O brinquedo encontra-se, atualmente, exposto por baixo da placa onde pode ler-se: “Este coelho deveria ter viajado pelo mundo, mas não foi além do Irão”.

Um stiletto evoca o encontro memorável entre uma prostituta e um cliente em Amesterdão, em 1966.
Um rapaz de 13 anos escreveu esta carta ao seu primeiro amor, enquanto fugia de Sarajevo, no início da guerra.

Objetos aparentemente mundanos enchem as salas, mas são acompanhados dos testemunhos originais de quem sofreu com a desilusão amorosa: um gnomo de jardim surge com a descrição do arremesso furioso a que foi sujeito, no dia que marcava o fim de um casamento de 20 anos. O último registo de entradas de um hotel, com o nome de ambos os parceiros, está colocado num expositor perto de um stiletto, que lembra o encontro clandestino, mas memorável, entre uma prostituta e um cliente. Uma carta de despedida da primeira paixão de um adolescente em Sarajevo, no limiar da guerra que levou ao desmembramento da antiga Jugoslávia, celebra mais uma história de amor, que não vingou. Uma bandeira lacerada, sem a metade inferior, drapeja à entrada do museu, enquanto a pequena loja de recordações disponibiliza, sob encomenda, trabalhos de artistas locais, tais como borrachas de má memória e joias feitas de lascas de porcelana partida.

Reunida a partir da contribuição de pessoas em todo o mundo, a coleção reflete diversas perspetivas, desde a fase de amadurecimento até aos laços familiares que falharam. “Nós transformámos o conceito de museu enquanto templo de artefactos históricos. Os museus podem ser sobre si e sobre mim. De certa forma, acrescentámos-lhe um valor mais democrático e introduzimos o amor como uma ferramenta para conhecer melhor o mundo”, afirma Vištica, que tinha encontrado o local perfeito para acolher o museu: o antigo palácio do início do século XX, propriedade do pintor abstrato croata Count Kulmer, onde o funicular dos dias de hoje percorre desde a parte inferior da cidade até ao topo da colina, rodeada por outros pontos culturais da cidade.

Contudo, visitar este museu é uma experiência vivida de uma forma muito pessoal, com uma dimensão de universalidade, tal como descreve Vištica: “É uma experiência íntima num espaço público, e isso é muito raro”. Estima-se que cerca de 100 000 pessoas tenham visitado o museu no ano passado, sem incluir as exposições itinerantes, que justapuseram objetos nas naves laterais das igrejas em Amesterdão ou ajudaram o povo sami, que habita a região remota do Ártico, na Noruega, a revelar-se de formas atípicas.

O antigo palácio do início do século XX, propriedade de um pintor abstrato croata, acolhe o Museu dos Corações Partidos na zona alta da cidade de Zagreb.

Com histórias consideradas privadas, o Museu dos Corações Partidos é um lugar necessário para fechar a ferida aberta de um desgosto amoroso. Uma investigação conduzida com recurso à ressonância magnética permitiu descobrir que o cérebro de uma pessoa, que está em sofrimento por uma desilusão amorosa, se assemelha ao cérebro de um adicto privado de cocaína. Um outro estudo, que monitorizava as formas como grupos de pessoas lidavam com o fim das relações amorosas, revelou que, se, por um lado, remoer no assunto nunca é boa ideia, refletir sobre aquelas pode ajudar a acelerar o processo de cicatrização das feridas abertas.

As buzinas dos carros em procissão anunciam a felicidade de quem segue caminho rumo a mais uma feliz união, enquanto os clientes do café vão e vêm. Depois de considerar a diversidade de histórias que compõem o museu, desde as mais engraçadas às mais angustiantes, românticas ou familiares, qualquer pessoa pode reabilitar-se deixando uma mensagem no livro de visitas do museu, colocado estrategicamente à frente de um espelho para que a pessoa se possa confrontar consigo mesma. Tal como diz Vištica, ”podemos sempre retirar algo positivo  de uma relação que acaba.”

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