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Um Grupo de Astrónomos Pode Ter Encontrado a Primeira Lua Extraterrestre

A descoberta poderá reconfigurar o nosso entendimento sobre o modo com as luas são formadas. Thursday, November 9, 2017

Perto das profundezas serpenteantes de um enorme mundo de fora do sistema solar, pode estar a crescer uma nova lua.

Esta semana, um grupo de astrónomos revelou as primeiras e prometedoras informações sobre uma enorme lua do tamanho de Neptuno que orbita um planeta gigante a cerca de quatro mil anos-luz de distância.

Se estas informações se confirmarem, a descoberta é de enorme importância. Esta lua singularmente grande seria a primeira detetada a orbitar um mundo fora do nosso sistema solar e abriria um novo capítulo no estudo do cosmos por parte dos astrónomos.

No entanto, descobrir uma lua a distâncias tão longínquas não é fácil, e, como acontece frequentemente com descobertas de planetas distantes, a equipa tem de obter mais dados para verificar a existência desta lua. Em outubro de 2017, os astrónomos vão preparar o telescópio espacial Hubble para estudar a estrela central do planeta, de forma a verificar se o sinal se confirma.

“Trata-se de um candidato intrigante e é evidente que nos sentimos suficientemente confiantes para pedir tempo para usar o Hubble”, diz, por e-mail, Alex Teachey, coautor do estudo e estudante de pós-graduação na Universidade de Columbia. “Mas queremos que fique bem claro que, neste momento, não estamos a reivindicar uma deteção.

MAIS UMA VITÓRIA DO KEPLER?

Se os resultados se confirmarem, esta lua será a última de uma série de descobertas do Kepler. Lançado em 2009, este observatório espacial descobriu mais de dois mil mundos fora do sistema solar e cerca de quatro mil candidatos a planetas. E os astrónomos ainda não estão prontos para deixar de explorar esta mina de conhecimento. Em junho, um grupo de astrónomos identificou, usando o Kepler, mais 219 candidatos a planetas fora do sistema solar, incluindo alguns que podem ser habitáveis, como a Terra.

O funcionamento do Kepler consiste em detetar planetas quando passam em frente às respetivas estrelas centrais a partir do ponto de vista da Terra. Este trânsito bloqueia momentaneamente uma porção da luz da estrela, provocando uma diminuição periódica da luminosidade aparente.

A deteção de uma lua a orbitar um planeta por meio desta técnica é extremamente difícil. As luas são ainda mais pequenas do que os planetas, o que significa que os seus trânsitos não bloqueiam grandemente a luz estelar. Além disso, os astrónomos têm de fazer um trabalho meticuloso de distinção entre os sinais da lua e os sinais do planeta que orbita.

Mas estes desafios não impediram os cientistas de tentar encontrar luas fora do sistema solar, algumas das quais podem ser habitáveis, como se da Pandora de Avatar ou das luas de Endor de Star Wars se tratasse. David Kipping, astrónomo da Universidade de Columbia e coautor do estudo lidera, desde 2012, a procura de exoluas com o Kepler (HEK), um trabalho de verificação dos dados do Kepler para encontrar sinais de luas.

O novo artigo dos investigadores, publicado no serviço de pré-impressão arXiv, centrou-se em 284 planetas do Kepler considerados mais passíveis de terem sistemas lunares semelhantes ao de Júpiter. A equipa organizou estatisticamente os dados do trânsito destes planetas na expetativa de encontrar marcas deixadas pelas luas no sinal coletivo.

Alguns dos planetas são do tamanho de Júpiter, mas encontram-se mais próximos das respetivas estrelas. Os astrónomos pensam que estes planetas, chamados “Jupíteres Quentes”, se formaram nas margens mais frias dos respetivos sistemas estelares e acabaram por migrar para o interior dos mesmos – o que faz com que surjam dúvidas acerca do que aconteceria às respetivas luas.

“Estão a olhar para planetas que estão muito mais próximos dos respetivos sóis do que Júpiter está do nosso”, diz o astrónomo do Observatório de Leiden Matthew Kenworthy, que não esteve envolvido no estudo. “Por isso a questão é se durante este processo de migração os grandes gigantes gasosos perdem as suas luas?”

De acordo com os dados mais recentes, nestes planetas descobertos pelo Kepler as luas não abundam. Segundo os investigadores, apenas 108 dos 284 mundos estudados poderão ter luas. Esta limitação sugere que muitos planetas semelhantes a Júpiter deixam de ter luas quando migram.

À ESPERA DO HUBBLE

Mas quando os investigadores aplicaram modelos lunares rápidos individualmente aos 284 planetas, também descobriram um prometedor sinal dado pelo Kepler-1625b. Havia outras manchas nos dados que sugeriam a existência de um outro corpo mais pequeno, do tamanho de Neptuno, a orbitar o planeta.

De acordo com determinados pressupostos, existe uma probabilidade máxima de 1 em 24 000 de que estas flutuações sejam um acaso. Embora este possa parecer um dado convincente, trata-se apenas de uma evidência na esfera da astrofísica. As observações do Hubble em outubro serão decisivas para a determinação de existência da lua.

Teachey, coautor do artigo, diz que se tivesse de apostar, apostaria uma garrafa de vinho — mas não o carro — na existência da lua. Mas, segundo o próprio afirma, não é apostador, e os outros astrónomos contactados para este artigo também não.

“Se for verdade, será fantástico”, diz Kenworthy. “Mas, para já, [os autores do estudo] dizem-no claramente, é prometedor. Não uma deteção.”

Sara Seaguer, cientista planetária do MIT e autoridade mundial em planetas de fora do sistema solar, concorda.

“Sempre que a palavra ‘candidato’ aparece no título [do estudo], é apenas isso: um candidato”, diz por e-mail. “Estou, de facto, ansiosa por conhecer as observações do telescópio espacial Hubble em 2017 para saber se há, na verdade, algo ali.”

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